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COLUNA DENILSON ANDRADE
Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026
Rio de Janeiro, 26 de Setembro de 2026
Por Denilson Andrade, Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades
APOTEÓTICA ESCULDANTE NO REINO DOS BAIXINHOS: O ÚLTIMO VOO DA NAVE REINVENTA O MITO DE XUXA MENEGHEL E INCENDEIA A ARENA DA BAIXADA EM CURITIBA
Há algo de profundamente sociológico e, por que não dizer, de deliciosamente mercadológico na persistência dos mitos infantis sobre a psique do adulto contemporâneo. Na noite deste sábado, 26 de setembro de 2026, a fria e habitualmente blasé capital paranaense despiu-se de seu rigor europeizado para se converter no epicentro de um verdadeiro terremoto de memória afetiva. A turnê O Último Voo da Nave, ambicioso megashow capitaneado por Xuxa Meneghel sob a chancela da produtora vanguardista 30e e do Itaú Live, aportou na monumental Arena da Baixada. Trata-se não apenas de uma digressão musical, mas de um ritual de desobsessão geracional para milhares de baixinhos que hoje gerenciam boletos e crises existenciais, mas que não hesitaram em pagar cifras que alcançam até R$ 1.495,00 por um bilhete no concorrido setor VIP Super Fã.
A engenharia cênica do espetáculo é um deleite de precisão cirúrgica. Um dos principais elementos estruturais, a icônica nave espacial de 400 quilos e mais de seis metros de altura, exige uma operação de 10 toneladas de equipamentos controlados por motores milimetricamente instalados. A concepção e o planejamento minucioso desse aparato e de toda a turnê levaram dois anos de desenvolvimento. A logística de suspensionamento por cabos de aço e os efeitos atmosféricos contam com a expertise técnica de 20 engenheiros e profissionais estrangeiros que realizaram testes exaustivos de segurança.
O grande diferencial vanguardista da noite em Curitiba é a configuração de um palco inovador em 360 graus, concebido para abraçar o estádio e criar uma simbiose absoluta com a audiência. Outra novidade impactante é a inclusão de projeções interativas de alta definição que homenageiam as eras do Dancing Brasil, suntuoso programa de dance exibido na Record, além dos blocos nostálgicos do Xuxa Hits e da era futurista do TV Xuxa. O espetáculo se articula como uma grande convocação mística da loira, propondo ao público um pacto que ela própria batizou de o dia da criança ser feliz, estimulando todos os presentes a libertarem suas versões infantis.
O repertório monumental de 35 canções revisita a história em seis atos sequenciados com precisão cirúrgica:
- Ato I evoca a Era Xou da Xuxa com a apoteótica descida da nave ao som de Doce Mel, emendando com as clássicas Xou da Xuxa, Hoje é Dia de Folia, Xuxalelê e o hino didático Abecedário da Xuxa.
- Ato II mergulha no lirismo ecológico do Reino Encantado, onde a artista amarra um medley contundente composto por Viver, Planeta Terra, Quem Sabe Um Dia e O Boto Rosa, avançando para Nosso Canto de Paz, Pinel Por Você, Coração Criança, Xuxaxé e Tô de Bem com a Vida.
- Ato III encapsula o bilionário fenômeno do XSPB, injetando batidas eletrônicas e arrastando a arena com as icônicas Cinco Patinhos, Txutxucão, Estátua, Cabeça, Ombro, Joelho e Pé, Soco, Bate, Vira, Dança da Xuxa e Parabéns da Xuxa.
- Ato IV promove a catarse pop de Xuxa Park e o bloco coreográfico das assistentes de palco com É de Chocolate, A Vida é Uma Festa e Eu Tô Feliz.
- Ato V evoca a era clubber de Planeta Xuxa com as indefectíveis Planeta Xuxa, Libera Geral, Giro do Planeta, Marquei um X, Dinda ou Dindinha e Tindolelê.
- Ato VI encerra a jornada com o bis grandioso unindo Arco-Íris, Lua de Cristal e a clássica Ilariê interpretada em três idiomas, culminando com Beijinho, Beijinho no momento em que a rainha se despede com o famoso bordão.
Visualmente, a Rainha desfila com três figurinos principais assinados pela alta couture do showbiz, alterando acessórios em tempo real no palco com a destreza de quem domina o veículo midiático há mais de quatro décadas.
Contudo, a verdadeira joia da coroa deste espetáculo hiperbólico reside no pelotão de elite que flanqueia a loira. Embaladas pelo rastro de sucesso do aclamado documentário do Globoplay, nada menos que 13 ex-Paquitas oficiais dividem o palco nesta noite em Curitiba:
- Andréa Veiga, a lendária Paquita Mor da primeira geração
- Ana Paula Guimarães, a eterna Catuxa
- Roberta Cipriani, a marcante Xiquitita
- Priscilla Couto, a popular Catuxita
- Ana Paula Almeida, a celebrada Pituxita
- Tatiana Maranhão, a histórica Paquitita
- Cátia Paganote, a enérgica Miúxa
- Juliana Baroni, a carismática Catuxa Jujuba
- Bianca Rinaldi, a outrora tímida Xiquitita Bibi que encontrou nos palcos o seu casulo de arte
- Flávia Fernandes, a carinhosa Paquitona
- Caren Lima, que marcou época como a icônica Chaveirinho da emblemática geração New Generation
- Andrezza Cruz
- Joana Mineiro, fechando o time da Geração 2000
- Kary Rivero, a célebre Paquita Argentina, brilhando no momento internacional do espetáculo
O coletivo executa um medley avassalador com os clássicos Fada Madrinha, Sonho de Verão e Trocando Energia, coroado pela performance ao vivo da faixa inédita Para Sempre Paquitas. É uma doomed-to-be-classic demonstração de força estética que transita entre o kitsch nostálgico e a vanguarda pop.
A cidade foi engolida pelo evento. Fontes hoteleiras ligadas ao entorno do Batel e da Água Verde registraram taxas de ocupação superiores a 90%, impulsionadas por caravanas vindas de todo o país e do exterior. Lojas de departamentos no Centro da capital viram seus estoques de botas de cano alto, paetês, pompons e adereços reluzentes esgotarem em poucos dias; uma audácia estilística que desafia o próprio frio curitibano.
Enquanto os detratores de plantão tentam reduzir a artista a um anacronismo em caixas de comentários, Xuxa responde com o tirocínio impávido das grandes lendas: entregando um espetáculo que movimenta milhões, esgota arenas e devolve aos adultos o direito temporário à inocência. Quem ousa criticar um império que, no momento em que a Nave decola, faz um estádio inteiro chorar em uníssono? Beijinho, beijinho, e tchau, tchau.











