ELO HORIZONTE – A trajetória que levou o pastor André Valadão à presidência da Igreja Batista da Lagoinha — um império religioso nascido em Minas Gerais — está sob escrutínio não apenas da justiça, mas da própria congregação. Enquanto a Polícia Federal apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo a fintech Clava Forte Bank e repasses de R$ 3,9 milhões do Banco Master, documentos e relatos internos revelam que a chegada de André ao topo da hierarquia ocorreu por meio de uma manobra administrativa que ignorou o regimento da instituição e rachou a família mais influente do meio evangélico brasileiro.
A Ascensão: O “Golpe” Administrativo
Diferente de uma empresa privada, a Lagoinha é regida por um estatuto que prevê a sucessão pelo vice-presidente em caso de vacância. Em 2023, ao se despedir do púlpito, o pastor Márcio Valadão entregou simbolicamente o legado ao pastor Flavinho, vice-presidente e nome de confiança da congregação há anos.
Entretanto, André Valadão, que liderava a unidade de Orlando (EUA), operou uma mudança estrutural em 2024. Ao criar a marca “Lagoinha Global”, ele se autointitulou presidente dessa nova esfera superior, alegando que o cargo o colocava acima da presidência nacional. A manobra anulou a sucessão de Flavinho e centralizou o poder nas mãos de André, o que provocou o rompimento imediato de suas irmãs, Ana Paula e Mariana Valadão, que cortaram relações com o irmão.
Paredes Pretas e Sinais de Poder
O comportamento de “dono” da instituição já era notado antes da posse oficial. Durante uma viagem de Márcio Valadão, André ordenou a pintura da sede da igreja em preto — uma estética moderna que chocou a ala conservadora e foi interpretada como uma marca de território. “Ele já se mostrava detentor da direção antes mesmo de qualquer papel assinado”, afirma um membro da congregação que prefere não se identificar.
O Cerco do Coaf e a Conexão Master
A gestão “Global” de André agora enfrenta seu maior teste técnico. Relatórios do Coaf identificaram movimentações atípicas de R$ 3,9 milhões entre o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e uma produtora ligada à igreja.
A investigação da PF aponta que:
• Fintech Fantasma: A Clava Forte Bank, idealizada por André, operava no mesmo endereço da sede da Lagoinha e teve o CNPJ suspenso sob suspeita de movimentar recursos ilícitos.
• Operador Preso: Fabiano Zettel, ex-pastor da denominação e ligado ao grupo Master, foi preso após a detecção de movimentações de R$ 100 milhões incompatíveis com seu patrimônio.
• Púlpito de Negócios: Há indícios de que o pastor utilizava momentos de pregação para converter fiéis em clientes de serviços financeiros, incluindo o Banco BMG e o próprio Clava Forte.
A Defesa
Em declarações recentes, André Valadão negou qualquer envolvimento em crimes. Embora tenha pedido perdão aos fiéis pelo uso do nome da igreja em transações que geraram o escândalo, ele mantém que a “Lagoinha Global” é uma entidade separada e que as acusações são fruto de perseguição política. O caso segue sob análise da CPMI do INSS e da Polícia Federal, com novos depoimentos previstos para o próximo mês.
Ficha Técnica da Investigação:
• Órgãos envolvidos: PF, Coaf e Receita Federal.
• Valor sob suspeita direta: R$ 3,9 milhões.
• Ponto central: Manobra estatutária para criação da presidência “Global”.https://youtu.be/I-eVFTuBQTc?si=163NtyK_OczsUaCH














