Prévia: A sobrecarga de responsabilidades domésticas e de cuidado expõe as mulheres a um maior risco de violência de gênero, segundo especialistas. Com a Lei Maria da Penha completando 20 anos, a discussão sobre a vulnerabilidade feminina se torna ainda mais urgente.
A responsabilidade pelo cuidado de filhos, familiares e do lar, que historicamente recai sobre as mulheres, é um dos principais fatores que as tornam mais suscetíveis à violência de gênero. Essa realidade foi discutida por especialistas em um contexto em que a Lei Maria da Penha, criada para proteger as mulheres da violência doméstica, completa duas décadas.
A sobrecarga emocional e financeira, associada à falta de autonomia, cria um ambiente propício para agressões. A professora Thamires da Silva Ribeiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca que a política de cuidado é essencial para enfrentar essa questão. Segundo ela, mulheres que estão sobrecarregadas com o trabalho doméstico frequentemente se encontram em situações de vulnerabilidade, sem recursos para escapar da violência.
Desigualdade nas responsabilidades
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua 2022 revelam que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a tarefas domésticas, enquanto os homens gastam apenas 11,7 horas. Essa discrepância evidencia a desigualdade de gênero nas responsabilidades familiares e a necessidade de uma política pública que promova a corresponsabilização entre homens e mulheres.
A Política Nacional de Cuidados, instituída em 2024, é vista como um avanço nesse sentido. Thamires Ribeiro acredita que, ao reduzir a sobrecarga sobre as mulheres e proporcionar acesso a recursos financeiros e sociais, é possível criar condições para que elas desenvolvam estratégias de enfrentamento à violência.
Christine Silveira Abdalla, especialista em geriatria e fundadora da ONG Associação Cuidadosa, afirma que a própria sobrecarga de trabalho é uma forma de violência. Muitas mulheres abandonam suas carreiras e vida social para se dedicarem exclusivamente ao cuidado, sem uma rede de apoio adequada.
Dados alarmantes de violência
Os números sobre violência contra a mulher no Brasil são alarmantes. Em 2025, foram registrados 1.571 casos de feminicídio, uma média superior a quatro por dia. Oito em cada dez vítimas conheciam seus agressores, geralmente parceiros ou ex-parceiros. Além disso, houve 286,3 mil registros de agressão doméstica e 788,6 mil casos de ameaças, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Dependência e ciclo de violência
A dependência financeira e emocional é um fator que impede muitas mulheres de romperem relacionamentos abusivos. A advogada Marilha Boldt destaca que, mesmo mulheres com alta renda podem se sentir presas a um ciclo de violência devido à manipulação psicológica. Essa dependência é frequentemente alimentada pela violência emocional, que mina a autoestima e a percepção de potencial das mulheres.
Desafios do sistema patriarcal
A superintendente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do Rio de Janeiro, Claudia Araujo, aponta que o sistema patriarcal ainda perpetua a ideia de que as mulheres devem cuidar da casa e da família. Essa expectativa social dificulta a ruptura do ciclo de violência, pois muitas mulheres enfrentam preconceito ao buscar autonomia.
Claudia ressalta a importância da Lei Maria da Penha, que oferece ferramentas legais para que as mulheres possam buscar ajuda e proteção. Ela enfatiza que a sociedade deve se mobilizar para apoiar as vítimas e não silenciar diante da violência.
Canais de apoio e denúncia
Várias instituições oferecem suporte às mulheres em situação de violência. A Central de Atendimento à Mulher Ligue 180, disponível 24 horas, é um dos principais canais de denúncia. Além disso, o WhatsApp e o e-mail da central também estão à disposição para acolher e orientar as vítimas.
Em situações de emergência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo número 190. O Conselho Nacional de Justiça também disponibiliza informações sobre Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher e Defensorias Públicas, que podem auxiliar na solicitação de medidas protetivas.











