Previa: O Brasil enfrenta uma queda significativa na produção de trigo, a menor desde 2020, enquanto a alta do cereal argentino e os riscos no Mar Negro pressionam o mercado. A combinação desses fatores pode impactar diretamente os preços e a oferta do produto no país.
O mercado brasileiro de trigo está em um momento crítico, caracterizado pela redução da safra nacional e pela oferta interna limitada. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revisou suas estimativas, apontando uma produção de 6,03 milhões de toneladas para 2026, uma queda de 4,5% em relação à previsão anterior. Essa redução representa a menor safra desde 2020 e uma diminuição de 23,5% em comparação com o ano anterior.
A diminuição da área cultivada na Região Sul e a baixa produtividade em algumas lavouras do Centro-Oeste são os principais fatores que contribuem para essa escassez. Com a colheita reduzida, o Brasil deverá aumentar sua dependência das importações, especialmente da Argentina, que é a principal fornecedora de trigo para o país.
Pressão no mercado interno
Dados do Cepea indicam que as cotações do trigo no mercado doméstico estão sendo sustentadas pela oferta restrita. No Rio Grande do Sul, a liquidez é baixa, com a demanda da indústria reduzida e os moinhos mantendo um abastecimento confortável, o que limita novas negociações. Em contrapartida, no Paraná, a escassez do cereal tem mantido os preços elevados.
Na Bolsa de Chicago, os contratos futuros de trigo apresentaram leves quedas, mas especialistas afirmam que isso se deve a uma realização de lucros e não altera os fundamentos que sustentam os preços. Fatores como a diminuição da produção brasileira, a evolução da safra argentina e os riscos logísticos na região do Mar Negro continuam a influenciar o mercado.
Dependência da Argentina e riscos geopolíticos
Com a previsão de uma safra menor no Brasil, a Argentina se torna ainda mais crucial para o abastecimento. As condições climáticas no país vizinho são favoráveis até o momento, o que pode ajudar a mitigar a redução da oferta brasileira. No entanto, qualquer alteração climática pode impactar negativamente essa situação, aumentando a pressão sobre os preços do trigo no Mercosul.
A situação no Mar Negro também é um fator de risco significativo. A Rússia, que deve ter uma das maiores colheitas globais, enfrenta desafios logísticos devido à guerra, o que pode afetar as exportações. Na Ucrânia, a produção está estável, mas as dificuldades de escoamento mantêm o risco de interrupções nas exportações, influenciando os preços internacionais do cereal.
A alta do trigo argentino já está refletindo nos custos de importação para o Brasil. O preço do trigo FOB em Buenos Aires aumentou de US$ 230 para US$ 240 por tonelada, elevando os custos das farinhas importadas. No Rio Grande do Sul, preços indicados pela Cargill estão em torno de US$ 286 por tonelada, enquanto outras ofertas se aproximam de US$ 300 por tonelada.
O mercado no Sul do Brasil permanece lento, com a expectativa de uma nova safra. As ofertas locais estão praticamente esgotadas, e a comercialização de farinha está devagar, levando moinhos a reduzir a moagem e aumentar os estoques. As indicações de preços para a nova safra variam, mas vendedores estão cautelosos devido a preocupações climáticas relacionadas ao El Niño.
As perspectivas para o mercado de trigo no Brasil são desafiadoras, com uma oferta apertada prevista para 2026. A combinação de uma safra reduzida, custos de importação elevados, a valorização do trigo argentino e os riscos geopolíticos no Mar Negro devem manter os preços firmes, mesmo com correções pontuais na Bolsa de Chicago. A evolução da safra argentina e as condições climáticas serão cruciais para determinar os preços do cereal nos próximos meses.











