Previa: O mercado internacional de açúcar enfrenta uma nova fase de volatilidade, impulsionada pela queda na produção brasileira e riscos climáticos que podem afetar a oferta global. As cotações nas bolsas de Nova York e Londres têm reagido a essas mudanças, sinalizando um possível déficit no mercado.
O cenário atual do mercado de açúcar é marcado por uma crescente preocupação com a oferta global. A combinação de uma safra menor no Brasil, condições climáticas adversas em países produtores da Ásia e a tendência de direcionar cana-de-açúcar para a produção de etanol tem sustentado a alta dos preços nas principais bolsas internacionais.
Na última quinta-feira, o contrato de açúcar bruto na ICE de Nova York para outubro de 2026 subiu 2,77%, atingindo 15,57 centavos de dólar por libra-peso. Em Londres, o açúcar branco também registrou alta, com um aumento de 2,10%, alcançando US$ 487,30 por tonelada. Esses números refletem a maior cotação em meses, evidenciando a pressão sobre a oferta.
Produção de açúcar do Brasil despenca no Centro-Sul
Um dos principais fatores que contribuíram para a valorização do açúcar foi a queda na produção brasileira. Dados da UNICA revelaram que as usinas do Centro-Sul produziram 3,903 milhões de toneladas de açúcar em junho, uma redução de 26,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Como o Brasil é o maior produtor e exportador mundial da commodity, essa diminuição impacta diretamente os preços internacionais.
Além disso, as novas estimativas de produção e as condições climáticas têm gerado reações no mercado, especialmente após os contratos terem testado mínimas de cinco meses na semana anterior. As projeções indicam que a oferta global pode se tornar ainda mais restrita ao longo da temporada 2026/27.
Projeções apontam para déficit global de açúcar
Consultorias do setor revisaram suas estimativas de déficit mundial de açúcar, aumentando as previsões. A Covrig Analytics agora projeta um déficit de 300 mil toneladas para a safra 2026/27, enquanto a Green Pool Commodity Specialists elevou sua estimativa de 1,76 milhão para 3,3 milhões de toneladas. A StoneX também ajustou sua previsão, passando de 550 mil toneladas para 1,7 milhão.
Essas revisões refletem uma mudança significativa na percepção do mercado, que até recentemente esperava uma oferta global confortável. Agora, a possibilidade de um balanço mais apertado coloca o açúcar novamente em destaque para os investidores.
El Niño aumenta risco para produção global
O clima na Ásia, especialmente na Índia, também é uma preocupação. O país, que é o segundo maior produtor mundial de açúcar, enfrenta incertezas relacionadas ao comportamento das monções. O Departamento Meteorológico indiano indicou que as chuvas previstas para agosto e setembro podem ficar abaixo da média, o que é crítico para o desenvolvimento dos canaviais.
O fenômeno climático El Niño, que tende a reduzir as chuvas em regiões produtoras de cana, como Brasil, Índia e Tailândia, agrava ainda mais a situação. O Centro de Previsão Climática dos EUA avalia que este episódio pode ser um dos mais fortes das últimas décadas, aumentando os riscos para a produção agrícola.
Etanol ganha espaço na estratégia das usinas brasileiras
A relação entre açúcar, etanol e petróleo é outro fator importante a ser considerado. A comercializadora Czarnikow revisou suas estimativas para o balanço global de açúcar, prevendo um déficit de 100 mil toneladas, em vez de um superávit anteriormente projetado. Essa mudança deve-se, em parte, ao maior direcionamento da cana para a produção de etanol, especialmente com o aumento dos preços do petróleo.
Quando a produção de biocombustíveis se torna mais rentável, as usinas tendem a priorizar a fabricação de etanol, reduzindo a quantidade de açúcar disponível para exportação. Essa dinâmica pode impactar significativamente o mercado internacional.
Perspectivas futuras e volatilidade no mercado
As projeções da Conab indicam que a produção brasileira de açúcar na temporada 2026/27 deve ser de aproximadamente 43,952 milhões de toneladas, uma queda de 0,5%. Em contrapartida, a produção de etanol deve crescer 7,2%, alcançando 29,259 bilhões de litros. Essa competição pela cana disponível entre açúcar e biocombustíveis é um fator relevante para o mercado.
Enquanto isso, a Índia pode ver um aumento na produção na próxima safra, com estimativas apontando para 33,6 milhões de toneladas, o que poderia ajudar a equilibrar as perdas em outras regiões. No entanto, a Tailândia deve registrar uma queda significativa de 15,6% na produção, aumentando a importância da oferta brasileira no comércio internacional.
Com a produção mundial projetada em 184,854 milhões de toneladas para 2026/27, abaixo do recorde anterior, e o consumo global crescendo, a combinação de menor produção e maior demanda pode resultar em um cenário de volatilidade elevada. O clima e a oferta brasileira serão fatores cruciais a serem monitorados nos próximos meses.











