Por Fernanda Piacentini
| The Exposed Brasil
23 de outubro de 2026
A política brasileira há muito convive com a arte da elipse — a habilidade de contornar o óbvio para não encarar as respostas. Mas no caso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o artifício atingiu um patamar quase caricatural. Descendente político direto do bolsonarismo raiz, Flávio tenta vestir o figurino do político “articulado”, mas se apoia em uma cartilha rudimentar: a dos antigos sofistas da Grécia antiga, adaptada para a era das redes sociais e do entretenimento de baixa qualidade.
Na prática, o método do parlamentar diante de questionamentos espinhosos é previsível e protocolar. Em vez de debater fatos, opta pela evasiva pura e simples. A tática se resume a devolver pergunta com pergunta, jamais entregar uma resposta substantiva e, para coroar a cena, estampar no rosto aquele sorrisinho impassível, quase monalísico, calculated milimetricamente para inflamar a base digital e irritar o contraditório. O grande problema desse cenário e desse tipo de debate é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acabou levando a sério uma performance pensada unicamente para a provocação.
Não há profundidade analítica na retórica de Flávio; há apenas teatro. É uma performance obtusa, cafona e deselegante que reduz o debate público a um ringue de memes. Ao apostar no eterno “pão e circo”, o senador abdica do dever republicano da transparência para entregar aos seus seguidores um simulacro de vitória discursiva — afinal, para a liturgia do clã, o que importa não é a verdade dos fatos, mas o barulho gerado pela provocação.
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