Previa: A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) alerta para um aumento significativo nos preços dos alimentos até 2026, impulsionado por conflitos e mudanças climáticas. Especialistas destacam que a combinação de fatores pode agravar a insegurança alimentar global.
O cenário global de preços de alimentos pode se deteriorar nos próximos meses, conforme alerta Máximo Torero, economista-chefe da FAO. A combinação da guerra entre Irã e Israel, o conflito na Ucrânia e os efeitos do fenômeno climático El Niño estão entre os principais fatores que podem levar a um novo encarecimento das commodities agrícolas.
Torero prevê que os preços das commodities começarão a subir ainda este ano, refletindo um impacto mais intenso sobre os alimentos entre o final de 2026 e durante 2027. Ele explica que o repasse do aumento das commodities para o consumidor final costuma levar de três a seis meses, o que significa que os efeitos já podem ser sentidos em breve.
Por que os alimentos ficaram estáveis até agora
Embora os alimentos tenham sido um dos principais motores da inflação global em 2022, os preços permaneceram relativamente estáveis em 2023. Essa calmaria, segundo Torero, é temporária e deve ser superada por uma série de pressões sobre os custos de produção agrícola.
Fatores como a alta do petróleo, a escassez de fertilizantes e eventos climáticos extremos estão pressionando os custos. Mesmo com a recente alta de preços de commodities como trigo, milho e arroz, os valores atuais ainda refletem boas safras anteriores e não consideram as dificuldades esperadas para o próximo ciclo agrícola.
O papel do Estreito de Ormuz na crise
O Estreito de Ormuz, um ponto crítico para o transporte de petróleo e gás natural, também impacta diretamente o setor agrícola. Torero destaca que o petróleo é essencial para várias etapas da produção agrícola, desde o bombeamento de água até o transporte dos produtos.
Além disso, a redução da oferta de diesel e gás natural devido aos conflitos na Ucrânia tem afetado a produção de alimentos. Os preços globais das commodities refletem essas mudanças, afetando países em diferentes níveis de desenvolvimento econômico.
Produção mundial já sente os primeiros efeitos
A produção agrícola já apresenta sinais de estresse. Nos Estados Unidos, o plantio de trigo e milho caiu nos primeiros meses do conflito no Irã, enquanto muitos agricultores mudaram para o cultivo de soja, que requer menos fertilizantes.
Na Austrália, um dos maiores exportadores agrícolas, o governo prevê uma queda de 21% na produção das culturas de inverno, atribuída à alta nos preços de combustíveis e fertilizantes, além da incerteza sobre a disponibilidade desses insumos.
El Niño deve intensificar ainda mais a pressão
O fenômeno climático El Niño, que deve ser especialmente intenso este ano, pode agravar ainda mais a situação. Ele altera os padrões de chuva, reduz a produtividade agrícola e pode levar milhões de pessoas à insegurança alimentar.
Na Índia, por exemplo, a temporada de monções começou com atraso, e as previsões indicam chuvas abaixo da média, o que pode prejudicar a produção de arroz e pressionar os preços globais dos alimentos, acentuando a crise já em curso.











