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O resgate do estofo dramático: Ana Lúcia Torre e Débora Duarte dão contorno definitivo a “O Zelador”

Sob a direção de Pedro Antônio, as veteranas interpretam irmãs implicantes e comandam o jogo de aparências em uma comédia que radiografa as neuroses da elite carioca.

EXPOSED BRASIL

COLUNA DENILSON ANDRADE | RIO DE JANEIRO, 22 DE SETEMBRO DE 2026

O embate magnífico de duas gigantes: Ana Lúcia Torre e Débora Duarte dão uma aula magistral de atuação e ironia em “O Zelador”

Por Denilson Andrade, Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades
Há um visível cansaço na atual safra audiovisual brasileira, frequentemente perdida em cacoetes juvenis ou na futilidade de influenciadores convertidos em atores por decreto algorítmico. Contudo, quando o cinema resolve convocar o topo da cadeia alimentar da nossa dramaturgia, o cenário muda de figura. Refiro-me à união inédita e tardia, mas providencial, de duas verdadeiras instituições da nossa cultura: Ana Lúcia Torre e Débora Duarte. As veteranas acabam de rodar suas últimas cenas no Rio de Janeiro em O Zelador, longa-metragem cujas filmagens tomaram os meses de agosto e setembro, e que agora entra em fase de pós-produção sob o selo da Buena Vista International, que ainda faz mistério sobre a data exata da estreia.
Inspirado no humor corrosivo da aclamada série portenha El Encargado, o filme destila um refinado exercício de esgrima psicológica sob a direção de Pedro Antônio e o roteiro afiado de Fil Braz, o cérebro por trás do fenômeno Minha Mãe é Uma Peça. A narrativa se debruça sobre o fictício Edifício Buenos Aires, um reduto de neuroses burguesas na Zona Sul carioca. É ali que Eliseu, defendido pelo milimetricamente preciso Matheus Nachtergaele, exerce há quase trinta anos a função de um zelador aparentemente prestativo, mas que domina como ninguém a arte de manipular a fauna elitista do condomínio através de seus segredos mais íntimos.
O delicado ecossistema entra em colapso com a chegada de Santi, vivido por Gregório Duvivier, um síndico moderno e inescrupuloso determinado a automatizar a portaria e demolir a casa de Eliseu para erguer um cobiçado rooftop com piscina. É o estopim para uma guerra de chantagens e sobrevivência, onde entram em cena as irmãs Lena, interpretada por Débora, e Beth, vivida por Ana Lúcia. Longe de representarem vovós complacentes de clichês televisivos, a dinâmica das duas é puro veneno: Lena surge impetuosa, arisca e imprevisível, enquanto Beth tenta equilibrar a balança com uma doçura calculada e pitacos milimetricamente desenhados para desestabilizar o status quo.
Encontrá-las dividindo o timing cômico é um evento quase enciclopédico para a nossa antologia da atuação nacional. Como se o banquete cênico não bastasse, o condomínio ganha ainda o reforço magnético de Vera Fischer em seu retorno às telas como Tatiana, uma artista plástica de temperamento indomável que alimenta uma paixão platônica pelo zelador. Cercadas por tipos problemáticos defendidos por Betty Gofman, Thati Lopes e George Sauma, são as personagens de Ana Lúcia e Débora que sustentam a espinha moral, ou a falta dela, das relações de vizinhança.
O Zelador promete ser um espelho contundente, transgressor e oportuno da nossa própria hipocrisia social. E ver Ana Lúcia Torre e Débora Duarte destilando ironia com a elegância de quem toma o chá da tarde não é apenas informativo; é um deleite estético necessário. Finalmente, os refreshments para a inteligência nacional.
 

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