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O relógio da dramaturgia brasileira acaba de ganhar um ponteiro afiadíssimo

Sob a batuta de Luisa Lima, o primeiro dia de gravações no Rio de Janeiro revela um thriller psicológico que troca o melodrama pela precisão de um bisturi.

Por Denilson Andrade | Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades para o portal Exposed Brasil



Rio de Janeiro, 02 de Setembro de 2026
O relógio da dramaturgia brasileira acaba de ganhar um ponteiro afiadíssimo.
Com o pontapé inicial das gravações dado hoje no Rio de Janeiro, “Resposta ao Tempo”, a nova minissérie original do Globoplay, já mobiliza os bastidores com a promessa de chacoalhar o streaming. Sob a batuta cirúrgica da autora Lícia Manzo, que retorna à emissora em um formato de 10 episódios, o projeto abre mão do melodrama convencional para entregar uma autópsia psicológica crua, ágil e vestida com a elegância de um autêntico thriller.
Sob a direção artística de Luisa Lima, conhecida pelo sucesso de Os Outros, a narrativa vai transitar entre os anos 1990 e o presente. O ponto de partida é a amizade de quatro nadadoras campeãs na juventude, com a talentosa Lara Tremouroux capitaneando a fase jovem no papel de Ana. Três décadas depois, o reencontro do quarteto em uma praia carioca é brutalmente interrompido quando um tiro ecoa e um corpo tomba na água. A argúcia pragmática da estrutura de Lícia está desenhada porque o espectador sabe que uma delas morreu, mas a identidade da vítima vira o grande enigma da história.
Acompanhando a movimentação desse primeiro dia de set, fica clara a potência do quarteto principal na fase adulta. O texto coloca grandes atrizes para destrinchar dores universais que passam longe do factual de telejornal. Débora Bloch empresta sua densidade magnética a Ana, uma mulher sufocada por um casamento abusivo com Caio, papel do sempre impecável Fabio Assunção. Drica Moraes encarna uma médica oftalmologista assombrada por um trauma profundo de infância e pelas dores invisíveis de criar um filho com síndrome de Down diante da ausência crônica do ex-marido.
O vigor e a urgência social da realidade ganham vida com Edvana Carvalho, que interpreta Carla, uma professora de educação física enfrentando o desemprego e a necessidade de se reinventar após os 50 anos. Já Giulia Gam, em um retorno apoteótico à dramaturgia fixa da emissora após mais de uma década, assume a carga mais dramática da trama na pele de Heloísa, lidando com o diagnóstico de uma doença terminal e com a dor do ninho vazio. Completando o time de peso, Rejane Faria vive a ex-treinadora Sandra e Cássio Gabus Mendes interpreta Alfredo.
O grande mérito de Resposta ao Tempo é usar o esporte e a passagem dos anos como metáforas para a resistência feminina. Em um país onde a violência de gênero é estatística diária, a série acerta ao não transformar o crime em espetáculo barato, mas sim no ápice de engrenagens sociais diárias, sutis e sufocantes. É um produto arrojado, inteligente e necessário para o mercado de streaming nacional. O tiro que mancha o espelho d’água na primeira cena ecoará por muito tempo nas nossas telas.
Qualquer racha nos bastidores ou nova pista dessa trama que começou a ganhar vida hoje, eu conto primeiro aqui na nossa coluna do Portal Exposed Brasil.
 

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