Vanessa Gomes fala sobre o mês mundial de conscientização sobre a rosácea
Abril é o mês dedicado à conscientização mundial da rosácea, uma das doenças inflamatórias crônicas de pele mais prevalentes do planeta, e ainda assim pouco conhecida pelo grande público. Instituído pela National Rosacea Society, o mês de conscientização, convida dermatologistas, comunidades de pacientes e veículos de comunicação a ampliarem o debate sobre a condição, incentivar o diagnóstico precoce e, sobretudo, combater o estigma que pesa sobre quem convive diariamente com seus sintomas e um deles é a vermelhidão no rosto.
Uma das doenças inflamatórias mais prevalentes da pele continua sendo subdiagnosticada, subtratada e, principalmente, subentendida. Segundo o primeiro estudo epidemiológico global sobre a condição, publicado em 2024 no Journal of the American Academy of Dermatology e conduzido pelos Laboratórios Pierre Fabre em parceria com 20 países, 5% da população mundial é afetada, o que representa mais de 415 milhões de pessoas. No Brasil, dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) apontam prevalência entre 1,5% e 10% da população adulta, com maior incidência em pessoas entre 30 e 60 anos. Embora as mulheres sejam diagnosticadas com maior frequência, nos homens os sintomas tendem a se manifestar de forma mais severa, especialmente nas formas fimatosas.
A rosácea não tem cura. No entanto, com o acompanhamento médico correto, rotina de skincare específica e identificação dos gatilhos individuais, como exposição solar, estresse, alimentos condimentados e variações bruscas de temperatura, é possível alcançar longos períodos de remissão e qualidade de vida plena.
E o problema começa exatamente aqui: rosácea ainda é tratada como uma questão que incomoda a aparência, quando na verdade é fisiopatologia.
rosácea
Durante décadas, a rosácea foi descrita de forma simplista — uma pele reativa, com tendência à vermelhidão. E isso não cria consciência, nem promove estudos aprofundados. É só mais um caso a ser cuidado paleativamente.
Mas a literatura recente muda completamente essa leitura.
Hoje, sabemos que a rosácea é resultado de um desequilíbrio integrado entre sistema imune, sistema nervoso cutâneo, microcirculação vascular, microbioma e barreira da pele.
Essa interação é tão central que alguns autores descrevem a doença como um colapso do eixo neuro-vascular-imune-barreira .
Estudos publicados em periódicos como Frontiers in Immunology e International Journal of Molecular Sciences mostram que a rosácea envolve hiperativação da imunidade inata, inflamação neurogênica, disfunção vascular e alteração microbiana.
Vamos de uma vez por todas entender o que se passa na pele? E os mecanismos aparentemente invisíveis que explicam o que conseguimos enxergar?
Começamos pela imunidade desregulada. Pacientes com rosácea apresentam produção alterada de peptídeos antimicrobianos, como a catelicidina, que se tornam altamente inflamatórios. Isso amplifica a resposta da pele a estímulos mínimos — calor, vento, produtos cosméticos.
Temos também a Hiperreatividade neurovascular. Ou seja: a pele reage de forma exagerada a estímulos sensoriais e emocionais. Canais como TRP (Transient Receptor Potential) são ativados por temperatura, alimentos picantes, álcool e estresse . A partir desses gatilhos, desencadeiam liberação de mediadores inflamatórios como IL-6 e TNF-α .Resultado: flushing persistente, vasodilatação e inflamação crônica.
A Barreira cutânea de pessoas que sofrem com a rosácea também costuma ser comprometida. E é justamente essa perda de integridade da barreira que facilita a entrada de irritantes e intensifica o ciclo inflamatório. A literatura é consistente ao mostrar que a rosácea envolve aumento da permeabilidade cutânea, maior sensibilidade sensorial e menor capacidade de recuperação.
Uma questão pouco falada sobre pele, mas que vem ganhando mais destaque é o Microbioma. E, em peles com rosácea, ele costuma estar em desequilíbrio. A presença aumentada do Demodex folliculorum e alterações bacteriana s contribuem para inflamação contínua.
A condição é classificada em quatro subtipos principais, que podem coexistir em um mesmo paciente e exigem abordagens terapêuticas distintas:
Eritemato-Telangiectásica: subtipo mais comum, caracterizado pela vermelhidão persistente e pela presença de vasinhos visíveis na pele (telangiectasias). A face apresenta aparência constantemente inflamada e sensível.
Papulopustulosa: frequentemente confundida com acne, apresenta pápulas (bolinhas vermelhas) e pústulas (lesões com pus) sobre uma base intensamente avermelhada, mas sem a presença de cravos, o que diferencia as duas condições.
Fimatosa: envolve o espessamento progressivo da pele e o aumento das glândulas sebáceas. É mais comum no nariz, chamada de rinofima, que adquire aspecto irregular, bolboso e com poros dilatados. Mais prevalente em homens.
Ocular: afeta os olhos e as pálpebras, provocando ressecamento, vermelhidão, sensação de areia, fotofobia e, em casos mais graves, comprometimento da córnea. Estudos indicam que até 50% das pessoas com rosácea facial também apresentam esse subtipo, que frequentemente é subdiagnosticado.
Alisson Becker, goleiro da Seleção, rosácea
Mesmo com esse avanço científico, o diagnóstico ainda é tardio.
E isso acontece por três motivos principais:
. Sobreposição clínica com acne e dermatites;
. Normalização da vermelhidão como característica estética;
. Desconexão entre sintomas e fisiopatologia.
A rosácea não é reconhecida porque ainda é vista como algo “leve”. Mas a ciência mostra que a rosácea está longe disso. O impacto é que não aparece na pele. A rosácea é uma doença visível — e isso muda tudo. Estudos clínicos mostram associação consistente com ansiedade, depressão, isolamento social e queda de autoestima. E quando pensamos nos fatores emocionais, eles permeiam tridimensionalmente a rosácea, porque ao mesmo tempo que eles são uma consequência da queda de autoestima e frustração de lidar com essa doença crônica, eles também podem atuar como gatilho, criando um ciclo muito frustrante para o paciente. Revisões recentes mostram que estresse, dieta e ambiente influenciam diretamente a severidade da doença, o que só reforça que a rosácea é simultaneamente dermatológica e neuroinflamatória.
“Abril, é muito mais do que uma data no calendário para mim, é uma oportunidade de abraçar cada pessoa que, assim como eu, recebeu um diagnóstico que mudou a relação com o próprio rosto. Eu sei o que é se olhar no espelho e não se reconhecer. Por isso, há sete anos construo o Rosácea Grupo como um porto seguro: um lugar onde a rosácea não define quem você é, mas onde você aprende a cuidar da sua pele com informação, carinho e comunidade.”Diz Vanessa Gomes, fundadora do Rosácea Grupo e portadora de Rosácea.
A dermatologia moderna está abandonando a divisão rígida em subtipos.
Hoje, a abordagem mais aceita é baseada em fenótipos coexistentes, porque a doença não evolui de forma linear. Isso significa que a vermelhidão, as pápulas, a sensibilidade e os sintomas oculares podem aparecer juntos, em diferentes intensidades. E isso exige tratamento personalizado. Não existe espaço para um diagnóstico – e tratamento genéricos.
Ainda não existe cura para rosácea. Mas existe controle — e isso muda completamente o prognóstico. A abordagem moderna combina Skincare funcional, com foco em: reparo de barreira (ceramidas, lipídios), anti-inflamatórios (niacinamida, ácido azelaico) e ativos calmantes (centella asiática). Além disso, é muito importante que se realize o Controle de gatilhos, como a radiação UV, as variações térmicas, o estresse e a dieta. Intervenções médicas também são uma excelente opção, a depender do caso e acompanhamento médico, envolvendo o uso de tratamento com ivermectina, metronidazol, agonistas alfa-adrenérgicos, laser e luz pulsada.
Mas o maior erro ainda é esse: tratar a rosácea tentando “apagar” a vermelhidão, em vez de modular a inflamação.
A rosácea é, talvez, o melhor exemplo de uma mudança inevitável no mercado, porque ela nos convida a sair da estética corretiva e entrar no acompanhamento aprofundado e multifatorial médico. Ela escancara um limite da indústria: não é mais possível falar de pele sem falar de ciência.
A rosácea não é uma condição rara, uma questão estética ou um quadro de tratamento simples, ela é o resultdo visívei do desequilíbrio de um sistema. E o real avanço não está em novos ativos – mas em mudar a forma como enxergamos a pele.
Referência no Brasil em informação sobre rosácea e pele sensível, o Rosácea Grupo é uma comunidade digital fundada em 2018 por Vanessa Gomes, criadora de conteúdo e ela mesma portadora de rosácea. Em sete anos de atuação, o projeto cresceu para uma comunidade de mais de 25.500 pessoas e se consolidou como o maior portal brasileiro dedicado exclusivamente ao tema.
O Rosácea Grupo oferece conteúdo produzido em parceria com dermatologistas, oftalmologistas e outros especialistas; resenhas honestas de produtos para pele sensível; o podcast e videocast Rosadinhos Etc e Talk, com mais de 36 episódios publicados; grupos de desconto em produtos dermocosméticos via WhatsApp e Telegram; site com informações, dicas, além de um Guia dos Rosadinhos gratuito, com orientações completas sobre causas, sintomas, tratamentos e skincare. O portal está disponível em www.rosaceagrupo.com.br e nas redes sociais como @rosaceagrupo.




