A Força do Pensamento e o Charme da Maldade: O Comitê de Vilãs de Pedro Bial
Por Denilson Andrade
Colunista de TV do portal Exposed Brasil
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No atual cenário da TV aberta, onde as fronteiras entre o bem e o mal parecem cada vez mais borradas por exigências de realismo, o Conversa com Bial desta terça-feira (28) opera um resgate histórico fundamental. Pedro Bial reúne no sofá três potências de gerações distintas: as veteranas Susana Vieira e Lilia Cabral, ao lado de Isabel Teixeira, o grande destaque da atual novela das nove, Quem Ama Cuida. O encontro, que vai ao ar após a série Pablo & Luisão, destrincha a engenharia por trás do ódio e do fascínio que as antagonistas despertam no público brasileiro.
A Câmera que Filma o Subtexto
O grande trunfo metodológico da noite reside nas filigranas da atuação expostas pelas convidadas. Isabel Teixeira, hoje na pele da perversa Pilar Brandão, trouxe um insight técnico sofisticado sobre o minimalismo na TV contemporânea ao citar uma lição do diretor Walter Carvalho: “A atriz vive de subtexto. A personagem fala uma coisa e pensa outra. E o pensamento aparece. A câmera filma o pensamento”. A declaração sintetiza a transição da vilania espalhafatosa para a malícia psicológica.
Lilia Cabral endossou a tese, apontando que as novelas mudaram drasticamente de linguagem e complexidade nas últimas décadas. Para Lilia, que coleciona tipos duros como a inesquecível Marta de Páginas da Vida, a verdadeira crueldade muitas vezes se esconde nos detalhes cotidianos: “Às vezes a vilania está em um gesto, numa escolha aparentemente silenciosa”.
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| ATRIZ | ANTAGONISTA EMBLEMÁTICA | FILOSOFIA DA VILANIA APRESENTADA |
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| Susana Vieira | Branca Letícia de Barros | A força cortante do texto e da |
| | (Por Amor) | ironia social da elite. |
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| Lilia Cabral | Marta | O gesto silencioso e as escolhas |
| | (Páginas da Vida) | frias e realistas do cotidiano. |
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| Isabel Teixeira | Pilar Brandão | O subtexto e a verdade interna que |
| | (Quem Ama Cuida) | a câmera capta pelo pensamento. |
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O Peso do Texto e o “Efeito Maneco”
Como não poderia deixar de ser, a icônica Branca Letícia de Barros Mota, defendida por Susana Vieira in Por Amor (1997), foi o epicentro do debate sobre a era de ouro dos folhetins. Susana relembrou o requinte estético e textual com que Manoel Carlos desenhava suas vilãs: “A vilania dela era o texto. Ela sentava à mesa, pedia duas torradas e dizia coisas terríveis”. A veterana ainda pontuou que o autor usava a personagem como um canal de crítica ácida à própria alta sociedade carioca.
O ápice da descontração e da simbiose entre as atrizes ocorre quando o trio revive, no palco, os trejeitos, olhares milimetricamente calculados e os bordões dessas personagens. Susana, inclusive, admitiu ter incorporado o clássico mantra de Branca para sua própria rotina: “Olha para a minha cara. Olha para a minha tez”.
Memória Afetiva Coletiva
Mais do que uma discussão sobre técnica de atuação, a edição do talk-show escancara o papel antropológico da telenovela na formação cultural do país. Em um dos momentos mais emocionantes dos bastidores adiantados pela emissora, Isabel Teixeira verbalizou o sentimento de milhões de telespectadores ao olhar para Susana Vieira: “Quando ouvi a voz da Susana hoje, veio uma memória muito antiga. É uma voz da minha família. E não é só da minha família, é da família de milhões de brasileiros”.
Bial, com sua habitual precisão cirúrgica, costura o debate levantando uma provocação clássica que promete dividir opiniões: no balanço final da ética folhetinesca, quem foi mais vilã? A assumidamente perversa Branca Letícia ou a Helena que tomou a decisão unilateral de trocar os bebês na maternidade? A resposta, rica em nuances, é um prato cheio para quem consome e estuda a televisão brasileira.










