O Olimpo Cultural em Silêncio: A Imortalidade de Glória Menezes e o Duplo Luto da Arte Nacional
Por Denilson Andrade
Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades
Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades
Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2026 —
O Brasil amanheceu órfão de sua mais nobre soberania artística. Em um intervalo de pouquíssimas horas, a cultura nacional sofreu um abalo sísmico, uma perda dupla e imensurável que encerra, de forma definitiva, os capítulos mais aristocráticos da história da nossa teledramaturgia. Se a noite anterior já havia nos roubado a magnitude de Laura Cardoso, a operária maior e mais visceral dos nossos palcos, que nos deixou aos 98 anos, a tarde de hoje nos impõe o doloroso exercício de nos despedirmos da matriarca absoluta da nossa televisão: a magnífica Glória Menezes faleceu nesta terça-feira, aos 91 anos, em seu apartamento no Rio de Janeiro, vítima de causas naturais. Ver duas divindades de tamanha envergadura recolherem-se ao silêncio em um sopro de tempo é testemunhar o fim definitivo de uma era de ouro.
Falar de Glória Menezes não é apenas recordar uma intérprete de primeira grandeza; é folhear as páginas mais brilhantes e fundamentais da história da nossa comunicação. Nilcedes Soares de Magalhães — seu nome de batismo — transformou-se em Glória para iluminar o imaginário de milhões de brasileiros por mais de seis décadas. Ela não apenas atuava; Glória moldou a própria estrutura do drama na televisão. Foi ela a protagonista de 2-5499 Ocupado (1963), a primeiríssima telenovela diária do país. Dali em diante, sua fisionomia e sua voz de timbre inconfundível tornaram-se parte indissociável da identidade e do lar nacional.
Sua versatilidade magistral permitia-lhe caminhar, com a elegância aristocrática que lhe era nata, entre a doçura e a fúria. Como esquecer o triplo desafio em Irmãos Coragem (1970), onde deu vida às facetas de Lara, Diana e Márcia? Ou a força popular de Ana Preta em Pai Herói (1979)? O país parou para rir e se emocionar com sua Roberta Leone no clássico Guerra dos Sexos (1983), e depois odiou e reverenciou a soberba de Laurinha Figueroa em Rainha da Sucata (1990). Glória tinha o raro poder de fazer com que o público esquecesse a tela e vivesse, de forma visceral, as dores e alegrias de suas personagens.
A partida de Glória, ocorrendo de forma quase simultânea à de Laura Cardoso, une no panteão eterno duas pioneiras que desbravaram a TV ao vivo e o rádio quando tudo ainda era paixão e improviso.
Ambas cultivavam uma admiração mútua e histórica; anos atrás, a própria Laura fez questão de registrar publicamente seu carinho por Glória e por seu eterno companheiro, Tarcísio Meira, lembrando com nostalgia os tempos em que dividiam os estúdios da antiga TV Tupi.
O destino, em sua misteriosa e poética caligrafia, desenhou um paralelismo impressionante nesta despedida. Assim como em agosto de 2021 o Brasil chorou a perda de Tarcísio Meira menos de 24 horas após o adeus ao genial Paulo José, hoje a história repete sua dolorosa simetria. Glória Menezes parte exatamente um dia após Laura Cardoso, unindo os casais de amigos e parceiros históricos em um intervalo idêntico de tempo. É como se o plano espiritual estivesse com pressa para remontar o maior elenco que este país já viu.
Fora dos holofotes, Glória protagonizou a maior história de amor que o show business brasileiro já testemunhou. Ao lado de Tarcísio, construiu uma parceria mítica de 59 anos. Em uma dessas tocantes ironias que parecem escritas por um autor celestial, Glória nos deixa exatamente no mesmo mês de agosto em que Tarcísio partiu, cinco anos atrás, em 2021. Fica o consolo poético de saber que o casal real da nossa TV agora se reencontra, acompanhado na eternidade pelo talento gigante de Laura Cardoso e Paulo José.
Como colunista, mas acima de tudo como um espectador apaixonado pela cultura deste país, curvo-me diante da memória de Glória Menezes. O portal Exposed Brasil se une em aplausos de pé a essa mulher que dignificou o ofício de interpretar. O brilho de Glória e Laura é eterno, imutável e patrimônio do povo brasileiro. Obrigado por tanto, nossas eternas damas.











