Previa: O seguro paramétrico no agronegócio brasileiro avança, mas especialistas alertam que não deve ser visto como a solução para problemas estruturais do setor. A gestão de risco agropecuário exige uma abordagem mais ampla e integrada.
A discussão sobre seguro paramétrico, crédito rural e políticas públicas tem ganhado destaque no Brasil, colocando a gestão de risco agropecuário em evidência. Daniel Miquelluti, especialista no tema e cofundador da Picsel, ressalta que a evolução desse debate é positiva, especialmente diante da crescente volatilidade climática e da exposição a eventos extremos que afetam a produção rural.
O seguro paramétrico, que se baseia em índices como volume de chuva e temperatura, oferece pagamentos mais rápidos em comparação aos modelos tradicionais. Essa agilidade é crucial em um cenário de aumento de custos de produção e restrição de crédito, segundo Miquelluti. Contudo, ele alerta que o seguro não deve ser visto como um substituto dos modelos convencionais, mas sim como uma ferramenta complementar.
Risco sistêmico e suas implicações
O risco no agronegócio brasileiro é considerado sistêmico, afetando simultaneamente diversas cadeias produtivas. Eventos climáticos adversos, como secas e geadas, podem impactar grandes áreas, o que exige uma abordagem mais cuidadosa na implementação de seguros paramétricos. Miquelluti enfatiza que simplificações nesse modelo podem levar a consequências indesejadas, especialmente quando vinculadas a políticas públicas de crédito rural.
Um estudo da Fundação Getulio Vargas alerta que a adoção obrigatória do seguro paramétrico atrelado ao crédito subsidiado pode gerar mudanças estruturais significativas, com impactos fiscais e regulatórios. A transição para esse novo modelo deve ser planejada com cautela e em longo prazo.
Outro desafio importante é o risco de base, que ocorre quando o índice acionado não reflete com precisão as perdas do produtor. Essa discrepância pode resultar em pagamentos inadequados, prejudicando a confiança dos agricultores, um fator essencial para o planejamento financeiro no setor.
Desafios fiscais e a sustentabilidade do seguro rural
A sustentabilidade fiscal do sistema de seguro rural também é uma preocupação crescente. A Confederação Nacional das Seguradoras revisou suas projeções, prevendo uma queda no mercado de seguro rural em 2026, refletindo a diminuição de recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. A retração de 12,2% na arrecadação do setor no início do ano evidencia fragilidades na previsibilidade orçamentária.
Analistas apontam que a expansão de modelos paramétricos sem um adequado financiamento e governança pode aumentar a pressão sobre o sistema de seguros, tornando-o ainda mais vulnerável a crises futuras.
Avanços nas políticas públicas e a integração de dados
Apesar das críticas, o debate sobre inovação não é uma rejeição, mas sim uma busca por aprimorar a gestão de risco no campo. O avanço do Zoneamento Agrícola de Risco Climático representa uma mudança significativa, utilizando dados técnicos e critérios objetivos para integrar manejo agrícola e risco climático.
O Ministério da Agricultura e Pecuária tem ampliado esse programa, incentivando práticas de manejo do solo que podem ajudar a mitigar riscos. A combinação de seguros paramétricos com instrumentos tradicionais e políticas públicas estruturadas é vista como a melhor estratégia para fortalecer a gestão de risco no agronegócio brasileiro.
Em resumo, o seguro paramétrico tem potencial para se tornar uma parte importante da proteção ao produtor rural, mas deve ser implementado de maneira a complementar os modelos existentes, garantindo uma abordagem mais robusta e eficaz na gestão de riscos no setor agropecuário.











