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Fernanda Lima: "Ninguém pode dizer que envelhecer é fácil, mas estou com tesão pela vida"


Reinvenção foi uma palavra que atravessou a apresentadora Fernanda Lima nos últimos anos. “Ninguém pode dizer que envelhecer é fácil: ver seu corpo mudar, as rugas surgirem, a preocupação com a saúde aumentar. Mas cada fase tem a sua maneira de ser vivida. Estou mais madura, respeitosa comigo mesma e com tesão pela vida, pelo que eu faço e pelas pessoas ao meu redor”, explica. Por quase dez anos, ela levou para a casa dos brasileiros informações importantes sobre sexo, relacionamento, cultura LGBTQIA+ e papéis de gênero com leveza, sem vergonha e sem censura no programa Amor & Sexo, da TV Globo. A atração, que esteve no ar até 2018, teve 11 temporadas e bateu recordes de audiência ao abordar temas que não eram discutidos na TV aberta. Prestes a completar 49 anos em junho, ela assume novamente seu papel como referência no diálogo sobre sexualidade, mas, desta vez, como voz ativa nos debates sobre as vivências femininas na maturidade.
Depoimentos de suas próprias experiências invadiram a internet, viraram manchetes em jornais e revistas e tópicos de discussão em rodas de amigas. Das reflexões sobre como lidar com o envelhecimento à sua honestidade sobre as transformações na vida sexual e a perda de libido com a chegada do climatério, ela ajudou a fomentar conversas que ainda são consideradas tabu. “A saúde feminina, historicamente, sempre foi preterida. A medicina estudou o corpo humano a partir dos homens. Não é à toa que temas ligados às mulheres ainda são pouco discutidos”, pontua Fernanda. “Quando tive os primeiros sintomas da menopausa, comecei a me informar e percebi que havia uma falta de conhecimento geral, era um momento em que ainda não estava em voga conversar sobre isso. Então, pensei: ‘Preciso falar’. Estava descobrindo tantas coisas com as minhas pesquisas e queria ajudar a acabar com mal-entendidos”, conta a apresentadora, que materializou seus aprendizados no podcast Zen Vergonha, lançado em 2024. “Foi muito significativo para mim, como um filho que gerei enquanto me reencontrava. Foi também uma forma de me reinventar na comunicação”, explica sobre o projeto, que atualmente está na sétima temporada.
Fernanda Lima usa Gucci na capa digital da Vogue abril
Bruna Castanheira/ Vogue Brasil
Mais sobre Sua Idade
Mais de um ano se passou até Fernanda decidir seguir pelo tratamento da reposição hormonal. “Tinha medo, encontrava muitas desinformações sobre os riscos. Entrevistei quase 20 médicos para o programa e pesei os prós e contras. Voltei a me sentir eu mesma depois que comecei”, conta. Com os sintomas amenos e a energia de volta, ela passou a encarar a menopausa como uma metamorfose: “Você se dá conta de que está entrando em um processo de envelhecimento. Mas também entendi que não tinha que sentar em uma cadeira de balanço e fazer tricô. Precisava me priorizar: corpo, mente e espírito. O silêncio foi muito importante nesse processo”. Foi em meio à natureza, no sítio da família no interior de São Paulo, que Fernanda buscou refúgio. “Os 50 já estão na porta, mas, aos 60, eu e o Rodrigo [Hilbert] queremos mudar para lá”, brinca sobre os planos com o marido. É do espaço que ela falou com a Vogue. “Temos passado quase todos os finais de semana aqui. Plantamos, colhemos ovos, arrumamos o que está quebrado. Agora mesmo estava cuidando das galinhas”, diz enquanto mostra a aconchegante casa com paredes de madeira. “Quando estou no sítio, acordo cedo, faço ioga, jogo vôlei, tomo o meu banho de floresta. Passo horas caminhando na mata, abro as trilhas com facão e nado na cachoeira. A vida parece mais possível, ver o ciclo da natureza é maravilhoso.”
Fernanda Lima usa Gucci na capa digital da Vogue abril
Bruna Castanheira/ Vogue Brasil
A chegada à menopausa se misturou a outro momento importante na vida da apresentadora, o nascimento de sua filha caçula, Maria Manoela. “Mal sabia eu que daria à luz aos 42 anos e, apenas três anos depois, já começaria a sentir os sinais da perimenopausa. Ainda tinha resquícios do puerpério quando isso aconteceu”, lembra ela, que também é mãe dos gêmeos Francisco e João, que acabam de completar 18 anos. “Foi estranho. Senti medo, desamparo, insegurança. Foi uma mistura de sentimentos, eu quase não estava dormindo por cuidar de um bebê de colo e, então, comecei a ter insônia crônica com a menopausa. Entendi que estava tudo bem pedir ajuda e assumir que talvez, naquele momento, eu não precisava dar conta de tudo. É um alívio que a maturidade traz de poder admitir isso. Nessa fase, por exemplo, eu virei para o Rodrigo e falei que não conseguia mais cuidar da Maria à noite, porque precisava melhorar o meu sono ou iria enlouquecer. Ele então assumiu os cuidados noturnos. Eu colocava para dormir, mas, se ela acordasse ao longo da madrugada, era ele quem levantava.”
Juntos há mais de duas décadas, Fernanda e o apresentador Rodrigo Hilbert encaram constantemente a fama de casal-modelo. “Ah, se existisse uma receita de bolo para fazer uma relação dar certo…”, brinca. Para ela, na individualidade do seu relacionamento, foram as conversas honestas que ajudaram a construir uma base sólida. Do nascimento e criação de três filhos, diferentes momentos de carreira, mudanças para os Estados Unidos, Portugal, São Paulo e evoluções internas de cada um, a admiração e os desejos em comum uniram o casal ao longo dos anos. “Temos a vontade de ser velhos juntos, e acho que isso já diz muito. É uma parceria que vai além de marido e mulher. Lá em casa, falamos sobre tudo”, diz.
A queda da libido é um dos sintomas mais comuns durante o climatério – cerca de 60% das mulheres relatam redução do desejo sexual nessa fase, segundo estudo recente publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. Fernanda se juntou a esse número. “Me ausentei um pouco, Rodrigo me acolheu e nos unimos ainda mais. Ele foi a primeira pessoa a quem contei sobre a menopausa depois que voltei do médico. Em relação à libido, não é que ela acaba, mas fica diferente. São outros tempos, outras maneiras de despertá-la. Se torna mais sobre como você vive com aquela pessoa. Somos muito carinhosos, não existe acordar de manhã sem se abraçar e dar um beijo, tomar café juntos ou almoçar quando possível. Isso ajuda a deixar o dia a dia mais amoroso e até sexy.” Mais do que sobre sexo, a apresentadora entende o erotismo com amplitude: “Hoje, vivo isso para além da sedução em si. Está em explorar a capacidade intelectual, ter uma vida ativa, viajar sozinha, fazer novos amigos. Elevar meu repertório me torna interessante, me sinto segura. E daí não tem como isso não transparecer, vai para as outras esferas, inclusive a sexual”.
Em um momento em que nunca se falou tanto sobre a criação de garotos, com o crescimento do movimento red pill, que usa o alcance das redes sociais para espalhar mensagens misóginas e violentas contra as mulheres, Fernanda se preocupa com o tema não só pelos seus próprios filhos, mas também para o mundo que quer deixar de legado para a sua filha e para as outras mulheres. “O grande desafio é fazer esses meninos entenderem que quanto mais vulneráveis, sensíveis e honestos eles forem, melhores homens eles serão. Eu sei que é difícil falar que nós, mulheres, temos que ensinar os homens como se comportar. Mas é preciso mostrar que não dá para seguir nessa violência, que não iremos tolerar.”
Fernanda Lima usa Gucci na capa digital da Vogue abril
Bruna Castanheira/ Vogue Brasil
Revistas É também para nutrir uma sociedade mais acolhedora para as mulheres (sejam as jovens, que um dia vão envelhecer, ou para as que já vivem a maturidade), que Fernanda decidiu usar sua ferramenta mais poderosa para levantar debates que sente necessários. “Quando uma pessoa é pública, ela tem o direito de usar esse espaço como quiser. Para mim, sempre foi muito claro que, se não for para algo útil, talvez nem redes sociais eu tivesse”, explica. “Quero falar de assuntos que acho importantes”. A cobrança estética, por exemplo, é um deles. “Ela existe e sabemos que é pior para a mulher. Também me sinto dentro dessa cobrança, parece que nunca fazemos o suficiente. Comecei minha carreira como modelo, então sei o que significa a nossa imagem. Tento dimensionar esses pensamentos para que não se tornem sofrimento, porque envelhecer tem que ser gostoso. Vão aparecer rugas, a pele vai ficar diferente, o corpo vai mudar. Sou vaidosa, faço procedimentos estéticos como lasers e bioestimuladores, mas miro um envelhecer natural. Cheguei em um lugar de aceitação, de entender que a maturidade tem a sua beleza.”
Se para alguns o passar do tempo assusta por nos aproximar da finitude da vida ou nos fazer encarar as escolhas que fizemos ao longo dos anos, esse não é o caso de Fernanda. “Depois que perdi meus pais, vi que a próxima geração sou eu e a vida é o agora. Cuido muito da minha saúde, faço todos os exames. No ano passado, fiz meu testamento. Quero deixar tudo certo para não dar trabalho para ninguém quando for embora. Sei que está longe, mas fico em paz com isso. Sou muito realizada com tudo o que eu conquistei e com o que sei que ainda está por vir.”
Créditos
FOTO: Bruna Castanheira.
DIREÇÃO DE ARTE: Julia Filgueiras.
ASSISTENTES DE FOTO: Bia Garbieri e Guilherme Vaz Guimarães.
STYLING: Fred Rocha.
ASSISTENTES DE STYLING: Lúcia Souza.
CAMAREIRA: Nádia Martins.
BELEZA: Silvio Giorgio com os produtos Dior Beauty e Keune.
ASSISTENTE DE BELEZA: Julia Boeno.
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Iris Carneiro.
TRATAMENTO DE IMAGEM: Philipe Mortosa.
AGRADECIMENTOS: Jardim Botânico São Paulo