Previa: O mercado de açúcar no Brasil enfrenta desafios significativos, mesmo com a expectativa de uma safra robusta. A gestão de risco se torna essencial para garantir a rentabilidade das usinas em um cenário de volatilidade e mudanças no mix de produção.
A recente safra de cana-de-açúcar no Brasil traz consigo uma série de desafios para o mercado de açúcar. Embora a previsão seja de uma colheita robusta, fatores como oscilações cambiais, volatilidade nas cotações internacionais e custos financeiros elevados exigem uma gestão de risco eficaz. Essa abordagem se torna crucial para preservar a rentabilidade das usinas, que precisam se adaptar a um ambiente em constante mudança.
De acordo com a Tria Trading, empresa especializada em mercados de açúcar e energia, uma estratégia bem-sucedida deve abranger toda a cadeia produtiva, desde o processamento da cana até a entrega do produto ao comprador internacional. A forma como as usinas alocam a cana entre açúcar e etanol impacta diretamente a oferta disponível para exportação e, consequentemente, a formação dos preços.
Mix entre açúcar e etanol altera disponibilidade do produto
Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) revelam que, na segunda quinzena de abril, 59,66% da cana processada no Centro-Sul foi destinada à produção de etanol. Esse percentual representa um aumento em relação aos 54,31% do mesmo período do ano anterior. Até o início de junho, a moagem acumulada na principal região produtora do país atingiu 144,71 milhões de toneladas de cana, com a produção de açúcar totalizando 6,84 milhões de toneladas.
Esses números indicam que, mesmo com uma moagem elevada, a oferta de açúcar pode variar consideravelmente, dependendo das estratégias adotadas pelas usinas para maximizar as oportunidades entre os mercados de açúcar e biocombustíveis.
Safra recorde aumenta potencial produtivo, mas não elimina incertezas
As projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam que o Brasil deverá colher 709,1 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2026/27, um crescimento de 5,3% em relação ao ciclo anterior. Apesar desse aumento, especialistas alertam que fatores como clima, qualidade da matéria-prima e demanda internacional continuam a influenciar o volume final de açúcar disponível no mercado.
Além disso, a redução nas exportações de açúcar e a pressão sobre os preços internacionais reforçam a necessidade de estratégias comerciais mais sofisticadas. No primeiro semestre de 2026, o Brasil exportou 12,27 milhões de toneladas de açúcar, uma queda de aproximadamente 4,6% em relação ao ano anterior, com o preço médio das exportações caindo de US$ 458,80 para US$ 359,69 por tonelada.
Gestão de risco vai muito além das cotações internacionais
Para garantir a rentabilidade, a gestão de risco deve considerar uma série de fatores que vão além das oscilações das bolsas internacionais. Paulo von Oertzen, da Tria Trading, destaca que condições climáticas, câmbio, logística e custos financeiros são elementos que impactam diretamente as operações. Mesmo contratos fechados em momentos favoráveis podem perder valor se não forem geridos adequadamente.
Uma estratégia recomendada é a fixação de preços escalonada, que permite que as usinas definam os preços ao longo da safra, reduzindo a dependência de um único momento de mercado. Essa abordagem ajuda a equilibrar proteção financeira e oportunidades comerciais, especialmente em um ambiente de alta volatilidade.
Estoques e logística também impactam a rentabilidade
A decisão de manter açúcar armazenado à espera de preços mais elevados requer uma análise cuidadosa dos custos envolvidos. Com a taxa básica de juros em níveis altos, os custos de armazenagem, seguro e transporte podem se tornar significativos. Além disso, fatores logísticos, como a disponibilidade de armazéns e janelas portuárias, são cruciais para evitar perdas financeiras no comércio exterior.
A Tria Trading, atuando na originação de açúcar, enfatiza a importância de uma abordagem integrada que combine comercialização, logística internacional e gestão de risco. Em um cenário complexo, decisões baseadas em análise de dados e planejamento financeiro são fundamentais para manter a competitividade das usinas brasileiras no mercado global.











