O Domingão com Huck perdeu a espontaneidade com o excesso de gravações, quadros mornos e colaboradores apagados que pouco agregam em três horas de exibição. Na era do streaming, o dominical patina na mesmice, soando apático diante do dinamismo e da ousadia que marcaram a televisão nos anos 1990.
O ocaso do domingo: a apatia televisiva do “Domingão com Huck”
Por Denilson Andrade — Colunista de TV | Portal Exposed Brasil
Ligar a televisão em uma tarde de domingo costumava ser um ritual de grande expectativa, dinamismo e surpresas. Décadas atrás, os auditórios dos anos 1990 entregavam variedade pulsante, com apresentadores irreverentes que desafiavam o previsível e transformavam o palco em um território de genuína adrenalina. Hoje, no entanto, o telespectador que sintoniza a Rede Globo para assistir ao Domingão com Huck depara-se com o oposto exato: um looping de previsibilidade, marasmo e uma atmosfera profundamente engessada.
O principal calcanhar de Aquiles do programa contemporâneo reside na sua própria estrutura excessivamente enlatada e pré-gravada. Ao abdicar do frescor do ao vivo na maior parte de sua extensão, a atração esvazia qualquer possibilidade de improviso real. Falta o risco. Perde-se a espontaneidade no corte seco da edição, transformando o que deveria ser um show de variedades vibrante em um produto friamente industrializado.
Para piorar o cenário, o programa arrasta-se por cerca de três horas apoiado em um rodízio de colaboradores e jurados que parecem cumprir tabela. Plantados em sofás, estáticos e quase sempre acuados pela falta de espaço ou por diretrizes engessadas, eles falam pouco, opinam menos ainda e servem apenas como paisagem decorativa para um auditório que reage por comando de placa.
Neste cenário, a insistência em um formato morno cobra o seu preço de forma implacável. Em plena era dos streamings, onde o público tem o poder de escolher conteúdos velozes, altamente nichados, interativos e sob demanda a um clique de distância, a TV aberta não pode se dar ao luxo de oferecer um conteúdo apático e requentado. O telespectador de hoje não tem mais paciência para o óbvio burocrático.
O Domingão com Huck precisa urgentemente reencontrar a audácia e o pulso que justificam a grandiosidade de um horário nobre dominical. Do jeito que está, domingo após domingo, a sensação que fica é a de um gigante cansado que esqueceu como se diverte — e que, pior, parece não se importar com o fato de o público estar mudando de canal.










