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CONTRA A DITADURA DOS ROSTINHOS RECENTES: PATRÍCIA FRANÇA SEPULTA MIOPIA DO MERCADO EM PARAÍSO PERDIDO

Em um ecletismo calculado que une o gênio dramático e o zeitgeist digital, o retorno da veterana expõe o abismo que separa a verdadeira literatura televisiva do marasmo das redes...

Coluna Denilson Andrade de TV, Arte, Cultura e Celebridades

Portal Exposed Brasil — Rio de Janeiro, 12 de setembro

VÍCIOS DA BURGUESIA: O RETORNO DE PATRÍCIA FRANÇA E O PACTO FAÚSTICO DO GLOBOPLAY COM NELSON RODRIGUES

Há certas ausências na televisão brasileira que não configuram mero hiato, mas sim um desleixo de mercado. O afastamento de Patrícia França dos domínios globais, arrastando-se por enfadonhos onze anos desde que emprestou dignidade a um papel menor em Malhação, era uma dessas lacunas incômodas provocadas pela miopia dos escaladores, e não por um suposto autoexílio da atriz. Felizmente, para os paladares que ainda exigem espessura artística na tela, o jejum imposto termina agora. A atriz foi resgatada para o Éden, ou melhor, para o inferno particular de George Moura e Sergio Goldenberg. Ela integrará o elenco de Paraíso Perdido, a ambiciosa aposta do Globoplay que promete sacudir o marasmo do streaming nacional. Patrícia dará vida a Vanda, uma criatura que, sob o verniz rodriguiano, certamente carregará a ambiguidade incisiva que a atriz domina como poucos.
Falar em Nelson Rodrigues no Rio de Janeiro dos dias atuais é um exercício de argúcia perigosa. A espinha dorsal da trama, uma colcha de retalhos costurada a partir das vísceras de Bonitinha, mas Ordinária, A Mulher sem Pecado, Toda Nudez Será Castigada e Os Sete Gatinhos, não é para realizadores apegados à aprovação fácil das redes sociais. A diretora artística Joana Jabace, comandando os trabalhos ao lado dos diretores Luísa  Lima, assume o leme ciente de que a hipocrisia burguesa fluminense continua tão fresca e fétida quanto em 1960.
O elenco escalado é um primor de ecletismo calculado, flertando perigosamente entre a erudição teatral e o apelo algorítmico. Na linha de frente, a esfíngica Alanis Guillen encarna Maria Cecília, a filha de Werneck, interpretado por Alexandre Nero, e de Lígia, vivida por Maeve Jinkings. A aparente recatada arrasta o cunhado Peixoto, defendido pelo sempre surpreendente Eduardo Sterblitch, para bacanais suburbanos em Niterói, em uma releitura deliciosamente blasfema da obsessão moralista. Ao redor desse epicentro orbitam talentos colossais como Juan Paiva interpretando Edgar, Larissa Bocchino como Ritinha, Thainá Duarte como Joice e Maicon Rodrigues como Fabinho, além do gênio dramático de Júlio Andrade vivendo Herculano, Hermila Guedes como Geni e Enrique Diaz no papel de Olegário.
Para garantir que a audiência mais jovem não se perca nos labirintos da tragédia carioca, a produção comete o pragmatismo perspicaz de injetar figuras do zeitgeist digital e musical. MC Cabelinho surge como o perigoso Guará, Clara Moneke empresta seu carisma magnético à massagista Silene e o tiktoker Juliano Floss ganha o seu batismo de fogo na teledramaturgia como Heitor Filho. Unir tais extremos sob o teto da taradice sagrada de Rodrigues é um golpe arrojado. Resta saber se essa mistura de purpurina moderna e tragédia clássica resultará em alta literatura televisiva ou em um suntuoso desastre de audiência. As gravações oficiais começam impreterivelmente neste mês de setembro. A coluna, obviamente, assistirá de camarote, com o chicote da crítica devidamente afiado.

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