A investigação do assassinato da cozinheira Berenice Faria, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, ganhou contornos de crise institucional e colocou sob os holofotes a atuação da cúpula da Polícia Civil na região. Nas redes sociais e em plataformas de denúncia, moradores e profissionais da imprensa têm questionado abertamente a conduta da delegada Ana Carolina Pereira em razão de sua estreita e publicamente conhecida relação de amizade com a empresária Eliane, apontada como mandante do crime e atualmente presa.
Vídeos e imagens que circulam na internet registram a proximidade entre a autoridade policial e a investigada, inclusive com publicações nas quais ambas se tratariam como “best friends” (“melhores amigas”). A relação, que segundo os registros remontaria a anos, passou a provocar questionamentos públicos por parte da sociedade civil acerca da necessária imparcialidade e independência das apurações locais.
Vazamento de conversas privadas e retaliação contra assistente social
O clima de tensão no município se intensificou após o vazamento, sem consentimento, de mensagens provenientes de um grupo privado do qual participava a assistente social Cynthia Vassao. Nas conversas divulgadas, a profissional fazia críticas à postura da delegada em relação ao caso e manifestava preocupação semelhante àquela que já vinha sendo externada publicamente por moradores da cidade.
A divulgação não autorizada de conversas privadas pode, a depender das circunstâncias concretas, caracterizar violação à intimidade, à privacidade e ao sigilo das comunicações, além de eventualmente ensejar responsabilização civil.
Após a exposição do conteúdo privado, Cynthia passou a ser alvo de publicações do portal local Uba24 que extrapolaram o debate sobre sua manifestação e avançaram sobre aspectos de sua vida pessoal. O perfil também resgatou matérias relacionadas ao passado de um familiar da assistente social — fatos que, aparentemente, não guardam relação direta com sua atuação profissional nem com a investigação do caso Berenice.
Moradores e denunciantes passaram, então, a questionar publicamente se a atuação do veículo estaria contribuindo para a defesa da imagem da autoridade policial e para a descredibilização daqueles que questionam sua atuação.
A situação provocou ainda mais controvérsia diante de uma declaração atribuída à própria delegada, segundo a qual “ninguém pode ser responsabilizado pelos atos de com quem se relacionou”. O mesmo raciocínio, entretanto, não teria sido observado nas publicações direcionadas à assistente social, nas quais acontecimentos relacionados a terceiros foram utilizados para atingi-la pessoalmente.
Pressão judicial e ameaça à liberdade de imprensa
A atuação da autoridade policial também passou a despertar preocupação quanto à preservação da liberdade de imprensa. Além dos episódios envolvendo a assistente social, há relatos de que a delegada teria ameaçado adotar medidas judiciais contra a jornalista Patrícia Calderon em razão de matérias investigativas relacionadas ao homicídio da cozinheira.
O episódio suscita questionamentos sobre os limites entre o legítimo direito de qualquer cidadão — inclusive agentes públicos — de recorrer ao Poder Judiciário para proteger sua honra e a eventual utilização reiterada de medidas judiciais como instrumento de intimidação contra jornalistas.
A Constituição Federal assegura tanto a proteção da honra e da imagem quanto a liberdade de expressão, de informação e de imprensa, vedando a censura prévia. Por essa razão, eventuais medidas destinadas a impedir previamente a divulgação de informações de interesse público devem ser analisadas com especial cautela.
Ponta do iceberg: denúncias de conchavos, grilagem e intimidações
Em meio às retaliações relatadas, o Exposed Brasil passou a receber uma série de novas denúncias encaminhadas por moradores de Ubatuba. Os relatos sugerem que os questionamentos relacionados à atuação de agentes públicos no caso Berenice poderiam integrar um contexto mais amplo de supostas irregularidades no município.
O caso acabou funcionando como catalisador para que moradores apresentassem documentos, relatos e denúncias referentes a acontecimentos anteriores e independentes do homicídio da cozinheira.
Entre as alegações encaminhadas ao Exposed Brasil estão:
• possíveis episódios de prevaricação e supostos conchavos envolvendo integrantes das forças de segurança da região;
• alegações de utilização de influência para intimidar testemunhas, denunciantes e lideranças comunitárias;
• denúncias envolvendo grilagem de terras, disputas possessórias e conflitos fundiários;
• relatos de violência, corrupção, intimidação e ameaças contra moradores e produtores rurais, especialmente na região de Ubatumirim.
É importante destacar que essas acusações possuem diferentes origens, graus de documentação e estágios de apuração. Sua apresentação como denúncia não significa, por si só, que os fatos estejam comprovados ou que as pessoas eventualmente mencionadas tenham responsabilidade criminal, administrativa ou civil reconhecida.
Diante da gravidade e do volume do material apresentado, denunciantes defendem que órgãos externos de controle e fiscalização acompanhem os acontecimentos, especialmente para garantir independência na apuração dos fatos e proteção a testemunhas, denunciantes e profissionais da imprensa.
Eventuais representações encaminhadas ao Ministério Público, às corregedorias competentes e a outros órgãos de controle deverão ser analisadas pelas respectivas instituições dentro de suas atribuições legais.
O que começou com a investigação do assassinato de Berenice Faria, portanto, passou a revelar uma crise de confiança muito mais ampla entre parcela da população e instituições locais.
Agora, caberá aos órgãos competentes separar denúncias de fatos comprovados, identificar eventuais responsabilidades e esclarecer se os episódios relatados possuem conexão entre si ou representam ocorrências independentes.
Para o jornalismo, permanece uma obrigação essencial: investigar, documentar, ouvir todas as partes envolvidas e permitir que fatos de interesse público sejam submetidos ao escrutínio da sociedade.










