Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mitos da Fama, Bastidores Tensos e a Realidade das Estrelas: A Lucidez Sem Filtros de Claudia Ohana

Em papo desarmante, estrela abre o jogo sobre o basta dado na direção em ‘A Próxima Vítima’, detalha a vida modesta no auge de ‘Vamp’, defende ensaios nus e aponta...

COLUNA DENILSON ANDRADE



Portal Exposed Brasil — Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2026.

Por Denilson Andrade — Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades

Mitos da Fama, Bastidores Tensos e a Realidade das Estrelas: A Lucidez Sem Filtros de Claudia Ohana

Em um papo aberto e totalmente despojado com a coluna de Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo, a atriz Claudia Ohana subverteu a imagem glamorizada do estrelato nacional. Com uma honestidade desarmante e muita lucidez, ela provou que ser uma estrela de primeira grandeza nem sempre significa ostentar contas bancárias infinitas ou guardar memórias puramente felizes do topo do audiovisual. 
Ao revirar as lembranças de A Próxima Vítima (1995), Ohana trouxe à tona a dura realidade de gravar a vilã Isabela Ferreto. Ela detalhou o estresse pesado que sofreu no set ao levar um tapa real do ator Marcos Frota, o traído Diego na trama. Dona de um perfil profissional pacífico, Claudia se define como uma atriz extremamente tranquila, mas revelou que o excesso daquela gravação quebrou sua paciência. Após ser submetida a repetir a mesma cena exaustivamente, levando tapas na cara consecutivas vezes, ela peitou a direção. Teve um verdadeiro colapso, saiu chorando e brigou com o saudoso diretor Jorge Fernando, deixando claro que não continuaria gravando sob a repetição daquela agressão cênica. A sequência em que Marcelo corta o rosto de Isabela com uma faca na mesa de jantar foi celebrada em 1995 como uma lição merecida, escancarando a perversidade de uma audiência que aplaudia a agressão contra a mulher. Homens infiéis seriam retalhados assim? Obviamente não.
O papo correu solto e bem informal quando a pauta mudou para a ilusão financeira do meio artístico. Claudia quebrou a banca ao revelar que, na mesma época em que estava bombando nacionalmente com o sucesso estrondoso de Natasha, sua vida real era surpreendentemente modesta. Enquanto o Brasil inteiro a assistia no topo do horário das sete, a atriz vivia em um apartamento bem pequeno e dirigia um carrinho popular, longe das mansões e dos veículos de luxo que o imaginário público costuma associar às celebridades de seu escalão.
Essa herança da exposição pública atravessou gerações, ecoando de forma inesperada na dinâmica de sua família. Sem papas na língua, Claudia abriu o jogo sobre os desdobramentos de ter quebrado tabus estéticos no país: ela revelou que seu neto sofre bullying na escola pelo fato de a avó já ter posado nua duas vezes. A revelação expõe o puritanismo tardio que ainda vigora em fatias da sociedade, mas não abala a postura libertária da artista. Questionada se toparia repetir o feito nos moldes atuais, Ohana foi categórica ao afirmar que, caso recebesse um convite hoje, posaria nua novamente, demonstrando total desapego com as patrulhas morais. 
Essa mesma lucidez guia o seu olhar crítico sobre o mercado cultural contemporâneo. A atriz colocou o dedo na ferida ao debater o preconceito de idade que assola o audiovisual. Para Claudia, “o mundo conservador tá crescendo” e o etarismo ainda contamina todas as camadas sociais e esferas profissionais da atualidade. Contudo, ela enxerga no teatro uma espécie de trincheira de resistência. Longe das telas, a atriz enfatizou de forma cirúrgica que, enquanto o mercado audiovisual muitas vezes escanteia a maturidade, é nos palcos que ainda residem os melhores papéis para os atores mais velhos. No tablado, onde se sente “artista de verdade”, a densidade e o repertório de vida são celebrados em vez de punidos pelo relógio.
 
 
Essa desconexão entre o barulho do sucesso comercial e o cotidiano real ficou evidente quando ela relembrou o fenômeno Vamp (1991). Ohana confessou que simplesmente não estava preparada para o estouro da novela das sete, que chegava a cravar inacreditáveis 70 pontos de Ibope. Traçando um paralelo com os tempos atuais, a atriz destacou o abismo cultural: hoje, uma novela das nove sofre para alcançar metade disso. O volume de trabalho era surreal, uma quantidade absurda de texto para decorar diariamente que quase não deixava espaço para respirar. Ela revelou que mal conseguiu aproveitar o auge, pois a demanda era esmagadora: além de gravar a novela como protagonista, ela precisava cantar em cena e fazer shows pelo país como a roqueira Natasha. Mas a verdade por trás do mito musical é simples: Claudia nunca gravou um disco de carreira; ela registrou apenas duas músicas para a trilha sonora de Vamp (as icônicas reiterações de “Sympathy for the Devil”, dos Rolling Stones, e “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, de Roberto Carlos). 
Essa veia musical, inclusive, era o seu plano original. Claudia revelou que seu grande sonho era ser cantora, mas o destino acabou empurrando seus passos definitivamente para a atuação. Uma ironia para quem carrega a arte no DNA, já que o brilhante diretor e dramaturgo Domingos de Oliveira foi casado com a mãe dela, Nazareth Ohana.
Apesar do cansaço da época, o carinho pelo horário das sete continua gigante. Cláudia fez questão de exaltar sua participação na elogiada Vai na Fé (2023), uma de suas novelas favoritas recentes. Exatamente por entender o peso desse formato, a atriz disparou que descarta totalmente um remake para a história dos vampiros, assumindo que sentiria ciúmes de ver outra pessoa na pele de Natasha. Em vez de refazer o passado, ela cravou uma visão muito mais interessante: se Vamp fosse feita hoje, em formato de continuação — uma “Vamp Parte 2” —, seria algo absolutamente incrível e revolucionário para o mercado atual. Afinal, uma sequência direta permitiria à própria Claudia a oportunidade de reviver a icônica Natasha sob a ótica de sua maturidade artística atual, fazendo justiça ao legado que ela mesma construiu. 
Entre dores cênicas antigas, as trincheiras do teatro contra o etarismo e um cotidiano surpreendentemente pé no chão, Claudia Ohana esbanja o discernimento de quem sabe exatamente o seu tamanho na história da nossa cultura, sem medo de desmistificar a engrenagem implacável da fama. 

 

0 votos: 0 positivos, 0 negativos (0 pontos)

Deixe uma resposta