Faixa combina música eletrônica e imaginário caipira em releitura de composição de 2014
Em Teiurutau, o teiú – um grande lagarto brasileiro – emerge como uma figura simbólica e recorrente no imaginário de Paludetti. O mês de setembro, no interior paulista onde o músico reside, é marcado pelo despertar desses animais, que começam a sair da dormência e a aparecer nas estradas e áreas rurais, criando um elo entre a fauna local e a narrativa musical do artista.
A relação entre humanos e répteis em “Aquático” é inspirada na teoria do cérebro trino, proposta pelo neurocientista Paul MacLean e popularizada nas décadas de 1970 e 1980. Embora essa teoria tenha sido considerada ultrapassada, Paludetti utiliza a ideia de um “cérebro reptiliano” como uma metáfora para explorar uma dimensão ancestral e instintiva da experiência humana. “Aquático” transcende a reflexão científica, apresentando-se como uma canção que aborda temas de desejo, água e amor, evocando imagens das margens de rios e cachoeiras do interior paulista, que são espaços de encontro, memória e descoberta.
O músico destaca que, embora a canção tenha uma base teórica, sua essência é profundamente ligada à emoção: “Em ‘Aquático’, quando foi feita, havia uma dimensão erótica, um erotismo selvagem. Não é nada sobre teorias científicas ultrapassadas, no fim das contas, mas sobre desejo e situações de amor na beira do rio. ‘Troca de pele, baby, vem / sabe que eu só gosto assim…’. ‘Aquático’ é uma canção de amor”, explica Paludetti.
A água, elemento central na composição, reflete a fascinação do artista por represas e rios, simbolizando o desconhecido e o que permanece oculto sob a superfície. Para Paludetti, o mergulho é uma imagem poderosa que representa o retorno à origem, ao corpo e ao instinto. Ele sintetiza essa ideia ao afirmar: “Teorias obsoletas à parte, nossa origem comum está na água. Sejam Homo sapiens ou Salvator merianae, partilhamos, em algum ponto muito remoto da nossa história na Terra, um ancestral comum aquático.”
Musicalmente, “Aquático” retoma uma fase da trajetória de Paludetti marcada pela exploração de síntese digital, arranjos eletrônicos e ritmos dançantes. O resultado é o que o artista define como “música eletrônica caipira”, onde sintetizadores digitais, guitarras, vocoder e referências ao synth pop se entrelaçam com o universo rural contemporâneo do interior paulista. As influências incluem ícones como Kraftwerk e New Order, além de ecos da vanguarda paulista. As guitarras, gravadas originalmente em 2020, mantêm uma abordagem ingênua, enquanto a nova versão incorpora vocoder à voz do refrão, trazendo uma nova dimensão à faixa.
O projeto “Teiurutau Expandido” foi realizado com o apoio do Programa de Ação Cultural – ProAC Editais, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) do Ministério da Cultura e Governo Federal. Essa colaboração ressalta a importância do apoio institucional à produção cultural no Brasil, permitindo que artistas como Paludetti explorem e expandam suas visões criativas.











