Previa: A busca pela singularidade na moda pode estar se tornando um paradoxo, com o uso de itens icônicos como o sapato Tabi da Maison Margiela se transformando em um símbolo de uniformidade. Em um mundo dominado pelas redes sociais, a capacidade de escolher se torna cada vez mais influenciada por algoritmos e tendências coletivas.
A moda, que sempre foi um reflexo da individualidade, enfrenta um dilema contemporâneo: como ser único em meio a um mar de semelhanças? Recentemente, em uma exposição, foram contados nove pares de sapatos Tabi, da Maison Margiela, em uma única sala. Este modelo, criado por Martin Margiela em 1988, questionava os padrões de beleza da época, mas hoje, parece ter se tornado um uniforme.
O fenômeno não é isolado. A influência das redes sociais e dos algoritmos transformou o desejo em algo previsível. O que antes era uma escolha pessoal, agora é moldado por tendências virais e validações coletivas. O sapato, que exigia coragem para ser usado, agora é uma escolha comum, refletindo uma mudança na percepção de estilo e originalidade.
O impacto das redes sociais na moda
As plataformas digitais têm um papel crucial na formação do gosto contemporâneo. Susan Sontag, renomada crítica cultural, argumentava que o gosto é uma forma refinada de percepção. No entanto, com a otimização das escolhas oferecidas pelos algoritmos, o que deveria ser uma expressão pessoal se torna uma repetição de padrões. O desejo, antes autêntico, agora é acompanhado de um consenso social que limita a individualidade.
Embora as pessoas ainda sintam desejo, a capacidade de formá-lo de maneira autônoma está em risco. O processo de construção do gosto exige tempo, curiosidade e até mesmo desconforto. A verdadeira apreciação estética envolve errar e se permitir estranhar, algo que se torna cada vez mais raro em um ambiente de consumo acelerado.
Além disso, a repetição de estilos não deve ser vista apenas como uma falta de criatividade. Para muitos, usar um item icônico como o Tabi pode ser uma forma de pertencimento a uma “tribo” em um mundo digital que muitas vezes se sente impessoal. O desejo de se conectar e ser reconhecido é humano, mas a questão que se coloca é até que ponto estamos permitindo que as máquinas decidam por nós.
O desafio atual pode não ser encontrar um desejo “puro”, mas sim reconhecer quando estamos escolhendo um uniforme para pertencer e quando estamos realmente exercitando nossa individualidade. A moda, portanto, continua a ser um jogo complexo entre o eu e o nós, onde a verdadeira questão é se ainda conseguimos ouvir nossa própria voz em meio ao coro coletivo.











