Mas intervalo desde Gaia não foi vazio. Em 2019, ela gravou um DVD comemorativo de dez anos de carreira no YouTube Space, trabalho que tomou tempo e atenção consideráveis. Antes que a turnê começasse, veio a pandemia. “Em casa, sem saber o que fazer, cheguei a fazer um trabalho autoral, que é o Kudra (2020), só que é um EP. Sem a chance de fazer turnê, os trabalhos ficaram menores mesmo.” Ainda em isolamento, lançou uma coletânea de encontros e, depois, foi seguindo com singles. Houve lançamentos, houve projetos, mas o mergulho autoral com a intensidade que ele exige só aconteceu mais recentemente.
No meio desse percurso, vieram dois lutos gestacionais. “Ninguém fala sobre isso direito. É tratado como ‘ah, tudo bem, você já tem filho? Faz de novo.’ Eu fiquei triste sozinha. Eu percebi que foi muito difícil pras pessoas me acompanharem.” Ela descreve esses lutos como algo que abriu camadas, que impactou o feminino, as forças, as questões pessoais. E então, quando havia desistido de tentar, engravidou de Rosa, hoje com dois anos e quatro meses. “Num outro momento de maternidade, já mais madura. Eu tô com 46 hoje. Então eu vejo a maternidade de um outro jeito. E isso tudo impactou bastante nesse trabalho.”
Esgotada é o primeiro capítulo desse projeto duplo. O segundo disco, Amorosa, está previsto para o segundo semestre. As 16 canções nasceram juntas, no mesmo processo criativo, e foram sendo separadas ao longo do trabalho. “A gente foi separando e foi ouvindo e foi entendendo as letras, os lugares, a ordem, quem participa e tudo isso.” A produção é assinada por Thóbron de Leone, André Wong e Marcos Preto, que entrou na etapa final para ajudar a definir o que ficava em cada disco.
O título carrega um peso que vai além do cansaço imediato. “Tinha dias que eu estava me sentindo um pano de chão, sujo, sem força, e ao mesmo tempo alguma coisinha ali falando: não, bora. Você tem que seguir, tem vida, tem criança, tem carreira, tem tudo isso.” Tiê identifica o esgotamento também como algo geracional, alimentado pelo excesso de informação, pelas redes sociais, pelos grupos de WhatsApp, por tudo que chega sem ser chamado. “É tanta loucura que não tem como não se sentir esgotada.”
Entre os momentos mais pessoais do disco está “Contato“, inspirada no romance de Carl Sagan e escrita em parceria com a filha mais velha, Liz. “Ela estava passando na sala e falou uma frase que impactou em toda a música. Não poderia ser diferente com a Liz, né? Inclusive fazendo questão de realmente trazê-la para o projeto.” A parceria com Adriana Calcanhotto em “Atitude” tem outra origem: as duas se conheceram num show de Péricles Cavalcanti, sentaram na mesma mesa e a aproximação foi imediata. “Eu já tinha ‘Atitude‘, mas falei: vou aumentar a ‘Atitude‘ para ela entrar, porque na hora que a gente fez o arranjo, eu achei a cara dela para cantar. Ela topou, fez uma parte linda, depois cantou lindamente. Foi um presente. É das minhas músicas preferidas do disco.”
A dimensão visual do projeto segue a mesma lógica do artesanal e do íntimo. A capa parte de uma fotografia analógica de Indira Dominici, artista que circula entre Belém e Paris e trabalha exclusivamente com câmeras analógicas, reinterpretada em pintura a óleo por Marina Quintanilha, amiga de infância da cantora. “Me deu vontade de trazer uma outra arte em cima da arte, uma coisa manual e visceral. Tem a coisa dos romãs escorrendo na minha cara, e isso como um quadro ficou tão lindo. Eu estava visualizando isso já na hora que eu tirei a foto.” O quadro segue em casa, ainda secando. A Rosinha, conta ela, chegou a morder a tela.
A trajetória de colaborações inusitadas, marca de toda a sua carreira, também aparece em Esgotada. “Sou uma pessoa com bastante cara de pau, no sentido de: a gente já tem o não, então vamos tentar.” David Byrne veio de um e-mail enviado depois de um show em Nova York. João Gomes, de uma troca pela internet. “Eu acredito bastante nisso, de você dar as caras.”
A estrutura em dois discos tem uma lógica afetiva simples: Esgotada organiza o peso, Amorosa aponta para onde ele vai. “Cada vez mais, o afeto, o encontro presencial, o show ao vivo, essa parte toda vai encher a gente de amor.” No fim do ano, Tiê quer lançar o projeto duplo completo. As 16 canções nasceram juntas. Faz sentido que fiquem juntas no fim.











