O AMARGO DA MEMÓRIA
Por Denilson Andrade Coluna de TV, Arte e Celebridades
Televisão é uma engrenagem que vende ilusões perfumadas para camuflar coxias mofadas. Quando Maitê Proença resolve se sentar diante do repórter Valmir Moratelli, no sempre providencial espaço de Veja Gente, o telespectador saudosista deveria vestir luvas de boxe. Não há ali espaço para o desfile edulcorado de recordações condescendentes. Aos 68 anos, a atriz dispensa a liturgia dos ex-globais gratos e prefere a lâmina amolada do pragmatismo: desentera a hostilidade dos bastidores dos anos 1980, disseca os caprichos do estrelato e escancara a poeira por baixo do tapete vermelho da vênus platinada.
O início da carreira, resgatado na sabatina, expõe o batismo de fogo a que foi submetida. Maitê nunca planejou a atuação; caiu de paraquedas no veículo mais cruel da cultura de massa nacional. E a recepção não contou com tapete vermelho. A menção aos episódios de hostilidade por parte de veteranas da época, com destaque para os atritos marcantes com figuras como Betty Faria nos primórdios de sua trajetória, escancara o clima de trincheira da Teledramaturgia de então. Não havia sororidade no horário nobre; havia a preservação feroz de território. Maitê evoca o clima de vaidades sem ressentimento melodramático, mas com a precisão cirúrgica de quem sobreviveu ao massacre e aprendeu a devolver na mesma moeda ou no silêncio solene.
O desligamento da TV Globo, ocorrido após quase quatro décadas de contrato fixo, ganha contornos de acerto de contas pragmático. A emissora, que hoje patina no cinismo de uma renovação geracional calcada em métricas de engajamento digitais, descartou quem construiu os pilares da sua era de ouro. A atriz não chora a demissão; constata a indigência estética e institucional do modelo atual. Sua saída não foi um ponto final na carreira, mas o atestado de óbito de uma televisão que já não existe mais.
Ao destrinchar os bastidores do canal, Maitê despe-se da aura de diva para assumir o papel de testemunha ocular do cinismo televisivo. Falou-se de drogas, afetos, desafetos e da política interna que move os bastidores da fama. O texto que sai de sua conversa com Moratelli não é um desabafo de camarim: é uma anatomia sobre como o meio artístico engole suas próprias crias assim que o viço da juventude cede espaço ao peso da maturidade.
Para quem assiste de fora, a entrevista é uma aula de sobrevivência e ironia. Maitê Proença provou que a verdadeira elegância na maturidade não é perdoar o passado por conveniência, mas contá-lo exatamente como ele foi: ríspido, vaidoso e terrivelmente fascinante.











