COLUNA DENILSON ANDRADE
Portal Exposed Brasil — Rio de Janeiro, 02 de outubro de 2026.
Portal Exposed Brasil — Rio de Janeiro, 02 de outubro de 2026.
Por Denilson Andrade — Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades.
O avesso do gesso: a raridade vanguardista de Elke Maravilha ganha a arena do Sem Censura
Dez anos após o momento em que ela decidiu ir brincar de outra coisa, a cultura nacional ainda tateia no escuro para decifrar a magnitude de Elke Georgievna Grunnupp. Elke Maravilha nunca coube no rótulo reducionista de personagem de TV ou mera jurada de auditório; ela foi um manifesto político vivo, uma poliglota apátrida de erudição enciclopédica disfarçada sob quilos de paetês, perucas monumentais e uma gargalhada que estilhaçava a hipocrisia burguesa. O redesenhado Sem Censura, da TV Brasil, sob o comando caloroso de Cissa Guimarães, resgatou o espectro dessa mulher inclassificável em uma edição especial inteiramente dedicada ao seu legado eterno. O programa reuniu no sofá mentes que conviveram e reverberaram a sofisticação da diva, como a modelo Veluma, cuja inserção nas passarelas deu-se pelo acolhimento pioneiro de Elke. O debate, contudo, atingiu a estratosfera intelectual através das revelações minuciosas do ator e produtor Igor Castilho, idealizador do espetáculo Quero ser Elke, e da lendária jornalista Hildegard Angel.
Igor Castilho, que hoje tem 26 anos, trouxe à tona a gênese conceitual de seu espetáculo ao propor uma virada analítica brilhante: a ideia desde o início era que todo mundo, em maior ou menor medida, já é Elke Maravilha. O produtor parte do pressuposto de que Elke não é uma pessoa física, tampouco uma simples artista datada; ela é, fundamentalmente, um estilo de vida. Ser Elke Maravilha é ser antenada, moderna, solar e vanguardista. Não se trata apenas de ser exótico, mas de olhar para aquilo que te torna individual, excêntrico e apropriar-se dessa potência. Querer ser Elke Maravilha não é mimetizar a jurada, mas sim resgatar a coragem de assumir o que você já é, mas esconde porque o mundo pede para esconder. Em um planeta habitado por nove bilhões de pessoas no qual ninguém é igual a ninguém, a figura dela surge como um arquétipo da autenticidade indomável.
O magnetismo de Igor pela diva brotou na internet, quando ele assistiu a um vídeo em que Elke proferia uma de suas máximas mais viscerais: tá tudo bem ser diferente, eu gosto de chamar atenção; o dia que eu não chamar mais atenção, podem me enterrar. Essa fala funcionou como um portal metafísico para o jovem artista, servindo de mentoria espiritual e encorajamento para que ele seguisse de cabeça nas artes, mudando radicalmente a forma como passou a se colocar em um país de mentalidade tão retrógrada. Castilho desmistificou a intimidade da diva ao revelar que inexistia separação entre criador e criatura: mesmo no recesso doméstico, Elke permanecia inteiramente montada, com sua maquiagem forte e vestes arrojadas. Para ela, a liturgia da existência ignorava a vulgaridade e a caricatura, baseando-se no afeto incondicional pela ecologia, pelos animais e pelas individualidades. Como ela mesma sintetizava com extrema sabedoria, o importante na vida não era viver, era conviver.
Hildegard Angel endossou essa percepção ao dissecar o DNA genético de Elke como o de uma criatura dotada de erudição monumental e desprovida de qualquer preconceito, comparando-a a um ser de outro planeta de tão evoluída. A jornalista relembrou a complexa evolução estética da amiga, que no início da carreira se inspirava no visual de Marilyn Monroe — sendo considerada a Marilyn do grupo —, até desabrochar em uma composição futurista, pomposa, arrojada, protuberante e andrógina, flertando com figuras de bruxas e heroínas. Essa metamorfose visual icônica, contudo, foi limada pelos padrões castradores da moda dos anos 60 e 70, só encontrando vazão democrática e popular anos mais tarde nos palcos de Chacrinha e de Silvio Santos, este último responsável por batizá-la publicamente com o codinome inventado pelo jornalista Daniel Más.
Os bastidores dessa trajetória na televisão, entretanto, carregam tintas dramáticas e revelações contundentes que Hildegard fez questão de colocar no ventilador através de seu canal no YouTube. A jornalista relembrou o período em que Elke trabalhou com Silvio Santos e descobriu que o magnetismo do apresentador diante das câmeras ocultava uma personalidade implacável nos bastidores. Hildegard relatou as perversidades corporativas sofridas por Elke, cujo programa era constantemente mudado de horário, sendo estrategicamente jogado para concorrer com o Jornal Nacional em uma época em que o telejornal atingia históricos 90 pontos de audiência, uma manobra calculada para sepultar a visibilidade da artista. Hildegard relembrou ainda os tempos de chumbo da ditadura militar, narrando um episódio de pânico em que as duas se perderam a caminho de uma gravação no SBT, momento em que a jornalista se sentiu, nas suas próprias palavras espirituosas, o piolho da Luana Piovani diante do perigo iminente.
A argúcia do debate ganhou contornos de assombro futurista com as provocações perspicazes da debatedora Dadá Coelho. Visivelmente encantada e mesmerizada pela transcendência de Elke, Dadá propôs um exercício analítico brilhante ao traçar um paralelo entre a essência anárquica da homenageada e os tempos atuais de inteligência artificial. Com absoluto discernimento, Dadá arquitetou a tese de que Elke, longe de se intimidar com o império dos algoritmos, subverteria as novas tecnologias com seu deboche característico. Enquanto a sociedade contemporânea utiliza a inteligência artificial para pasteurizar as artes e criar influenciadores milimetricamente idênticos, Elke domesticaria as máquinas, utilizando os códigos digitais para potencializar seu existencialismo barroco e rir da tentativa da tecnologia em tentar prever o imprevisível de sua natureza. Ela seria a primeira a humanizar a inteligência artificial.
Esse exercício de futurismo encontra eco na constatação de Igor Castilho sobre a atemporalidade de Elke: ela não tinha medo de ficar velha, tinha medo de ficar ultrapassada. O produtor ressaltou que a artista era mais moderna do que a maioria dos jovens, permanecendo atual hoje e perfeitamente sintonizada com as próximas décadas. Essa perenidade deve-se ao fato lamentável de que o mundo avançou muito pouco. Embora existam conquistas nas pautas identitárias e maior proteção jurídica para mulheres, negros e a comunidade LGBTQIA+, a estrutura social permanece homofóbica, racista, misógina, etarista, machista e classista. As denúncias de opressão que Elke bradava no passado continuam tragicamente urgentes. O mundo continua guerreando e plantando a fome, justifying o alerta profético da diva: enquanto a gente planta guerra, continuaremos colhendo guerra. Se colocada para dialogar com um imperador romano, Elke daria um banho de modernidade; se enviada ao futuro para conversar com extraterrestres, estaria no mesmo nível de igualdade cósmica. Hildegard sintetizou com precisão: Elke antecipou o futuro, era um ser chipado com uma genética avançada que viveu antes do tempo.
Apesar de sua estatura intelectual e humanista, Hildegard Angel lamentou o fato de Elke ainda não gozar do devido reconhecimento histórico na televisão e no cinema nacional, disparando uma crítica contundente ao machismo estrutural da crítica: se Elke fosse homem, já teria sido alvo de inúmeros documentários exaltando sua genialidade; contudo, a mídia patriarcal sempre tentou trancafiá-la na prateleira reducionista da loucura. Mal sabiam os detratores que aquela mulher exuberante era a mente mais lúcida de sua geração, interlocutora íntima da psiquiatra Nise da Silveira e madrinha artística do bailarino Lennie Dale. Ela preferiu morrer apátrida a negociar sua dignidade com o Estado brasileiro após ter sua cidadania cassada pela ditadura.
O encerramento do Sem Censura evocou a potência máxima do espetáculo teatral. Igor Castilho, incorporating a persona de Elke no palco, trouxe a frase que encerra a peça e ecoa como um soco no estômago do espectador: a gente não tem liberdade, a única liberdade que a gente tem é escolher a prisão em que quer ficar. Cissa Guimarães encerrou a transmissão visivelmente emocionada, exaltando a coragem inabalável que Elke Maravilha teve em ser rigorosamente autêntica tanto na intimidade de seu lar quanto nos palcos do país. O maior legado deixado por essa divindade apátrida é a lição definitiva de que a vida é curta demais para passar por ela sendo apenas o que os outros esperam de nós. Fica o apelo urgente de Denilson Andrade aos jovens: leiam, assistam e mergulhem na história dessa figura de vanguarda que, em sua sublime passagem pela Terra, dedicou-se exclusivamente a semear o amor e a liberdade.











