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A Ópera do Sertão: Como Jayme Monjardim Vai Transformar a Saga de Leandro & Leonardo em Épico de Cinema

Com a beleza solar de André Luiz Frambach e o arsenal interpretativo de Eduardo Borelli, a cinebiografia dirigida por Jayme Monjardim promete transformar a história dos irmãos de Goianápolis...

 

 

COLUNA DENILSON ANDRADE
Portal Exposed Brasil — Rio de Janeiro, 16 de outubro de 2026.

Por Denilson Andrade — Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades

A Ópera do Sertão: Como Jayme Monjardim Vai Transformar a Saga de Leandro & Leonardo em Épico de Cinema
Com roteiro sofisticado de Letícia Wierzchowski e o retorno poético de André Luiz Frambach ao mito dos irmãos de Goianápolis, a Paris Filmes projeta um mergulho profundo na alma do luto coletivo e da hegemonia cultural brasileira.
Meus caros leitores, preparem os corações e apurem o olhar crítico. O nosso cinema nacional, tantas vezes encurralado entre o apelo comercial fácil e o preciosismo estético de nicho, está prestes a colocar de pé uma de suas operações artísticas mais ambiciosas, complexas e engenhosas dos últimos tempos. A Paris Filmes acaba de chancelar o início de “Leandro & Leonardo — Não Aprendi Dizer Adeus”. Mas desarmem-se imediatamente da ideia de um documentário linear, de uma hagiografia industrial ou de uma homenagem meramente protocolar, pois o que se projeta aqui é um mergulho anatômico, profundo e corajoso na alma do luto coletivo, na dinâmica da comoção popular e na avassaladora força de um gênero musical que, queiram ou não os intelectuais de gabinete, colonizou o imaginário afetivo e geográfico do Brasil moderno.
Para reger essa verdadeira ópera de contornos nitidamente melodramáticos e de inegável apelo mitológico, o escolhido foi ninguém menos que Jayme Monjardim. Convenhamos, Monjardim é um mestre indiscutível do lirismo histórico e da solenidade visual, basta resgatarmos na memória as texturas densas e poéticas de Olga ou da grandiosidade telúrica de O Tempo e o Vento. A presença dele na cadeira de direção funciona como a nossa maior salvaguarda contra o simplismo documental. O cineasta chega com a missão clara de operar uma clivagem estética cirúrgica, afastando o longa-metragem do fantasma de uma cópia superficial biográfica para inseri-lo com propriedade no panteão do drama épico familiar, onde a dor é tratada com dignidade cênica e sem concessões ao artificialismo.
A costura fina dessa odisseia, gestada pela Accorde Filmes em coprodução com a Paris Entretenimento e a Claro, está ancorada em uma arquitetura narrativa que me agrada profundamente por sua deliberada sofisticação. O roteiro é assinado a quatro mãos por Péricles Barros e pela brilhante romancista Letícia Wierzchowski, cuja prosa poética e intimista arrebatou o país na icônica minissérie A Casa das Sete Mulheres. Eles inteligentemente elegeram a simbiose fraternal, aquela conexão quase metafísica entre os dois irmãos, como o fio condutor absoluto da história. Nós seremos conduzidos desde as raízes quase míticas, bucólicas e agrárias de Goianápolis, passando pela aspereza física e psicológica do labor na roça de tomates, atravessando as fraturas sociais e as portas fechadas na dura transição para Goiânia, até a ascensão meteórica e avassaladora que os catapultou ao estrelato nacional absoluto e à inacreditável marca de 35 milhões de discos vendidos. O texto promete não fugir da dolorosa ambivalência da glória: vai encarar de frente a fratura existencial provocada pela partida precoce e trágica de Leandro, vítima de um câncer raro no pulmão em 1998, além de destrinchar o peso hercúleo que sobrou nos ombros de Leonardo, que precisou ser calculista, estrategista, maleável e resiliente para manter de pé, sozinho, o império utópico que os dois edificaram juntos.
No epicentro interpretativo, a escalação do elenco principal revela-se um verdadeiro xeque-mate político-artístico de rara perspicácia. O papel do saudoso e enigmático Leandro foi confiado a Eduardo Borelli, um ator cujo arsenal interpretativo será testado ao limite para traduzir aquela introspecção mística, o olhar melancólico e a doçura sutil que eram marcas registradas do cantor e que o transformaram em uma espécie de mártir da nossa cultura pop. Já a vibração solar, o carisma magnético e a expansividade de Leonardo caberão ao talentoso André Luiz Frambach. Convenhamos, a escolha de Frambach traz uma camada extra de magnetismo às telas: sua beleza solar marcante, combinada a uma presença cênica arrebatadora, promete hipnotizar o público e traduzir com perfeição o vigor jovem de uma lenda viva do sertanejo. Curiosamente, há um traço de destino brilhante e poético aqui: em 2007, André estreou na televisão interpretando justamente o pequeno Leandro na infância no aclamado especial Por Toda Minha Vida. Agora, artisticamente maduro, ele assume a missão reversa de viver o irmão sobrevivente com o frescor vanguardista de quem compreende a responsabilidade histórica de encarnar Leonardo. Para garantir que toda essa voltagem dramática se converta em pura poesia visual, a iluminação expressiva e os contrastes emocionais estarão sob o olhar meticuloso e premiado do diretor de fotografia Bruno Polidoro.
As filmagens começam já no próximo mês de novembro e contam com o forte respaldo institucional do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), do BRDE e da Ancine, o que promete sacudir os bastidores de uma indústria frequentemente habituada a fórmulas saturadas. Em tempos de cinebiografias efêmeras, apressadas e caça-níqueis, este filme surge como um vigoroso movimento contracorrente, disruptivo em sua escala e profundamente oportuno em seu tempo de maturação. É o retrato definitivo de uma união que se provou incorruptível diante do tempo, da fama e da própria tragédia.
Em última análise, “Leandro & Leonardo — Não Aprendi Dizer Adeus” projeta um mergulho profundo na trajetória e no luto coletivo associado à dupla, convertendo essa saga em um verdadeiro manifesto político e estético. Ao desafiar as visões tradicionais das elites intelectuais e elevar a representation do Brasil profundo a um patamar de alta dignidade cênica, a obra estabelece-se como um divisor de águas no cinema nacional. Vocês, que acompanham fielmente a minha coluna e nunca se contentam com respostas óbvias ou análises rasteiras, fiquem atentos, pois não estamos diante de apenas mais um lançamento trivial nas salas de cinema, mas sim testemunhando o nascimento de um futuro clássico. Uma obra meticulosamente desenhada para desarmar os críticos mais mordazes e emocionar, de forma genuína e arrebatadora, os corações mais devotos.
Afinal, em um país que tantas vezes consome a futilidade rápida das redes, ver a nossa verdadeira identidade cultural ocupar a tela grande com tamanho refinamento é a prova definitiva de que o Brasil profundo não pede licença à elite artística: ele simplesmente dita as regras do filme sobre a vida de Leandro e Leonardo.

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