Previa: A falta de investimentos em qualificação profissional no agronegócio brasileiro pode comprometer a competitividade do setor em um cenário de crescente digitalização e inovação tecnológica.
A rápida evolução tecnológica no agronegócio brasileiro está ampliando a demanda por profissionais altamente qualificados. Especialistas alertam que os investimentos em capacitação ainda estão aquém do necessário para sustentar o próximo ciclo de crescimento e inovação do setor.
Diogo Luchiari, sócio e vice-presidente de Atendimento e Operações da Macfor, destaca a crescente dependência de instituições externas na formação da mão de obra técnica que abastece o agro nacional. A transformação digital exige novas competências e apresenta um desafio estratégico: preparar profissionais capazes de operar tecnologias avançadas em um ambiente cada vez mais orientado por dados.
Investimento em treinamento segue abaixo de mercados desenvolvidos
Dados do levantamento “Panorama do Treinamento no Brasil 2025/2026”, elaborado pela Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento (ABTD), revelam que as empresas brasileiras investem, em média, R$ 1.199 por colaborador ao ano em capacitação. Em contrapartida, nos Estados Unidos, o investimento médio chega a R$ 6.690 por profissional, quase seis vezes superior.
O estudo também indica que os trabalhadores brasileiros recebem, em média, 26 horas anuais de treinamento, enquanto nos Estados Unidos a média é de 21 horas. Para especialistas, a diferença sugere que o problema não está apenas no tempo dedicado à capacitação, mas também na profundidade e qualidade dos programas oferecidos.
Disputa por talentos se intensifica no agronegócio
A crescente concorrência por profissionais especializados torna o cenário ainda mais desafiador. Uma pesquisa realizada pela FESA Group com executivos de grandes empresas revelou que a qualificação profissional é uma das principais preocupações nas áreas de recursos humanos. A retenção de talentos e a formação técnica ganharam relevância estratégica em um ambiente de transformação tecnológica acelerada.
Atualmente, profissionais com conhecimento em agricultura digital, análise de dados, inteligência artificial e automação estão entre os mais disputados pelo mercado. Além do agronegócio, setores como fintechs e empresas de tecnologia também buscam esses especialistas, aumentando a concorrência e pressionando os salários.
SENAR, cooperativas e universidades sustentam formação técnica
A qualificação profissional voltada ao campo é, em grande parte, conduzida por instituições como o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), cooperativas e universidades públicas. Embora desempenhem um papel fundamental no desenvolvimento do setor, especialistas afirmam que as empresas privadas precisam assumir uma participação mais ativa na formação de seus profissionais.
Esse desafio se torna ainda mais relevante considerando o peso econômico do agronegócio brasileiro, que deverá movimentar cerca de R$ 3,79 trilhões em 2025, consolidando sua posição como um dos principais motores da economia nacional.
Inteligência artificial e agricultura digital elevam exigências
A modernização do campo já é uma realidade em diversas regiões produtoras do país. Máquinas autônomas, monitoramento remoto de lavouras e inteligência artificial aplicada à produtividade fazem parte da rotina de muitas propriedades rurais. Esse avanço exige profissionais capazes de interpretar dados e tomar decisões estratégicas baseadas em informações em tempo real.
Para especialistas, a escassez de mão de obra qualificada pode se tornar um dos principais gargalos para o crescimento sustentável do agronegócio na próxima década.
Capacitação deve ser tratada como investimento estratégico
Diante desse cenário, cresce a percepção de que a formação profissional precisa ser encarada como um investimento essencial para a competitividade do setor. Assim como insumos e máquinas, a qualificação da mão de obra tende a ocupar um papel cada vez mais estratégico dentro das empresas do agro.
A capacidade de atrair, desenvolver e reter talentos especializados poderá ser decisiva para que o Brasil mantenha sua liderança global na produção de alimentos e aproveite plenamente as oportunidades geradas pela revolução tecnológica no campo.











