O Exposed Brasil teve acesso exclusivo a peças do inquérito que investiga a morte de Samira, uma menina de apenas 10 anos, encontrada em circunstâncias inicialmente apresentadas como possível enforcamento dentro da residência onde vivia com a mãe e o irmão.
O caso, porém, rapidamente deixou de ser tratado apenas como uma morte suspeita.
Os documentos revelam que, após a chegada da criança à unidade de saúde, profissionais identificaram elementos que levantaram a suspeita de violência sexual. A partir daí, a investigação passou a se concentrar não apenas na dinâmica da morte de Samira, mas também na possibilidade de que ela estivesse sendo submetida a abusos anteriormente.
Por se tratar de um inquérito ainda em andamento e com informações sob restrição, o Exposed Brasil preservará nomes e dados que aparecem ocultados nos próprios autos. O conteúdo publicado nesta reportagem respeita ainda a diferença fundamental entre aquilo que foi efetivamente constatado, o que foi dito por testemunhas e aquilo que permanece apenas como hipótese investigativa.
Os autos mostram que aparelhos celulares, mídias e dezenas de DVDs foram apreendidos e submetidos à análise. É justamente nesse conjunto de provas técnicas — exames periciais, DNA, extração de dados digitais e reconstrução da dinâmica — que podem estar as respostas que os depoimentos, por enquanto, não conseguem oferecer.
Quem era Samira
Antes das contradições, existe uma criança.
Samira tinha 10 anos e é descrita por diferentes pessoas próximas como uma menina alegre, comunicativa, vaidosa e ainda muito infantil.
Um casal de vizinhos que conviveu com a família relatou que Samira e o irmão enfrentavam uma rotina marcada por extrema dificuldade financeira. Segundo os declarantes, houve períodos em que faltavam água, energia elétrica e até comida na residência. As crianças recorriam frequentemente aos vizinhos, que ofereciam alimentação e auxílio básico.
O mesmo vizinho descreveu Samira como “extremamente alegre”, sonhadora e ainda muito ligada a brincadeiras infantis. Apesar de ter 10 anos, gostava de brincar de boneca com uma criança de 6.
Ela dizia que queria ser modelo.
E, segundo esse relato, sonhava em trabalhar para tirar a própria família da pobreza.
A avó materna apresenta descrição semelhante.
Em seu depoimento, afirmou que Samira gostava de gravar vídeos dançando, usar o celular, se maquiar e brincar com sua cachorra. Segundo a avó, nunca havia percebido na neta sinais de depressão, tristeza profunda ou intenção de tirar a própria vida.
Esse ponto se tornaria relevante mais tarde, quando uma das pessoas ouvidas pela polícia afirmou ter visto, meses antes, conteúdos relacionados a autolesão ou suicídio sendo visualizados pela menina em um aparelho celular. O próprio depoente, entretanto, declarou desconhecer o contexto em que isso teria ocorrido.
Até o momento, portanto, a simples existência desse relato não permite concluir que Samira apresentasse comportamento suicida.
Uma infância cercada por vulnerabilidade
O inquérito também expõe um ambiente familiar complexo.
Vizinhos afirmaram que a mãe de Samira fazia uso de cocaína e álcool. Um deles declarou ter presenciado ocasiões em que ela teria pedido dinheiro emprestado para comprar a droga e relatou episódios de agressividade verbal contra os filhos.
A avó, embora apresente uma visão diferente da filha em vários aspectos, confirmou que Samira já havia contado que apanhava da mãe.
A testemunha ressaltou, porém, que nunca presenciou diretamente as agressões.
Outro fato mencionado nos depoimentos é a destruição do celular de Samira pela própria mãe, cerca de um ou dois meses antes da morte. Há divergência entre relatos sobre o objeto utilizado para quebrar o aparelho, mas há concordância de que o telefone teria sido destruído como forma de punição.
Depois disso, a menina passou a utilizar ocasionalmente o celular da mãe.
Esse detalhe poderá se tornar importante caso a perícia digital consiga reconstruir conversas, buscas ou contatos mantidos pela criança.
A casa e os vizinhos
Samira vivia com a mãe e o irmão na parte inferior de um imóvel.
Na parte superior morava um homem conhecido na região por uma referência à sua Kombi, juntamente com um filho identificado em depoimentos pelo nome Cris e também pelo apelido de “Esquisito”.
A convivência entre as famílias era intensa.
Segundo a própria mãe, Samira e o irmão subiam frequentemente para assistir televisão e vídeos no YouTube, já que não possuíam o mesmo acesso dentro de casa.
O irmão de Samira confirmou que frequentavam habitualmente o andar superior.
Em depoimento especial, afirmou ainda que o proprietário do imóvel tratava Samira melhor do que o tratava e teria chegado a prometer um cavalo à menina.
Outras testemunhas também descrevem uma relação de proximidade entre esse homem, a mãe e as crianças.
Essa convivência se tornaria um dos pontos centrais da investigação.
A última noite
Na noite da morte, Samira, o irmão, a mãe e o vizinho conhecido pela Kombi saíram juntos para comer um lanche.
Segundo o irmão da vítima, durante o passeio ele chegou a conduzir a Kombi e Samira ficou irritada porque também queria fazê-lo.
No retorno, porém, surge um detalhe que posteriormente seria objeto de divergência.
O menino contou que a cachorra começou a latir de forma agressiva. Ao verificar o motivo, teria visto Cris subindo as escadas.
Segundo ele, essa foi a última vez que viu o homem naquela noite.
Cris, em outro momento da investigação, negaria estar naquele local naquela circunstância.
Dentro da residência, a mãe afirma que todos trocaram de roupa e se prepararam para dormir.
Samira teria pedido para dormir com a mãe, mas acabou permanecendo na própria cama, ao lado da cachorra.
A mãe adormeceu.
O irmão permaneceu acordado utilizando o celular.
O depoimento do irmão
É justamente o relato do menino, então com 9 anos, que introduz algumas das maiores dúvidas do caso.
No depoimento especial, ele afirmou que em determinado momento viu a própria irmã chamando por ele e fazendo gestos com a mão.
Ele não foi até ela.
Depois, segundo o menino, a casa permaneceu silenciosa.
Em determinado momento, foi ao banheiro.
Ao retornar, encontrou Samira pendurada por uma corda, que descreveu como possuindo dois laços.
Ele afirmou que não ouviu qualquer barulho e que a mãe permaneceu dormindo ao lado dele durante todo aquele período.
Posteriormente, porém, surgem relatos diferentes sobre aquilo que o menino teria visto.
Uma amiga da família disse que, durante uma conversa dentro de um carro, o garoto lhe contou ter visto “uma sombra” fazendo sinal para que se aproximasse.
Já uma tia da vítima afirmou ter ouvido do sobrinho uma versão ainda mais específica: ele teria visto “uma mão de homem” fazendo sinal na direção do quarto.
A divergência é relevante.
No depoimento especial, ele fala da irmã.
Depois, uma testemunha fala em sombra.
Outra fala em uma mão masculina.
A investigação precisará estabelecer em que contexto cada uma dessas versões surgiu.
A mãe diz que encontrou Samira pendurada
A mãe conta que foi acordada pelo filho, que estaria assustado e perguntando onde estava a irmã.
Ela então foi até o cômodo e afirma ter encontrado Samira suspensa por uma guia de cachorro presa a uma estrutura metálica.
Descreveu a filha com as pernas dobradas, sinais de constrição no pescoço, lesão na língua e sangue na boca.
Segundo ela, a guia era de cor laranja e havia sido anteriormente entregue por um vizinho para uso com o cachorro da família.
A mãe afirmou ter retirado Samira da posição em que estava, colocado a filha no chão e iniciado manobras de socorro, incluindo respiração boca a boca.
Disse ainda ter percebido pequenos movimentos que interpretou como tentativa de respiração.
Em seguida, começou a pedir ajuda aos vizinhos do andar superior.
O proprietário do imóvel conta outra parte da história
O homem conhecido pela Kombi afirma que estava dormindo quando ouviu os gritos da mãe.
Segundo ele, quando chegou ao quarto, Samira já estava no chão.
Ele não viu a criança suspensa.
Disse que a guia estava próxima aos pés da menina e que tentou realizar massagens cardíacas e respiração boca a boca.
Sem resposta, Samira foi colocada em uma Kombi e levada até uma unidade de pronto atendimento.
Não houve retirada da criança por ambulância na residência.
O transporte foi realizado pelos próprios adultos.
A chegada à UPA
Uma profissional da enfermagem também prestou depoimento.
Segundo ela, uma Kombi chegou à unidade em situação de emergência.
A mãe de Samira estava desesperada, chorando, gritando e pedindo ajuda.
A criança foi retirada imediatamente do veículo e colocada sobre uma maca.
A profissional afirmou ter percebido apenas duas pessoas acompanhando Samira naquele momento: a mãe e um homem.
Enquanto a mãe apresentava grande alteração emocional, o homem permanecia mais calmo e não chorava.
Durante a avaliação inicial, a enfermeira constatou que a menina já estava sem sinais vitais.
Relatou cianose, caracterizada pela coloração arroxeada da pele, além de pupilas dilatadas.
Na avaliação inicial, a morte já havia ocorrido antes da chegada à unidade.
A profissional também se recorda de uma marca no pescoço semelhante à provocada por uma tira ou corda.
Ela declarou não ter visto sangramento ativo nem marcas aparentes de esganadura produzidas por mãos.
A suspeita de violência sexual muda o rumo da investigação
Foi durante o atendimento médico que surgiu a suspeita de que Samira poderia ter sido vítima de violência sexual.
A partir daí, o caso ganha uma dimensão completamente diferente.
Já não se investigava somente como aquela criança havia morrido.
Era necessário descobrir o que vinha acontecendo com ela antes da morte.
E, principalmente, quem poderia estar envolvido.
Uma acusação feita pelo próprio filho
Entre os depoimentos mais graves está o de um dos filhos do proprietário do imóvel.
O homem afirmou inicialmente que tinha conhecimento de que o próprio pai mantinha relações íntimas com a mãe de Samira.
Mas foi além.
Declarou que o pai também teria mantido relações sexuais com a própria criança.
Disse ter presenciado o pai confessando essas práticas e afirmou ter ouvido conversas envolvendo a mãe, Samira e o homem sobre o assunto.
O depoente chegou a classificar essas relações como “consensuais”.
Essa afirmação exige uma ressalva jurídica indispensável: uma criança de 10 anos não possui capacidade legal para consentir com atos sexuais. Qualquer relação sexual com criança dessa idade configura, em tese, estupro de vulnerável, independentemente de eventual alegação de consentimento.
Posteriormente, porém, o próprio filho mudou de versão.
Passou a alegar que teria feito aquelas acusações porque estava assustado e sob pressão.
A mudança radical de narrativa é um dos pontos que agora precisam ser confrontados com provas externas.
A mãe também é alvo de suspeitas
Diversos depoimentos colocam a própria mãe de Samira sob questionamento.
Há testemunhas que relatam consumo de drogas, agressões físicas e verbais contra os filhos e episódios de negligência.
Por outro lado, familiares defendem que, apesar desses problemas, ela cuidava das crianças e jamais teria submetido Samira a violência capaz de explicar sua morte.
A própria mãe nega qualquer conhecimento prévio de abuso sexual contra a filha.
Afirma que Samira nunca lhe contou que estivesse sendo violentada.
Também diz nunca ter percebido dores, dificuldades físicas ou alterações que a levassem a suspeitar de algo dessa natureza.
Após a morte, entretanto, a mãe passou a demonstrar forte suspeita sobre Cris.
Cris e as suspeitas da família
Segundo a mãe e a tia de Samira, Cris mantinha uma relação difícil com as crianças.
Há relatos de beliscões, discussões e até de uma suposta tentativa anterior de empurrar uma das crianças pela escada.
A tia também afirmou que ele costumava circular pela parte inferior da residência durante a madrugada.
Outro detalhe mencionado pelas testemunhas é o comportamento dos cães.
A família afirma que os animais reagiam a desconhecidos.
A ausência de latidos durante parte da madrugada foi interpretada por alguns depoentes como sinal de que um eventual invasor provavelmente seria alguém já conhecido pela casa.
Essa, entretanto, é apenas uma inferência das testemunhas, e não uma constatação pericial.
Quem jogou água no quarto?
Entre as contradições mais importantes do inquérito está a possível alteração da cena.
Uma testemunha afirmou que Cris teria mencionado que o local foi lavado antes da chegada da perícia.
Outros relatos, porém, atribuem justamente a ele a responsabilidade por ter jogado água.
Há ainda versões em que a própria mãe aparece como responsável por molhar o chão durante o atendimento inicial.
A mãe nega.
Segundo uma amiga da família, Cris e a mãe apresentavam versões opostas sobre quem teria colocado água no ambiente.
Em um caso envolvendo suspeita de violência sexual e morte, a eventual lavagem de uma cena pode ter enorme impacto investigativo, porque pode comprometer vestígios biológicos, marcas de contato ou outros elementos materiais.
Até aqui, porém, os documentos analisados pelo Exposed Brasil não permitem afirmar quem efetivamente molhou ou lavou o local, nem por qual motivo.
Uma despedida que passou a chamar atenção depois da morte
A tia de Samira relatou ainda uma situação ocorrida poucos dias antes.
Na sexta-feira, 7 de agosto de 2026, sua filha de 15 anos, muito próxima de Samira, esteve com a prima.
Após a morte, a adolescente contou à mãe que havia estranhado o comportamento de Samira naquele encontro.
Segundo o relato, na despedida, a menina abraçou a prima e permaneceu olhando para ela com os olhos cheios de lágrimas.
A adolescente disse ter percebido sofrimento e medo, embora Samira não tenha explicado o que estava acontecendo.
A tia também afirmou que, nos últimos tempos, Samira parecia mais receosa para falar e interrompia conversas quando algumas pessoas se aproximavam.
Esses comportamentos podem ser relevantes, mas não constituem, isoladamente, prova de abuso ou de conhecimento prévio sobre o que aconteceria.
O que ainda precisa ser respondido
Depois de analisar os depoimentos, uma coisa fica evidente: as versões não são suficientes para solucionar o caso.
Há perguntas centrais ainda abertas.
Samira realmente produziu sozinha a suspensão que levou à sua morte?
A posição do corpo e o ponto de fixação permitem essa dinâmica?
Quando exatamente ocorreu a morte?
A violência sexual identificada pelos profissionais de saúde era recente ou anterior?
Existe material biológico capaz de identificar algum agressor?
Quem teve contato com Samira nas últimas horas?
O que havia nos celulares apreendidos?
O que foi apagado?
O que existe nas dezenas de DVDs recolhidos?
Quem teve acesso à residência durante a madrugada?
A cena foi alterada?
Quem jogou água no local?
E qual é a verdadeira relação entre a morte de Samira e os abusos que passaram a ser investigados?
Essas respostas não podem ser construídas por preferência de versão.
Elas precisam vir da perícia.
O caso de Samira não é apenas sobre sua morte
Talvez o aspecto mais perturbador dos documentos obtidos pelo Exposed Brasil seja justamente perceber que a investigação não procura apenas entender como Samira morreu.
Ela precisa descobrir o que estava acontecendo com essa menina enquanto ela ainda estava viva.
Samira tinha apenas 10 anos.
Gostava de bonecas, vídeos, maquiagem e de brincar com sua cachorra.
Sonhava em ser modelo.
Segundo um vizinho, queria trabalhar para tirar a família da miséria.
Ao redor dela, porém, havia pobreza extrema, conflitos familiares, relatos de drogas, agressões, dependência financeira, relações entre adultos, livre circulação entre residências e, agora, uma investigação sobre violência sexual.
Os depoimentos se contradizem.
Algumas testemunhas mudam de versão.
Adultos acusam uns aos outros.
Mas as provas técnicas não dependem dessas narrativas.
A extração dos celulares, os exames de DNA, as análises das mídias apreendidas, os vestígios da cena e a reconstrução pericial poderão dizer muito mais do que qualquer depoimento isolado.
O Exposed Brasil continuará acompanhando o caso e, respeitando os limites legais de uma investigação que ainda está em andamento, trará novos elementos à medida que puderem ser divulgados com segurança e responsabilidade.
A pergunta que permanece é simples e, ao mesmo tempo, devastadora:
o que realmente aconteceu com Samira naquela madrugada — e o que já vinha acontecendo com ela antes que alguém percebesse?










