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Edição de Colecionador: A lucidez inabalável de Nathalia Timberg aos 97 anos e os bastidores de um encontro histórico com Marcus Montenegro

Em episódio antológico do 'Ser Artista Podcast', a maior dama da dramaturgia brasileira celebra quase um século de vida e 90 anos de carreira, revelando memórias íntimas, a genialidade orgânica...

Coluna Denilson Andrade
TV, Arte, Cultura e Entretenimento

Rio de Janeiro, 7 de agosto de 2026 | Portal Exposed Brasil

O Infinito de Nathalia Timberg: Uma Vida Dedicada ao Ofício, à Lealdade e ao Rumo ao Guinness Book
Por Denilson Andrade
 
No ar no último dia 6 de agosto, a edição de número 94 do Ser Artista Podcast — eleito o melhor programa do segmento pela Revista Fama e pelo Portal iG — promoveu um daqueles momentos raros e históricos que a engrenagem do entretenimento raramente consegue replicar. Diante do microfone, a genial Nathalia Timberg — uma instituição viva da nossa dramaturgia — celebrou um marco inacreditável: 97 anos de vida e 90 anos de uma carreira absolutamente ativa, lúcida e pulsante. Conduzido pelo empresário e produtor Marcus Montenegro, o episódio especial foi muito além de uma entrevista convencional; transformou-se em um tratado sobre afeto, rigor profissional e a mística do fazer teatral.
 
Rumo ao Livro dos Recordes: A Atriz que Mais Trabalhou no Mundo
 
Diante de uma trajetória tão monumental que atravessa quase um século, Marcus Montenegro tocou em um assunto que promete colocar a dramaturgia brasileira no topo do planeta. O produtor ponderou que, com 90 anos de carreira ativa, fica virtualmente impossível para o público ou para a crítica eleger um único “principal trabalho” na vida da atriz.
 
Foi então que Montenegro revelou um projeto de bastidores conduzido em parceria com Hermes Frederico: os dois estão trabalhando ativamente para inscrever Nathalia Timberg no Guinness Book (o Livro dos Recordes). O objetivo é oficializá-la internacionalmente com o título de a atriz que mais trabalhou no mundo ao longo da história. A revelação coroa o status de lenda viva de Nathalia, cujo impacto cultural e volume de produção artística são simplesmente incomparáveis em escala global.
 
 
O Dia em que Nathalia Parou o Maracanãzinho com a Palma da Mão
 
 
A magnitude desse fenômeno popular foi resgatada por Montenegro ao relembrar um trecho do documentário dirigido por Hermes Frederico sobre a carreira da atriz. Marcus recordou o dia em que foi convidado por Hermes para assistir a uma aula de Nathalia na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras). No meio da palestra, foi exibida uma fotografia histórica que ilustra uma das maiores lendas da televisão brasileira: o dia em que Nathalia Timberg lotou o Maracanãzinho para o final da lendária novela O Direito de Nascer (1964) e, vestida como sua personagem, a sofrida Irmã Helena, controlou a multidão em êxtase com um único gesto.
 
Questionada por Marcus se as memórias daquele dia em que “parou o Maracanãzinho com a mão” continuavam vivas, a atriz confirmou que sim, mas fez uma ponderação cirúrgica sobre os pergelos do ego. “É engraçado, porque quando você consegue segurar uma multidão com a mão, você não pode se enganar em relação a isso. Uma pessoa pode facilmente se iludir e pensar que tem dons sobrenaturais”, alertou. “A verdade é que não é você. Foi um gesto usado de certa maneira para impor um ‘fica aí, calma’.”
 
Para Nathalia, o teatro, o cinema e as artes cênicas possuem a beleza de permitir que as pessoas projetem nos atores aquilo que elas recebem e imaginam juntas. O verdadeiro triunfo, segundo ela, ocorre no momento exato em que a comunhão cênica se estabelece. “Quando sinto que a comunhão acontece, é uma sensação de plenitude, de que consegui chegar lá no emocional e na inteligência das pessoas. É isso que o artista procura, qualquer que seja o meio”, explicou.
 
Derrubando qualquer mística de superioridade, a veterana concluiu que o fenômeno é puramente humano. “Isso não quer dizer que o ator seja especial ou sobrenatural por conseguir fazer isso. Quer dizer que, quando você alcança o público, a multidão de repente se acalma com o seu gesto porque ela projeta muito de si mesma naquilo que a tocou. E quando o público é tocado, ele se torna totalmente receptivo.”
 
O Teatro Itinerante: Da Lona de Circo ao Juizado de Menores
 
Tendo produzido inúmeras peças ao lado da atriz, Montenegro ressaltou que, embora ela tenha brilhado intensamente na televisão e no cinema, o teatro continua sendo seu porto seguro e sua maior paixão. Ele descreveu como “comovente” o prazer que Nathalia demonstra no processo de ensaio e na convivência com os colegas de palco. A atriz confirmou o sentimento, definindo o tablado como um espaço de plenitude e comunhão absoluta.
 
Essa paixão em fazer a arte alcançar todas as camadas sociais a levou, no passado, a idealizar o projeto “Circo do Povo”. Nathalia relembrou que, diante do desejo de trabalhar e criar, ouviu do diretor e amigo Silvan: “Nathalia, sua ideia é incrível, mas uma parte do povo simplesmente não entra no teatro. Qual é a maneira que temos de fazer o espetáculo chegar até eles? O povo tem o hábito do circo, e o circo nós levamos para onde quer que a gente vá”.
 
O argumento tocou a atriz profundamente. Inspirada em modelos europeus de teatro itinerante feito em caminhões, ela abraçou a lona para cobrar ingressos populares — que na época custavam entre 5 e 7 reais, em contraste com os valores proibitivos dos grandes teatros. Nathalia relembrou as dificuldades técnicas, como o barulho do trânsito das ruas, que desafiavam um ofício focado na prosa e na palavra escrita. No entanto, o empenho em acolher aquela “gente incrível” era maior. A atriz recordou até mesmo quando foi pessoalmente ao Juizado de Menores pleitear uma autorização universal: “Se estou fazendo uma arte popular, o operário não tem babá. Ele deve poder trazer seu filho”, argumentou ao juiz na ocasião, garantindo a entrada de crianças e menores de idade para assistir a textos de Martins Pena.
 
Uma Produtora de “Mão na Massa” e a Paixão Oculta pelo Futebol
 
Desmistificando a imagem de diva intocável, Marcus Montenegro fez questão de ressaltar o lado “produtora” de Nathalia Timberg. Ele trouxe à tona uma memória vívida de quando os dois caminhavam às nove horas da manhã pela Rua do Lavradio, no Centro do Rio, escolhendo pessoalmente o mobiliário para o cenário do espetáculo Melanie Klein. Marcus imitou o espanto do vendedor da loja de móveis antigos ao reconhecer a estrela: “É ela mesma?!”, ao que Montenegro respondeu: “Sim, ela também escolhe os móveis”.
 
“Qualquer ator que trabalha em conjunto precisa ter cabeça de produtora. Dependendo do repertório, você precisa garimpar o lugar adequado. É um trabalho hercúleo”, justificou Nathalia, que além de manter o hábito de ouvir música clássica e exercitar sua paixão pela língua através da leitura, cultiva um hobby que surpreende muitos: o futebol.
 
Montenegro revelou que, em dias de Copa do Mundo, amigos estranhavam quando ele dizia que assistiria aos jogos na casa de Nathalia. “Ela adora futebol e sabe muito mais do que eu”, divertiu-se o produtor. Rindo, a atriz confirmou que acompanha diversos esportes e que sua relação com a atividade física sempre foi intensa. Ela relembrou que, na época das gravações da novela A Muralha, em São Paulo, acordava religiosamente às seis horas da manhã para treinar montaria a cavalo. O momento foi reforçado por uma lembrança de Mário Alencar, que certa vez narrou a icônica cena em que a personagem de Nathalia levava uma flechada, e o momento dramático em que Fernanda Montenegro costurava o seu rosto na ficção
 
Musculação aos 60 Anos e a Recusa às Plásticas Exageradas
 
 
Complementando a ativação intelectual, Montenegro enalteceu o rigor de Nathalia com o próprio corpo. Relembrando que a atriz sempre evitou excessos com a comida e costumava puxar a orelha dele para que emagrecesse e cuidasse da saúde, Marcus revelou um bastidor curioso: quando conheceu Nathalia, ela já tinha mais de 60 anos e praticava musculação rigorosa na famosa academia Estação do Corpo, na Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro.
 
Esse cuidado físico saudável contrasta com a obsessão contemporânea por procedimentos estéticos invasivos. Marcus elogiou a beleza natural de Nathalia aos 97 anos e o respeito às suas rugas, pontuando que, hoje, diretores de elenco vivem preocupados com atrizes que erram a mão no botox e nos preenchimentos faciais.
 
Nathalia explicou que sua aversão a essas intervenções drásticas reflete sua filosofia de vida. “A primeira coisa com que lido é com o meu instrumento. Se vou tocar um piano, ele tem que estar afinado. O corpo é o instrumento de trabalho e temos que cuidar bem dele, mas não dessa forma doentia de quem perde a noção no exagero das plásticas. Você tem um limite para não exagerar. Se você é uma flauta, não vai conseguir ser um trompete”, concluiu de forma brilhante.
 
O Trunfo de uma Irmandade de Alma
 
A abertura do programa deu o tom da noite. Visivelmente emocionado, Marcus Montenegro não economizou nas palavras ao definir a importância de Nathalia em sua existência, classificando-a como a pessoa que mais ama na vida e a grande avalista de sua trajetória profissional. O empresário chegou a embargar a voz ao citar o Instituto de Educação e a simbiose entre a atriz e sua própria família.
 
A resposta de Nathalia veio carregada da elegância que lhe é peculiar: uma amizade que transcende o cotidiano, definindo-os como “irmãos de alma”. “É um afago ter uma amizade como essa”, pontuou a atriz. Essa lisura e humanidade no trato, aliás, foram descritas por Marcus como uma unanimidade entre todos que convivem intimamente com ela — desde a colaboradora Carla até o cabeleireiro Fernando. Unidade esta que, segundo a veterana, é cultivada reciprocamente por ambos para não se perder pelo infinito.
 
O grande arquiteto dessa união foi o diretor Wolf Maya. A união promovida por ele foi classificada por Montenegro como o “maior trunfo” de sua vida. Para Nathalia, a base dessa relação é a confiança cega: “Não poder confiar em alguém é meio que uma quase morte para mim”. Prestes a completar um século de existência, a atriz foi categórica ao afirmar que o sentimento de lealdade é o bem mais precioso que alguém pode carregar, confessando o desejo de que o mundo pudesse replicar a fidelidade que Marcus tem para com ela.
 
Tamanha devoção ganhará as páginas das livrarias. Montenegro revelou que seu próximo livro se chamará O Guardião das Memórias, trazendo o sugestivo subtítulo Uma História de Amor — uma dedicatória direta a Nathalia. Com a colaboração de Débora Brandão, a obra robusta terá cerca de 600 páginas, sendo 400 delas dedicadas exclusivamente a dissecar a trajetória da atriz e a seriedade que ambos compartilham pelo fazer artístico.
A “Escola Nathalia Timberg” de Respirar e Escutar
 
Em um momento descontraído da entrevista, Montenegro arrancou risos ao relembrar os bastidores de sua juventude. Muito jovem e “acelerado”, ele costumava falar rápido demais, atropelando as palavras. O produtor recordou, com imensa gratidão, as inúmeras vezes em que Nathalia colocava a mão em seu peito e comandava com firmeza: “Respira, articula”. Marcus confessou que sua preocupação atual em falar bem e ouvir o outro vem dessa convivência. “O jovem de hoje, por conta do mundo digital, está acelerado ao extremo. Todos tendem a falar em cima do outro, sem deixar ninguém terminar. Minha base de educação foi a ‘escola Nathalia Timberg’: aprender a escutar, respirar e articular”, pontuou o empresário.
 
Nathalia usou uma metáfora musical para validar o ensinamento. “Quantas horas passa um músico, um pianista, diante do piano?”, indagou. Para ela, o ser humano é o instrumento mais instável que existe. “O actor tem o dia em que está com a pulga atrás da orelha, o dia em que está inquieto, com dor de cabeça ou mal-estar físico. É lógico que, quando você se usa como instrumento, tem que aprender a lidar com ele. O bailarino lida com o corpo para dançar, o ciclista para pedalar. Nós somos uma espécie de cavalo bravo que temos que domar. Se você se propõe a fazer algo, procure fazer direito”, sentenciou.
 
 Desejo de Desistir e os Labirintos do Emocional
 
À medida que o papo avançava por labirintos mais subjetivos, Marcus Montenegro trouxe à tona uma memória guardada dos primeiros anos da parceria. Relembrando o período em que se conheceram em São Paulo, o produtor revelou que Nathalia passava por um momento nebuloso artisticamente e que, abalada, chegou a confessar a ele que estava pensando em desistir de tudo. Confrontada se aquela sensação era real, a atriz admitiu não se lembrar do episódio específico, mas confirmou que a fragilidade era perfeitamente possível. Foi justamente naquele momento de dor que Montenegro entrou em sua vida, organizando “a casa toda” e pavimentando o início dessa união duradoura.
 
“Querido, a gente pensa em desistir quantas vezes puder”, ponderou Nathalia com tocante honestidade. “Seja por um dia de cansaço ou por uma dificuldade, você pensa em dar uma pausa na vida, se é que isso é possível. Desistir significaria ter enveredado por outros caminhos”, explicou.
 
A partir dessa confidência, a veterana fez uma análise profunda sobre o perigo psicológico que ronda o ofício do ator. Para ela, o exercício diário de assumir múltiplos estados emocionais e lidar com tantas personas ao mesmo tempo é “fascinante e perigoso”. Nathalia alertou sobre a necessidade de um equilíbrio rigoroso para que o artista não use essa facilidade de manipular as próprias emoções em causa própria. Segundo ela, as armadilhas de perder a própria identidade e esquecer quem realmente se é não são exclusivas dos palcos: “As pessoas não precisam ser atores para caírem nessa cilada de não saberem quem são”.
 
 
Sou uma Atriz Apesar de Ter que Me Exibir, Não Por Ter que Me Exibir”
 
 
Nathalia seguiu explicando que o ser humano é uma eterna obra em construção e que nunca sabemos totalmente quem somos. Exatamente por isso, ela revelou blindar sua realidade fora de cena. “Não quero transformar a minha vida fora de cena em um palco. Se eu fosse por esse caminho, poderia me perder”, alertou.
 
Marcus aproveitou para enaltecer a discrição quase cirúrgica que testemunhou ao longo de toda a convivência com a atriz. Ele destacou que Nathalia nunca cedeu ao exibicionismo vazio que muitas vezes contamina a profissão, mantendo-se sempre estritamente a serviço da personagem. Acabado o espetáculo, ela retorna à sua vida reservada. Em resposta, Nathalia sintetizou sua postura com uma frase que carrega como mantra de carreira: “Eu sou uma atriz apesar de ter que me exibir, não por ter que me exibir”.
 
Para ela, o ego é uma cilada. O ator precisa entender que o corpo e a mente são apenas instrumentos de trabalho. Quem não compreende esse jogo cai no ridículo. “Tem pessoas que não são atores e caem nessa armadilha por não saberem o que são. Passam a querer atuar na vida real e, em grande parte, tornam-se canastronas”, disparou a veterana, arrancando risos de Marcus.
 
Informação no Papel e Antenada com o Mundo
 
Outro ponto que impressiona Montenegro é a recusa de Nathalia em se desconectar do mundo exterior, uma tendência comum em idades avançadas. Pertencente à “geração do papel”, a atriz mantém o hábito de ler jornais inteiros impressos em sua casa. Marcus destacou que ela domina qualquer assunto com propriedade, de esportes e política a teatro e televisão. “O que ela não viu, ela vai pesquisar”, revelou el empresário, questionando se o hábito vinha de pura curiosidade ou do desejo de manter conversas ativas.
 
A resposta da atriz foi uma aula sobre comunicação: “Meu querido, tudo o que você faz é para aumentar o seu repertório. Se você trabalha com comunicação, antes de mais nada, tem que estar a par de tudo. O teatro se propõe a discutir o ser humano. Como tentar entender um personagem se você não se desenvolve permanentemente? O teatro é feito para comunicar. Se você virar um ‘E.T.’, fica difícil encontrar um ponto de contato com o público”, explicou.
 
Para Nathalia, o artista busca se expressar tocando a sensibilidade alheia, necessitando entrar na partícula de vida que a obra propõe. “Temos que ouvir a alma na hora de nos expressarmos. Conversar é trocar ideias e procurar compreender o outro. Para chegar naquele músculo que palpita e desvenda a vida, você tem que se esmerar em afinar a sua própria sensibilidade”.
 
A Predileção pelo Drama e a Tríade do Sucesso no Palco
 
Marcus também relembrou uma declaração histórica de Bibi Ferreira, que apontava Nathalia Timberg como “a maior atriz dramática do país” e confessava o fascínio de assisti-la em cena. Indagada se possuía preferência pelo gênero, Nathalia confirmou a análise de Bibi: “Tenho uma tendência a dominar melhor os sentimentos que envolvem o drama do que essa coisa natural e meio divertida que algumas pessoas têm de ver a vida”, justificou.
 
A partir desse gancho sobre excelência técnica, Montenegro elencou as três características fundamentais que costuma apresentar em suas palestras pelo país como pilares de uma carreira sólida, todas lapidadas na convivência diária com Nathalia. O primeiro ponto é o talento, algo nato (“ou tem ou não tem”). O segundo é a vocação. O produtor alertou já ter visto muitos atores talentosos arruinarem suas trajetórias por falta de vocação. “Quando fazemos teatro com a Nathalia, se a peça é às 15h, todo mundo precisa estar lá às 14h45. Se é às 19h, o compromisso começa às 16h”, exemplificou Marcus. Essa rigidez introduz o terceiro pilar: a disciplina. Montenegro destacou que o convívio com a atriz lhe ensinou a conduzir a vida, organizar agendas e se posicionar profissionalmente através de uma cobrança exclusivamente positiva e engrandecedora.
 
O Rigor como Valorização do Instrumento
 
Questionada se o nível de autocobrança ao longo das décadas foi excessivo, Nathalia ofereceu uma visão profundamente filosófica e libertadora sobre a palavra “rigor”. Para ela, quando o ser humano possui uma vocação ou se aprofunda naquilo que se propõe a fazer desde a infância, entra em um território de desdobramentos infinitos — que é a arte em geral. Ela revelou, inclusive, que também foi versada em artes plásticas em sua formação, embora o teatro tenha sido seu grande farol.
 
“O teatro é uma arte que se propõe a nos mostrar o ser humano nas várias situações e formas possíveis. Como artista, você precisa lidar com o instrumento mais instável que conhece, que é você mesmo. O ser humano é instável. E isso, por si só, já pede um rigor”, defendeu Nathalia. A veterana desmistificou o peso negativo que geralmente dão ao termo. “O rigor não deve ser visto como uma coisa chata. Rigor é você valorizar o que quer fazer. Então, se você se usa como instrumento, esse instrumento tem que estar afinado”, concluiu, recebendo a concordância imediata e entusiasmada de Marcus Montenegro.
 
A Solidão Geracional e o Ofício como Salvação
 
O tom da entrevista ganhou contornos de profunda catarse quando Marcus mencionou ter assistido à peça Dois de Nós, estrelada pelo amigo em comum do dístico, Antônio Fagundes. O produtor relato o impacto do espetáculo, que joga luz sobre os percalços da velhice e a solidão inevitável decorrente da perda de amigos e entes queridos, gerando um silêncio comovente na plateia.
 
Emendando no tema da finitude, Montenegro relembrou uma frase emblemática que Fernanda Montenegro teria dito a Nathalia recentemente: “Só temos nós duas agora, todos da nossa geração se foram”. Ao ser questionada sobre como lida com a solidão de ver desaparecer os companheiros que construíram a história do teatro ao seu lado, Nathalia buscou no francês a precisão para traduzir o sentimento. Ela reafirmou que o amigo verdadeiro é um “irmão de alma” e que, no teatro, essa ligação é ainda mais visceral.
 
“Nós conhecemos intimamente aqueles que trabalham conosco porque os vemos despido de máscaras, usando seus próprios instrumentos artísticos. Estão ali com suas características, qualidades e defeitos, sendo seres humanos muito ricos”, refletiu. A atriz refutou a ideia de que atuar seja um processo simples, como “ligar uma tomada”, e lamentou quando colegas misturam a realidade com a ficção criada por autores inteligentes. Para ela, o grande trunfo é absorver as ricas experiências emocionais que os textos oferecem, mas chegar ao palco da forma mais limpa, vulnerável e lúcida possível, usando a bagagem apenas para enriquecer o universo dos personagens, e não o próprio ego.
 
Lucidez e Humor na Plataforma de Ônibus
 
Por fim, Marcus destacou o quanto se diverte com a reação do público diante da lucidez impecável da atriz, ressaltando que Nathalia encara esse espanto com muito bom humor. Rindo, a veterana relembrou um episódio divertido que compartilhou com colegas de profissão.
 
Ela contou que estava em uma plataforma de embarque de ônibus quando foi abordada por uma senhora. Como é de hábito, a pedestre quis expressar o turbilhão de sentimentos e qualidades que associava à imagem da atriz por conta de seus papéis marcantes. No entanto, o ápice do elogio veio em tom de absoluto choque: a fã ficou completamente admirada pelo fato de Nathalia, naquela idade avançada, ainda ser uma excelente atriz e, acima de tudo, “tão lúcida”. O relato leve e bem-humorado de Nathalia sobre o espanto alheio encerrou o bloco com a graça de quem compreende o tempo e a própria geração sem qualquer peso.
 
O Canto Poético e o Encerramento Emocionante
 
Aproximando-se do desfecho, Marcus justificou ter optado por explorar um lado mais íntimo e reservado da artista, deixando de lado a cronologia profissional que o país inteiro já conhece de cor. “Quis mostrar um lado que só eu tenho a honra de conhecer”, declarou, emocionado. Antes da última pergunta, o apresentador pediu um presente: que a atriz declamasse o poema que marca a abertura de seus espetáculos.
 
Com a voz cirúrgica e impecável que lhe é proeminente, Nathalia proferiu os célebres versos de Cecília Meireles:
 
“Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. / Não sou alegre e não sou triste: / sou poeta. / Irmão das coisas fugidias, / não sinto gozo nem tormento. / Atravesso noites e dias / em cima do vento. / Se desmorono ou se edifico, / se permaneço ou se desfaço, / — não sei, não sei. Não sei se fico / ou passo. / Sei que canto. E a canção é tudo. / Tem sangue eterno a asa ritmada. / E um dia sei que estarei mudo: / — mais nada.”

 
Sob o impacto do silêncio reverencial que tomou o estúdio, Montenegro a coroou: “Você é única, absoluta e sempre a maior atriz do Brasil. Meu amor eterno por você”. Para fechar a lente, pediu uma definição final: o que é ser artista?
 
“Não se sabe”, refletiu Nathalia. “Se você gosta de escrever, de poetar, de pintar, de costurar… Eu até converso com a profissional que trabalha na minha casa que cozinhar também é uma arte. Enfim, ser artista é chegar nessas camadas profundas da vida onde você só consegue entrar com uma sensibilidade apurada e com a inteligência de perceber”, definiu com maestria.
 
Ao final, a dama das artes fez questão de retribuir o carinho ao seu empresário e co-host: “Obrigada por existir na minha vida. Graças a Deus, nunca tive a sensação de ter errado quando me entreguei de corpo e alma a essa parceria. Você é uma pessoa inquieta, que vive para construir a possibilidade de todos nós nos expressarmos — inclusive você mesmo”. Visivelmente embargado e sem condições de estender o papo após tamanha declaração, Marcus despediu-se do público com o tradicional jargão do programa: “O Ser Artista Podcast é gente interessada em gente interessante. Um beijo e fique com a gente”. Uma noite que, definitivamente, entrou para a história da nossa cultura.

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