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O último ato de um pioneiro: O legado definitivo de Gracindo Júnior, a nobreza e a vanguarda da nossa dramaturgia

Casado com Daisy Poli e pai de talentos, o pioneiro do primeiro elenco da TV Globo encerra sua jornada cercado pelo afeto de familiares, amigos e de uma classe artística...

Coluna de TV, Arte, Cultura e Celebridades por Denilson Andrade

Portal Exposed Brasil – Rio de Janeiro, 02 de setembro de 2026

Crônica de um artista completo: O adeus a Gracindo Júnior e a eternidade de um pioneiro da nossa cultura

O cenário artístico brasileiro amanheceu mais silencioso e reverente nesta quarta-feira. Aos 83 anos, Gracindo Júnior nos deixou na noite da última terça-feira (1º) em sua residência no Rio de Janeiro. Nascido Epaminondas Xavier Gracindo, carregar um dos sobrenomes mais pesados da cultura nacional por ser filho do inesquecível monstro sagrado Paulo Gracindo poderia ser o fardo de qualquer herdeiro comum. No entanto, Gracindo Jr. transformou a linhagem em combustível para uma das carreiras mais versáteis, intelectualizadas e longevas da nossa história, transitando com a mesma elegância pelos estúdios de rádio, palcos teatrais, sets de cinema e a nascente televisão brasileira.
Falamos de um operário da arte que não apenas testemunhou a história da TV, mas ajudou a escrevê-la com as próprias mãos. Antes mesmo de a TV Globo ascender ao ar em abril de 1965, Gracindo já havia sido contratado, em dezembro de 1964, integrando o primeiríssimo e histórico elenco da emissora. Sua marca estava lá, na gênese da teledramaturgia diária, com passagens marcantes por produções que pavimentaram o veículo. A veia artística de Gracindo pulsou cedo, pois aos 15 anos ele já encarava os microfones da lendária Rádio Nacional atuando como redator, disc-jóquei e intérprete. Curioso por essência, chegou a flertar com os bancos da faculdade de Psicologia, mas a urgência dos palcos falou mais alto. Em 1961, estreou no teatro profissional na peça A Escada, de Oswald de Andrade.
Sua trajetória intelectual e política também exigiu coragem. Militante e pensador atento ao seu tempo, enfrentou a censura e a cassação de suas atividades no rádio pelo regime militar em 1964. Longe de se intimidar, canalizou sua força inventiva para os canais de televisão e para a direção teatral e televisiva, assinando a direção de clássicos e até mesmo o comando de programas de enorme apelo popular como Os Trapalhões, nos anos 1980.

A monumental filmografia na televisão

A tela da TV foi o grande altar onde Gracindo Júnior desfilou sua sofisticação e capacidade de reinvenção ao longo de dezenas de produções na TV Globo e em outros canais. Como pioneiro da emissora carioca, ele esteve no embrião das primeiras novelas do país, participando de Rosinha do Sobrado em 1965, Padre Tião em 1966, A Rainha Louca em 1967 e A Próxima Atração em 1970. Em Os Ossos do Barão em 1973 e no clássico político O Bem-Amado em 1973 onde viveu o inesquecível Jairo Portela, dividiu os estúdios com seu pai.
O ápice de sua simbiose geracional aconteceu em O Casarão em 1976, obra-prima de Lauro César Muniz. Na trama, ele e seu pai dividiram o mesmo personagem, o pintor João Maciel, em diferentes fases da vida. Essa foi uma comunhão de talentos que emocionou o país e permanece como um dos momentos mais sublimes da história da TV. Na sequência, atuou em Supermanoela em 1974, Malu Mulher em 1979, Mandala em 1987, O Salvador da Pátria em 1989, Rainha da Sucata em 1990, Deus nos Acuda em 1992, Explode Coração em 1995, Anjo de Mim em 1996, Esplendor em 2000, Celebridade em 2003 e na série Tenda dos Milagres em 1985.
Como diretor e supervisor da Globo, comandou as novelas Memórias de Amor em 1979 e Marron-Glacé em 1979, além de episódios do Sítio do Picapau Amarelo e a direção do humorístico Os Trapalhões em 1983. No início daquela década, também participou ativamente da criação dos primeiros videoclipes musicais exibidos pelo Fantástico.
Fora da Globo, o ator deixou um legado brilhante ao protagonizar a novela Dona Beija em 1986 na Rede Manchete, canal onde também realizou a novela Tudo ou Nada em 1986. Anos mais tarde, na Record, deu show de maturidade cênica em Cidadão Brasileiro em 2006, Poder Paralelo em 2009, Pecado Mortal em 2013 e na minissérie épica Rei Davi em 2012. Em 2019, realizou sua última participação nas telas em uma produção para a plataforma Prime Video.

O encontro de gigantes: A parceria histórica com Marília Pêra e a trajetória teatral

O rigor cênico de Gracindo Júnior encontrou eco perfeito nas maiores divas e mestres do nosso espetáculo. A sua ligação com a genial Marília Pêra foi uma das mais bonitas da história da nossa cultura, totalizando cinco décadas de profunda amizade nos palcos e estúdios. A parceria começou na própria certidão de nascimento da TV Globo, quando os dois formaram o par romântico central da novela Rosinha do Sobrado em 1965.
Nos palcos, a dupla protagonizou momentos de pura vanguarda estética. Em 1977, sob a direção revolucionária do coreógrafo Klauss Vianna, Gracindo e Marília Pêra estrelaram O Exercício, uma montagem de forte teor psicológico que debatia a crise de um casal de atores. A peça tornou-se antológica pelo arrojo técnico dos intérpretes, que terminavam a encenação nus no palco exclamando que estavam prontos para a arte. Anos mais tarde, em 1999, eles voltaram a magnetizar as plateias em O Altar do Incenso, drama denso de Wilson Sayão sob a direção de Moacir Chaves. Pouco antes da partida de Marília, os dois grandes amigos ainda chegaram a ensaiar um projeto teatral sob a batuta de outra gigante, a diretora Bibi Ferreira, em um encontro de bastidores que exalava a mais pura nobreza do teatro brasileiro.
Sua dedicação aos palcos incluiu a montagem de mais de 20 peças ligadas a textos de forte cunho reflexivo e social. Além de estrear em A Escada em 1961, ele atuou em espetáculos históricos de Oduvaldo Vianna Filho e estreou como diretor teatral na peça A Longa Noite de Cristal em 1976. Depois do sucesso de O Casarão, viajou para Portugal e dirigiu a peça É, de Millôr Fernandes, que ficou em cartaz por quatro meses com imensa repercussão de público. Um dos ápices mais comoventes de sua maturidade artística nos palcos brasileiros foi a oportunidade de dirigir o próprio pai nos espetáculos Num Lago Dourado em 1991 e A História é uma História em 1993, conduzindo o mestre com a delicadeza de quem compreendia como poucos o peso do ofício de representar.
A química real e imperial: A parceria histórica com Maitê Proença
Na metade da década de 1980, a Rede Manchete propôs uma revolução estética na televisão brasileira, e Gracindo Júnior foi convocado para liderar essa vanguarda ao lado de uma das maiores musas do país, a atriz Maitê Proença. Juntos, os dois construíram uma das parcerias mais explosivas, magnéticas e bem-sucedidas da história do audiovisual nacional.
O primeiro grande encontro dessa dupla de gigantes aconteceu em 1983 na minissérie A Marquesa de Santos. Na pele do passional Imperador Dom Pedro I, Gracindo Júnior encontrou em Maitê Proença, que interpretava a icônica Domitila de Castro, o espelho ideal para a sua intensidade dramática. A fita arrebatou o público pela sofisticação cênica e pela química avassaladora entre os protagonistas, pavimentando o caminho para o que viria a ser um marco definitivo da nossa cultura.
Em 1986, eles pararam o Brasil na superprodução Dona Beija. Vivendo o intenso, aristocrático e trágico romance entre o estancieiro Antônio Sampaio e a mítica protagonista de Araxá, Gracindo e Maitê atingiram o status de mitos da nossa teledramaturgia. A forma madura, arrojada e repleta de paixão com que os dois conduziam seus embates em cena redefiniu o conceito de casal protagonista, provando que Gracindo Júnior possuía o magnetismo dos grandes galãs europeus aliado ao rigor técnico do teatro brasileiro.
O olhar analítico e preciso na cinematografia
 
Sua filmografia no cinema abrangeu desde comédias populares de enorme sucesso comercial até produções internacionais de prestígio e dramas psicológicos refinados. O ator transitou com total maestria por fitas marcantes que estão registradas na história do nosso audiovisual. 
Sua ampla trajetória nas telonas incluiu participações em produções nacionais e internacionais, como os longas dramáticos Os Homens que eu Tive em 1973, As Moças Daquela Hora em 1973 e O Dia Marcado em 1977. No campo da comédia de grande apelo e da aventura, destacou-se em Os Trapalhões na Serra Pelada em 1982, Tensão no Rio em 1984 e O Trapalhão na Arca de Noé em 1983. Também brilhou internacionalmente em A Floresta das Esmeraldas em 1985 sob a direção de John Boorman, além de participar de Buena Sorte em 1986, Desterro em 1991, A Hora Marcada em 2000, Bufo e Spallanzani em 2001, A Selva em 2004, Primo Basílio em 2006 e Segurança Nacional em 2010. [1]
 

A comoção e o afeto nas mensagens de despedida dos famosos

A partida de Gracindo Júnior repercutiu profundamente entre colegas de profissão, amigos e familiares, que expressaram sua admiração e pesar pelo legado deixado pelo ator. Manifestações de carinho e notas oficiais homenagearam sua contribuição inestimável à cultura nacional.

O descanso eterno do gentleman da cultura

Gracindo Júnior deixa a esposa Daisy Poli, com quem foi casado por mais de 50 anos, além de 5 filhos e 7 netos. O velório público ocorreu no Crematório e Cemitério da Penitência, no Rio de Janeiro. Fecham-se as cortinas para o homem, mas eterniza-se o pioneiro.

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