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Unicef alerta: pais veem palmada como disciplina e não como violência no Brasil

Um estudo recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revela que muitos pais no Brasil ainda consideram a palmada uma forma aceitável de disciplina, em vez...

Unicef alerta: pais veem palmada como disciplina e não como violência no Brasil

Um estudo recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revela que muitos pais no Brasil ainda consideram a palmada uma forma aceitável de disciplina, em vez de violência. A pesquisa, divulgada em 24 de setembro de 2026, foi realizada em comunidades de vulnerabilidade social e ouviu 214 pessoas, incluindo pais, cuidadores e líderes comunitários. Os resultados indicam uma visão distorcida sobre a disciplina, onde a palmada é frequentemente vista como uma ferramenta educacional.

Percepção da Palmada como Educação

A pesquisa identificou que muitos responsáveis acreditam que a palmada pode ser uma forma de educar, diferenciando-a do espancamento, que é amplamente rejeitado. Um pai entrevistado no Rio de Janeiro exemplificou essa visão ao afirmar: “Existe uma forma de bater educando, que foi a que eu fui criado.” Essa crença reflete uma norma social enraizada que legitima a violência como método de educação, especialmente entre crianças de até 6 anos, que foram o foco do estudo.

“As famílias sequer consideram o tapa ou a chinelada como violência”, afirma Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil. “Elas distinguem a palmada do espancamento que acham, de fato, errado.”

Teixeira destaca que, apesar de o Brasil ter uma legislação avançada, como a Lei Menino Bernardo, que proíbe a palmada, essa lei é pouco conhecida e mal interpretada pelas famílias. A falta de informação e a naturalização da violência na educação das crianças são fatores que dificultam a aplicação efetiva dessa legislação.

Desafios na Educação e na Proteção

O levantamento também revelou que a violência contra crianças e adolescentes ocorre em todas as classes sociais e que a violência é frequentemente naturalizada. “As crianças não são vistas como pessoas, mas como objetos e propriedade dos pais”, observa Teixeira. Essa percepção leva muitas famílias a recorrerem à violência como uma forma de “colocar a criança na linha”, perpetuando um ciclo de agressão.

A pesquisa também apontou a falta de repertório dos pais para disciplinar sem violência. Muitas vezes, as ações são tomadas em momentos de emoção intensa, seguidas de arrependimento. O Unicef enfatiza que a criação de crianças no Brasil ainda é considerada um assunto privado, o que silencia a comunidade e dificulta a busca por ajuda.

“Se quisermos reduzir a violência contra crianças e adolescentes, precisamos enfrentar as normas sociais enraizadas que ainda veem a prática como natural e necessária”, afirma Teixeira.

Recomendações e Caminhos para a Mudança

Entre as recomendações do estudo, o Unicef sugere que os governantes fortaleçam a prevenção da violência, apoiando profissionais da rede de proteção para que possam atuar de forma proativa. Além disso, é necessário implementar campanhas educativas que ensinem a estabelecer limites sem violência, adaptadas às realidades das comunidades mais vulneráveis.

A psicóloga infantil Mara Gomes ressalta a importância de trabalhar a autorregulação emocional nas crianças, uma vez que elas ainda não possuem maturidade suficiente para lidar com suas emoções. “Quando os pais batem, a criança pode apresentar sinais de submissão ou até de agressividade”, explica. Gomes defende que é fundamental acolher e dialogar com as crianças desde cedo, ajudando-as a entender e gerenciar suas emoções.

Por sua vez, a pedagoga Marília Paiva destaca que a educação deve ser sensível às necessidades das crianças. Ela orienta os educadores a verem as birras como tentativas de comunicação, enfatizando que os adultos devem ajudar as crianças a se regular. “A palmada não educa e gera medo, além de constranger”, conclui Paiva.

Com mais de 60 mil casos de maus-tratos registrados no Brasil em 2025, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a necessidade de uma mudança cultural e educacional se torna ainda mais urgente. A pesquisa do Unicef serve como um alerta para a sociedade sobre a importância de repensar a disciplina e promover uma educação livre de violência.

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