Previa: As ondas de calor no Brasil são um problema sério e frequentemente ignorado, com um número alarmante de mortes associadas. Especialistas alertam que a situação pode se agravar com a chegada do El Niño, exigindo uma resposta urgente das autoridades.
As ondas de calor no Brasil estão se tornando um desastre “completamente negligenciado”, segundo a professora Renata Libonati, do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Durante um painel no Museu do Amanhã, ela destacou que, entre 2000 e 2020, foram registradas 50 mil mortes relacionadas a esse fenômeno, um número que supera em 20 vezes as mortes por deslizamentos de terra no mesmo período.
Libonati enfatizou que a percepção comum de que o Brasil, sendo um país tropical, está acostumado ao calor é equivocada. A pesquisadora, que também integra o Comitê de Especialistas em Monitoramento Climático da Organização Meteorológica Mundial (OMM), alertou que a chegada de um novo El Niño pode intensificar a frequência e a gravidade das ondas de calor.
Consequências do El Niño
O fenômeno climático El Niño altera a circulação dos ventos e pode resultar em temperaturas excepcionalmente altas em 2026. Além de impactar a saúde pública, Libonati relacionou o El Niño a um aumento no risco de secas e incêndios florestais, criando um cenário propício para a propagação do fogo.
Dados indicam que, nos últimos 40 anos, as condições de perigo elevado de fogo aumentaram em cerca de 18% durante anos de El Niño nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. Essa interconexão entre secas, incêndios e ondas de calor representa um desafio crescente em um contexto de mudança climática.
Impactos regionais e sociais
José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), destacou que os efeitos do El Niño variam significativamente entre as regiões do Brasil. Enquanto o Sul pode enfrentar um aumento nas chuvas e risco de enchentes, o Norte e o Nordeste devem se preparar para a redução das chuvas e aumento da seca.
Marengo ressaltou que o fenômeno não cria problemas novos, mas agrava situações já existentes, afetando a produção de alimentos, o transporte e a economia. Ele alertou que o impacto do El Niño vai além do clima, afetando a vida cotidiana de milhões de brasileiros.
Necessidade de adaptação climática
Paulo Artaxo, que participou dos últimos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), enfatizou a urgência de acelerar a adaptação do Brasil a um clima em mudança. O país já apresenta um aquecimento médio de cerca de 2°C acima da média global, e experiências passadas de desastres devem servir como lições para evitar futuros sofrimentos.
Artaxo também destacou que as estratégias de adaptação climática devem considerar as desigualdades sociais, pois os eventos extremos afetam desproporcionalmente os mais vulneráveis. A vulnerabilidade está ligada ao acesso desigual a serviços de saúde e condições de moradia, como a diferença entre aqueles que têm ar-condicionado e os que vivem em áreas com infraestrutura precária.
O pesquisador concluiu que é responsabilidade do Brasil, uma das maiores economias do mundo, desenvolver estratégias eficazes de adaptação climática para minimizar os danos à população. A falta de ação pode resultar em consequências severas para os cidadãos, especialmente os mais pobres e vulneráveis.











