O Último Fechar de Cortinas: Morre Laura Cardoso, a Majestade Definitiva da Dramaturgia Brasileira
Pioneira absoluta, a atriz que inaugurou a Calçada da Fama da TV Globo faleceu aos 98 anos, deixando o país órfão de sua assinatura cênica mais visceral e inesquecível.
Por Denilson Andrade
Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades
Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades
O Brasil amanheceu em silêncio absoluto. Na noite desta segunda-feira (17), o cenário artístico nacional perdeu sua espinha dorsal, sua memória mais viva e sua presença mais terna. Laurinda de Jesus Balleroni, eternizada sob o nome de Laura Cardoso, faleceu de causas naturais em sua residência, em São Paulo, aos 98 anos. O anúncio, feito por seus familiares na madrugada desta terça-feira (18), encerra um dos capítulos mais longevos, brilhantes e viscerais da história das artes cênicas na América Latina.
Falar da partida de Laura Cardoso não é apenas relatar o fim de uma vida bem vivida; é registrar a transição de um patrimônio cultural do plano terreno para a imortalidade. Com uma trajetória rara que superou a impressionante marca de oito décadas dedicadas à interpretação, Laura não foi uma simples testemunha da evolução da mídia no país. Ela ajudou a fundá-la. Como bem lembrou o público em suas primeiras manifestações de luto, o país perde a artista que, no ano passado, teve a honra de inaugurar de forma pioneira a Calçada da Fama dos Estúdios Globo, consolidando em vida o fato de que seu nome está cravado para sempre nas fundações da nossa cultura.
O Brilho Eternizado em Vida: A Estreia na Calçada da Fama da Globo
Em outubro de 2025, por ocasião das celebrações de aniversário do complexo de gravações em Curicica, a Rede Globo tomou a decisão mais acertada que uma instituição cultural pode adotar: homenagear seus gigantes enquanto eles ainda estão aqui para ouvir os aplausos. Laura Cardoso foi escolhida para liderar o primeiro grupo de artistas a deixar as impressões de suas mãos e assinaturas no cimento da recém-inaugurada Calçada da Fama da Globo.
Ver Laura, aos 98 anos incompletos, sorrir para as câmeras, acenar para os fãs e eternizar sua estrela ao lado de outros monumentos como Fernanda Montenegro e Lima Duarte, foi um momento de catarse coletiva para a classe artística. Naquela tarde, a emissora não estava apenas inaugurando um espaço físico em seus estúdios, mas estava institucionalizando o óbvio: a teledramaturgia brasileira é o que é porque Laura Cardoso abriu os caminhos. Hoje, aquela placa de bronze deixa de ser um marco comemorativo para se tornar um santuário de peregrinação da memória afetiva de milhões de telespectadores.
A Soberana da Teledramaturgia: Mais de 60 Novelas e Personagens Eternas
Pioneira absoluta, Laura estreou na televisão em 1952 na extinta TV Tupi, participando do teleteatro Tribunal do Coração. Nas décadas seguintes, transitou por emissoras como a TV Record, TV Excelsior e TV Bandeirantes, antes de estrear na TV Globo em 1981, onde consolidou uma galeria inigualável de tipos humanos. ]
Décadas de Fundação (Anos 50, 60 e 70)
- Os Primórdios na TV Tupi: Atuou em clássicos fundamentais da era ao vivo e das primeiras produções gravadas, como Idas e Vindas (1952), As Professorinhas (1955) e O Sobrado (1956).
- Consolidação Teledramática: Brilhou em produções de grande apelo popular como Há um Ano de Amor (1964), O Ciganinho (1965), Abnegação (1966), Os Rebeldes (1967) e Algemas de Ouro (1969).
- Amadurecimento Artístico: Marcou época em folhetins densos como As Pupilas do Senhor Reitor (1970), Os Deuses Estão Mortos (1971), Quero Viver (1972) e Ídolo de Pano (1974).
A Era de Ouro e Clássicos Absolutos na TV Globo
Brilhante (1981): Sua icônica estreia na emissora carioca como Alda Sampaio.
Pão-Pão, Beijo-Beijo (1983): Interpretou a marcante e carismática Donana.
Livre para Voar (1984): Deu vida à humilde e batalhadora Marta.
Fera Radical (1988): Deixou sua marca como a imponente Marta Aurélio.
Rainha da Sucata (1990): Interpretou a elegante e tradicionalista Iolanda Maia.
Felicidade (1991): Viveu a inesquecível e doce Dona Cândida.
Mulheres de Areia (1993): Isaura, a sofrida mãe das gêmeas Ruth e Raquel. Um dos pontos mais altos e aplaudidos da história da teledramaturgia nacional.
A Viagem (1994): Guiomar, uma performance arrebatadora e brilhante de possessão espiritual que mesmerizou o público.
Explode Coração (1995): A cigana Soraya, injetando misticismo e altivez na tela.
O Rei do Gado (1996): Teve uma participação cirúrgica e emocionante como a mãe de Luana.
Vila Madalena (1999): Encantou o público no papel da carinhosa Bibiana.
Século XXI: A Consagração da Matriarca do Brasil
- Chocolate com Pimenta (2003): Dona Carmem, a rústica e sábia avó de Ana Francisca, dona de conselhos inesquecíveis baseados no “coração”.
- Como uma Onda (2004): A doce e carismática Francisca.
- Duas Caras (2007): A implacável e severa Silvana.
- Caminho das Índias (2009): Laksmi Ananda, a matriarca indiana que escondia os maiores segredos da trama.
- Gabriela (2012): Dona Doroteia, a falsa moralista da sociedade de Ilhéus, cujos bordões preconceituosos entraram para a história moderna da TV.
- Império (2014): Uma participação visceral como Jesuína Ferreira.
- Sol Nascente (2016): A grande e surpreendente vilã Sinhá, provando que sua energia cênica continuava indomável.
- O Outro Lado do Paraíso (2017): Caetana, a ex-dona de bordel cuja redenção e emocionante despedida pararam o país.
- A Dona do Pedaço (2019): Matilde, sua última aparição oficial em novelas de longa duração, esbanjando lucidez.
O Palco como Templo: A Trajetória no Teatro
O teatro foi a fundação de Laura Cardoso. Foi nos palcos que ela aprendeu a disciplina monástica que carregou até os últimos dias. Estreou profissionalmente em 1944 na icônica montagem infantil Alice no País das Maravilhas. Ao longo das décadas, trabalhou com os diretores mais vanguardistas do país e foi laureada com dois prestigiados Prêmios Shell de Melhor Atriz.
Peças de Destaque Nacional
- Alice no País das Maravilhas (1944): O ponto de partida profissional nos palcos.
- A Herdeira (1960): Performance elogiada pela crítica especializada da época.
- O Balcão (1969): Texto de Jean Genet sob a direção revolucionária de Ruth Escobar
- Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu (1979): Espetáculo que rodou o país e consolidou sua versatilidade dramática.
- A Feira de Sevilha (1980): Atuação magistral que rendeu aplausos calorosos da crítica.
- As Três Irmãs (1983): Defendeu o clássico de Anton Tchekhov com precisão cirúrgica.
- Vereda da Salvação (1993): Direção de Antunes Filho, uma das montagens mais impactantes do teatro brasileiro contemporâneo, onde Laura foi o pilar dramático.
- Medéia (1997): Tragédia grega onde sua voz imponente preencheu o espaço cênico de forma única.
- A Tempestade (2000): William Shakespeare interpretado com a maturidade que só as grandes damas possuem. [5]
Sétima Arte com Alma: A Cinematografia de Ouro
No cinema, Laura participou de mais de 20 longas-metragens. Sua presença na tela grande sempre trouxe um realismo estético impressionante. Colecionou três troféus Grande Otelo (Grande Prêmio do Cinema Brasileiro) e recebeu a honraria máxima do setor: o Troféu Oscarito na Calçada da Fama do Festival de Cinema de Gramado em 2023.
Filmografia Essencial
- Imitando o Sol (1964): Sua estreia no formato de longa-metragem.
- O Rei da Noite (1975): Sob a direção do mestre Héctor Babenco.
- Terra Estrangeira (1995): Clássico de Walter Salles e Daniela Thomas, onde interpretou a mãe de Alex.
- Através da Janela (2000): No papel de Carmelita, entregou uma das atuações mais aclamadas do cinema nacional, vencendo o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Miami.
- Copacabana (2001): De Carla Camurati, desempenho irretocável que lhe garantiu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.
- O Outro Lado do Rua (2004): Ao lado de Fernanda Montenegro, um encontro histórico de titãs da atuação.
- Muita Calma Nessa Hora (2010): Mostrando seu tempo de comédia impecável para as novas gerações.
- De Onde Eu Te Vejo (2016): Uma participação terna e cheia de camadas sobre o envelhecimento urbano.
- Dona Rosinha (2025): Seu último trabalho audiovisual. Curta-metragem onde, já aos 97 anos, protagonizou uma emocionante despedida artística demonstrando a paixão inabalável que sempre teve pelo seu fazer.
A Imortalidade Cênica
Laurinda sai de cena hoje, mas deixa o Brasil devidamente documentado através de sua arte. Cada reprise, cada frame de cinema, cada memória teatral e aquela estrela brilhando eternamente no chão dos Estúdios Globo resguardarão a imortalidade de Laura Cardoso. Para o público do Exposed Brasil, ela não se despede; ela se fixa definitivamente na galeria dos nossos heróis nacionais. Palmas eternas para a maior de todas!











