Há nomes que o tempo devora. E há nomes que o tempo só afunda mais fundo na terra, como raízes que recusam o esquecimento.
Preta é um desses nomes.
Faz um ano que ela atravessou o limiar que separa os que ficam dos que transformam o ar ao nosso redor. Mas quem disse que partir é o mesmo que desaparecer? O documentário que carrega seu nome — apenas seu nome, Preta, como se precisasse de mais alguma coisa para se sustentar — não foi feito para enterrá-la. Foi feito para nos lembrar de que ela ainda respira em cada um de nós que aprendeu, mesmo sem saber, a ser um pouco mais humano por tê-la visto existir.
Ela era mais do que a filha do músico sagrado, mais do que a herdeira de uma Tropicália que sacudiu o Brasil até os ossos. Talvez nem ela própria soubesse — e há uma beleza enorme nisso — a extensão do território que habitava dentro das pessoas.
“Preta era o tipo de ser que cabia em muitos corpos ao mesmo tempo: a amiga que atende às três da manhã, a mãe que não pergunta o motivo das lágrimas antes de abraçar, a irmã que ri da sua dor até você rir também.”
A filha que não precisou escolher entre mãe e madrasta porque seu coração era largo demais para fronteiras. E a avó. A avó de Sol de Maria.
A profecia e o Sol
Há uma música que volta agora como uma maré que ninguém pediu: “Preta, preta, pretinha, abra a porta e a janela e venha ver o sol nascer.” Quantas vezes cantamos sem entender que era uma profecia? Que o sol viria, de fato, com esse nome exato, nos braços de Preta, para continuar o que ela começou?
Ela veio ao mundo logo após o exílio. Nasceu com um nome católico porque os cartórios exigiam isso do Brasil de então — um país que pedia permissão para existir em seus próprios documentos. Mas Preta não precisou de permissão para ser o que era.
Ela simplesmente foi. Sem filtros. Sem medo do julgamento, sem o hábito de julgar. Amou seus amores com a mesma intensidade com que os libertou quando era hora. Fez dos ex-amores amigos verdadeiros, porque em Preta não havia espaço para o rancor — havia apenas espaço para mais amor.
Uma constelação chamada Preta
O Brasil se viu apaixonado por ela antes mesmo de saber o que era aquilo. Quando a doença chegou pela primeira vez, algo silencioso se partiu no peito do país. Quando voltou, o silêncio ficou mais pesado. E quando ela foi — foi assim, foi —, o Brasil chorou com a consciência de quem perde algo que não sabia que estava guardando.
Mas ela não foi. Ela se expandiu.
Há quem diga que os grandes se tornam constelações. Preta sempre foi uma. Ela só parou de precisar de um corpo terreno para provar isso.
O que Deus quer da gente? Que sejamos mais Preta. Que abramos as portas e as janelas. Que deixemos o sol entrar.
Preta é. Preta ecoa. Preta está por toda parte.
Por Dra. Toalá Carolina, The Exposed Brasil











