COLUNA DENILSON ANDRADE
Por Denilson Andrade, Rio de Janeiro, 12 de setembro de 2026
Portal Exposed Brasil
A Anatomia do Talento: Julia Stockler e a Estética da Densidade, de Guida a Suely
Há uma máxima na crítica teatral que prega que o ator comum decora o texto, enquanto o ator excepcional decora o silêncio. Na vertigem contemporânea de Quem Ama Cuida, folhetim em que Walcyr Carrasco e Cláudia Souto dividem as rédeas de uma audiência faminta, a entrada tardia de Julia Stockler no papel da secretária Suely operou um fenômeno raro no horário nobre: o sequestro afetivo da narrativa. O que se desenhava como uma coadjuvante de luxo para amparar a vingança de Adriana, vivida por Letícia Colin, transformou-se no eixo ético e dramático da novela.
A consagração que Stockler experimenta hoje, recebendo os louros da crítica, como a unânime Nota 10 do jornal O Globo, e mobilizando discussões sociológicas nas redes, não é fruto do acaso ou de um mero alinhamento de astros do showbizz. Trata-se, em verdade, do amadurecimento público de uma das atrizes mais cerebrais de sua geração. Stockler não se rendeu ao cinismo da atuação pasteurizada; ela joga no campeonato do risco.
Para o espectador de memória curta, vale o resgate arqueológico. O verniz dramático com que Julia hoje expõe as vísceras do assédio moral praticado pelo carrasco Ademir, defendido por um Dan Stulbach em estado de graça sádica, foi forjado em terreno sagrado. Quem não se lembra de sua irrupção avassaladora no cinema como a sofrida Guida de A Vida Invisível (2019)? Sob a direção operística de Karim Aïnouz, Julia não apenas dividiu o protagonismo com Fernanda Montenegro, ela faturou o prêmio de Melhor Atriz e ancorou o longa que saiu aplaudido de pé no Festival de Cannes. Ali, o cinema internacional já entendia que a fisionomia de Stockler carrega a melancolia trágica das grandes heroínas clássicas.
O ecletismo de sua assinatura cênica passeou, sem pedir licença, por diferentes telas. No subestimado longa Mate-Me Por Favor (2015) e no intimista A Cozinha (2022), dirigido por Johnny Massaro, ela provou que transita pelo indie com o mesmo frescor jovial com que encara o melodrama clássico. Mesmo quando a indústria flertou com o pernóstico no streaming, Julia subverteu as expectativas: sua arrebatadora Gisela na novela Beleza Fatal (2025, Max), lidando com a dismorfia corporal em um ambiente asfixiante, foi o verdadeiro passaporte estético que carimbou seu retorno triunfal à TV aberta.
Voltar à Globo e transformar a dor subalterna de Suely em uma performance desprovida de artifícios histriônicos é um tapa de luva na obviedade. Stockler não vitimiza suas personagens; ela as mune de uma sobrevivência pragmática, quase altiva. O iminente e claustrofóbico capítulo 100 colocará a ex-secretária diante do tribunal administrado por seu próprio abusador. Se ela irá trair a aliança com a protagonista ou sustentar o pacto de justiça, o roteiro dirá. Mas no tribunal da relevância artística, Julia Stockler já se tornou imune a qualquer veredito duvidoso. Ela é, hoje, a espinha dorsal do bom gosto na televisão brasileira.











