A estreia mundial aconteceu no Festival do Rio, em outubro passado, com lotação máxima e muitos aplausos. De lá, o filme foi para Sitges, na Espanha, o maior festival de cinema fantástico do mundo, depois para Bruxelas, depois para o Marché du Film de Cannes. Além disso, garantiu distribuição nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Itália, Áustria, Coreia do Sul e Índia. Para um filme independente de vampiros feito no Brasil, é um percurso que fala por si. A Vogue Brasil conversou Tubaldini para entender como um projeto assim se constrói, e o que significa levar para o mundo um cinema brasileiro que não costuma existir.
Love Kills parte da graphic novel homônima de Danilo Beyruth e coloca no centro da trama Helena, uma vampira imortal interpretada por Thais Lago, que circula pelo centrão paulistano e envolve um garçom ingênuo, vivido por Gabriel Stauffer, numa rede de intrigas que ele sequer imaginava existir. O gênero é terror, o cenário é a Cracolândia, e o subtexto é precisamente o que você esperaria de alguém que pensa em vampiros como metáfora. “Representam os seres marginalizados, o imigrante, o exilado, todos aqueles fora do sistema, quer seja por sua origem, sua cor ou suas opções”, conta. Helena, apesar de imortal e mais forte que um tigre, ainda teme o centro de São Paulo. “Esse paradoxo mostra os desafios de uma mulher em nossa sociedade.”
Segundo a diretora, a escolha da cidade como cenário foi uma decisão prática e estética ao mesmo tempo. “O centrão de São Paulo é um personagem em si”, diz. “Para além da riqueza em termos de pluralidade de pessoas, o centro é um cenário pronto. Onde você colocar a câmera vai se ter uma cena muito poderosa.” Esse tipo de olhar, que transforma o dado concreto em potência cinematográfica, é provavelmente o que explica o percurso internacional do filme. “O público abraçou o Love Kills de uma forma muito intensa”, relembra sobre as sessões em festivais. “Nós não estamos acostumados a ver filmes brasileiros de fantasia, mas é importante lembrar que esse é o gênero mais consumido não só no mundo, mas também no Brasil.”
A transição dos bastidores para a direção ela atribui, com certa naturalidade, à ioga. “Após alguns anos praticando quase diariamente, muita coisa começou a se transformar, e parte da transformação pessoal passa por encontrar a sua voz. Quando isso veio com força, migrar para a direção foi natural.” Diretora trans num gênero ainda dominado por homens cis, ela reconhece a raridade do lugar que ocupa. “Gostaria de ver mais mulheres e homens trans ocupando posições de destaque no audiovisual no Brasil e no mundo”, afirma. Em Love Kills, ela acumula direção, roteiro e produção, e vê nessa concentração de funções não uma necessidade, mas uma convicção sobre para onde o cinema caminha. “Com a expansão forte da inteligência artificial, o raro, o escasso, o diferente será a manifestação verdadeiramente humana. Algoritmos se baseiam no passado para prever o futuro. Somente nossa mais autêntica verdade é que poderá trazer bons filmes.”











