Prévia: A dependência do Brasil em relação a fertilizantes importados voltou a ser um tema crítico para o agronegócio. As tensões geopolíticas recentes têm pressionado os custos de produção e levantado preocupações sobre a segurança do abastecimento.
A dependência brasileira de fertilizantes importados é um assunto que voltou a ganhar destaque no agronegócio. As tensões geopolíticas internacionais, especialmente relacionadas ao fornecimento de insumos, reacenderam os alertas sobre a segurança do abastecimento e o impacto nos custos de produção. Essa questão foi amplamente discutida durante o Fórum Mais Milho, promovido pela Abramilho, que reuniu representantes do setor produtivo, governo e indústria.
O diagnóstico apresentado no evento indica que a redução da vulnerabilidade do Brasil requer uma estratégia abrangente. Isso inclui a combinação de produção nacional de fertilizantes, diversificação de fornecedores, melhorias na infraestrutura e a adoção de tecnologias que aumentem a produtividade. A situação atual exige uma abordagem multifacetada para garantir a segurança alimentar e a competitividade do setor.
Dependência externa e suas consequências
Maciel Silva, diretor-técnico adjunto da CNA, destacou que a crise provocada pela guerra entre Rússia e Ucrânia evidenciou a fragilidade da dependência brasileira de insumos importados. Durante esse período, os fertilizantes importados representaram cerca de 92% do consumo nacional, expondo o Brasil a oscilações no mercado internacional.
Atualmente, as tensões na região do Golfo estão novamente gerando preocupações, especialmente em relação ao mercado de nitrogenados. A região é crucial para o fornecimento de gás natural, matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes nitrogenados. Qualquer interrupção nesse fluxo pode resultar em aumento de custos e na escassez de insumos.
Pressão nos preços dos fertilizantes
A valorização da ureia tem gerado preocupações adicionais no mercado de fertilizantes. Os preços estão se aproximando dos níveis observados em 2022, quando a guerra na Europa provocou uma ruptura significativa no mercado. Essa pressão não se limita apenas à ureia, mas também afeta os fertilizantes fosfatados, que enfrentam desafios devido à disponibilidade de enxofre, um insumo crucial para a produção de ácido sulfúrico.
Com cerca de 80% do ácido sulfúrico utilizado na fabricação de fertilizantes fosfatados, a redução na disponibilidade de enxofre pode elevar os custos ao longo de toda a cadeia produtiva. Essa situação exige atenção redobrada dos produtores e formuladores de políticas para mitigar os impactos.
Expectativas para o curto prazo
Apesar das preocupações com preços e oferta, especialistas do setor acreditam que não haverá falta generalizada de fertilizantes no Brasil no curto prazo. A dinâmica de importação, que concentra cerca de 60% da internalização de fertilizantes nitrogenados entre agosto e setembro, contribui para essa expectativa. No entanto, para 2026, projeta-se uma redução significativa nas importações de fosfatados.
A mudança no perfil dos fornecedores internacionais também é um fator a ser considerado. A China, que aumentou sua participação no fornecimento de fertilizantes, está perdendo espaço em 2026, enquanto países como Turcomenistão e Nigéria estão se tornando mais relevantes no mercado global.
Desafios e oportunidades para a produção nacional
A ampliação da produção de fertilizantes no Brasil é uma alternativa viável para reduzir a dependência externa. Contudo, a competitividade da indústria nacional deve ser avaliada antes de substituir importações. Fatores como custo de energia, legislação trabalhista e infraestrutura impactam diretamente na viabilidade econômica da produção interna.
A logística é outro desafio significativo. A redução da malha ferroviária no Brasil, que caiu de 36 mil para menos de 10 mil quilômetros, aumenta os custos de transporte e a dependência do modal rodoviário. Uma infraestrutura mais eficiente poderia beneficiar tanto a chegada de insumos quanto o escoamento da produção agrícola.
Inovação e tecnologia como soluções
O uso de bioinsumos e tecnologias biológicas está em ascensão como uma alternativa para reduzir a dependência de fertilizantes importados. A fixação biológica de nitrogênio, por exemplo, já demonstrou potencial para reduzir a necessidade de fertilizantes nitrogenados em até um terço em algumas situações. Essa tendência pode diversificar as fontes de nutrientes e diminuir a dependência de produtos químicos.
Além disso, a adoção de novas tecnologias é crucial para aumentar a produtividade e melhorar a rentabilidade dos produtores. O uso integrado de genética, biotecnologia e soluções digitais pode elevar os tetos produtivos, como evidenciado por áreas que alcançaram 328 sacas de milho por hectare.
Por fim, a questão do crédito e das taxas de juros também influencia a capacidade de investimento dos produtores. A redução das taxas no Plano Safra é um passo positivo, mas a falta de informação sobre as opções disponíveis pode limitar o acesso aos recursos necessários para a modernização e expansão das atividades agrícolas.
O agronegócio brasileiro enfrenta um cenário desafiador, onde a dependência de fertilizantes importados é apenas uma parte de um problema mais amplo de competitividade. A construção de uma estratégia de longo prazo que envolva produção nacional, diversificação de fornecedores, inovação e aumento da produtividade será fundamental para garantir a sustentabilidade do setor no futuro.











