A transformação tecnológica no agronegócio brasileiro avança em várias frentes, mas enfrenta um desafio crucial: a integração das inovações desenvolvidas por empresas, universidades e centros de pesquisa na rotina dos produtores rurais. Essa foi uma das principais conclusões do painel “Agricultura do Futuro”, promovido pela Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag) durante o Campinas Innovation Week 2026, realizado em Campinas (SP).
O evento, que ocorreu no dia 15 de setembro, reuniu pesquisadores, empresas e representantes do ecossistema de inovação para discutir os caminhos da agricultura diante do avanço de tecnologias como inteligência artificial, robótica e análise de dados. A programação foi organizada em três eixos: “Tecnologias de Futuro”, “Agricultura Digital Aplicada” e “Agricultura Regenerativa”.
Miguel Luiz Menezes Freitas, presidente do Conselho da Fundepag, enfatizou a importância das instituições de pesquisa na conexão entre conhecimento científico e as necessidades do setor produtivo. “A Fundepag é uma ponte e sempre olha adiante, trazendo atualizações para um setor tão importante como a agricultura, que está em constante evolução”, afirmou.
Tecnologia precisa funcionar dentro da propriedade
No painel “Tecnologias de Futuro”, moderado por Álvaro Duarte, diretor-presidente da Fundepag, foram discutidos os critérios necessários para que inovações deixem o ambiente de desenvolvimento e sejam utilizadas comercialmente no campo. Participaram do debate especialistas como Daniel Albiero, da Unicamp, e Allan Daher, do AgNest Farm Lab.
Um ponto destacado foi que a validação tecnológica deve ir além da comprovação de que um equipamento ou software funciona. Segundo Daher, é essencial avaliar se o produtor consegue utilizar a solução, se ela se adapta à operação da propriedade e se os dados gerados contribuem para a tomada de decisões, além de oferecer um retorno econômico que justifique o investimento.
Eugênio Brito, do Parque Tecnológico de Sorocaba, ressaltou a necessidade de considerar a realidade da agricultura familiar e de pequenos e médios produtores, propondo soluções que apresentem custos compatíveis com diferentes níveis de produção. Albiero complementou que a agricultura digital já está presente no Brasil, citando robôs com inteligência artificial como uma alternativa viável diante da escassez de mão de obra.
Dados e conectividade continuam entre os gargalos
A transformação digital no agronegócio também depende da capacidade de produtores e empresas de organizar, integrar e utilizar os dados gerados nas atividades agrícolas. Esse foi um dos focos do painel “Agricultura Digital Aplicada”, moderado pelo consultor Agtech Ricardo Campo.
Os especialistas presentes, incluindo Júlio César Dalla Mora Esquerdo, da Embrapa, e José Damico, da SciCrop, enfatizaram que a adoção de tecnologia deve partir dos problemas existentes no campo, e não apenas da disponibilidade de novas ferramentas. Damico destacou que a aquisição de equipamentos e softwares não garante uma transformação digital eficiente sem a devida organização dos dados.
Outro desafio mencionado foi a ampliação de projetos-piloto, que podem enfrentar obstáculos ao serem implementados em diferentes regiões com infraestrutura e perfis de produtores variados. Os participantes concordaram que é necessário investir não apenas em tecnologia, mas também em capacitação e infraestrutura digital.
Agricultura regenerativa incorpora tecnologia ao manejo do solo
O painel sobre agricultura regenerativa abordou a recuperação de áreas, saúde do solo e integração entre sistemas produtivos. Moderado por Denys Eduardo Biaggi, o debate contou com a participação de especialistas que discutiram o monitoramento da produção e estratégias de manejo.
William Marchió, da Associação Rede ILPF, destacou a importância de aproximar as iniciativas de sustentabilidade dos produtores, enquanto José Eraldo Xavier Korczak defendeu uma abordagem adaptada às condições de cada propriedade. Gabriel Moura, da Syngenta, enfatizou a necessidade de ampliar as iniciativas e gerar mais informações sobre práticas regenerativas.
As discussões durante os painéis revelaram um desafio comum: a necessidade de reduzir a distância entre pesquisa, desenvolvimento tecnológico e a realidade das propriedades rurais. A participação dos produtores nas etapas de desenvolvimento e validação pode ser crucial para ajustar novas soluções às condições do campo.
Álvaro Duarte, da Fundepag, reiterou que a aproximação entre ciência, tecnologia, empresas e sociedade é um dos objetivos centrais da instituição. O Campinas Innovation Week 2026 segue até 18 de setembro, promovendo um espaço para discussão sobre inovação e tecnologia no agronegócio.
O evento reforçou que a modernização do agronegócio não depende apenas do surgimento de novas tecnologias, mas também da aplicação prática, infraestrutura adequada e capacitação dos produtores para garantir que as inovações realmente façam a diferença no campo.











