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A consagração de Karine Teles: O retorno da operária das artes eleva o patamar estético do disputado elenco de Avenida Brasil 2.

Sob absoluto sigilo nos bastidores de Jacarepaguá, a estudiosa veterana se prepara para habitar o Divino e estraçalhar a mesmice com uma personagem desenhada para desestabilizar os novos ricos.

Coluna Denilson Andrade

Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades

Portal Exposed Brasil | Rio de Janeiro, 14 de Setembro

A consagração de Karine Teles: O retorno da operária das artes eleva o patamar estético do disputado elenco de Avenida Brasil 2

A teledramaturgia nacional, em sua vertente mais industrial e flagrantemente desesperada, há muito compreendeu que o amanhã é um território árido demais para se arriscar. Diante do abismo estético que assombra o horário nobre, a ordem na vênus platinada é canonizar o passado. É sob essa égide do eterno retorno que a TV Globo sacramentou o insólito: Avenida Brasil 2 é uma realidade datada para janeiro de 2027. Para além do inevitável e quase fúnebre resgate do duelo maniqueísta entre Carminha e Nina, a alta cúpula carioca decidiu injetar estofo intelectual de verdade no subúrbio ao recrutar a indefectível Karine Teles para integrar o elenco dessa nova era.
Cá entre nós, há um requinte de justiça poética nessa movimentação. Longe de qualquer facilidade palaciana, Karine edificou sua trajetória na base do suor, sendo reconhecida no meio artístico como uma profissional obsessivamente estudiosa, uma verdadeira batalhadora calejada pelos palcos e telas independentes. Em um mercado predatório, onde a disputa por um espaço na principal vitrine do país atinge contornos de arena romana, o que verdadeiramente nos causa júbilo e alento é constatar que uma atriz desse exato quilate e envergadura artística esteja de volta ao topo da pirâmide televisiva. Ela é o que a crítica minimamente letrada convencionou chamar de grife actoral, cuja mera escalação funciona como uma espécie de indulgência plenária para uma empreitada comercial ambiciosa.
Os burocratas de Jacarepaguá, pávidos com a possibilidade de esvaziar os parcos ossos da atual Quem Ama Cuida, guardam as minúcias sob absoluto sigilo. Esse calculismo corporativo é compreensível, embora denote o habitual pânico da emissora com o humor volúvel do sofá. O que se sussurra nos bastidores, contudo, é que Karine habitará o coração do Divino. A emissora tranca a sete chaves o nome e as características exatas de sua nova persona, um mistério que só faz inflamar a curiosidade do público. Sob a genial batuta de João Emanuel Carneiro e a direção artística de Ricardo Waddington, a atriz terá a deliciosa audácia de conferir densidade psicológica e uma ironia cortante a uma figura desenhada especificamente para oxigenar o microcosmo de paixões rasteiras que parou o país em 2012.
Resta saber se o pacto de sobrevivência da Globo, que agora mimetiza o vício de Hollywood em transformar obras fechadas em franquias intermináveis, resistirá ao escrutínio de um público que já não se rende tão facilmente ao eco de um “oi, oi, oi”. Arrojada e perspicaz por natureza, Karine Teles decerto sabe o peso do horário nobre que volta a ocupar por puro mérito de seu talento. Se a sequência será o apoteótico triunfo do melodrama ou apenas um pastiche crepuscular, o tempo dirá. Por ora, a presença magnética da atriz garante que haverá alta densidade dramática no set. E no Divino atual, meu caro, neurônios ativos e talento de verdade viraram o maior artigo de luxo.
 

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