Cuba acusou, nesta quinta-feira 9, os Estados Unidos de “extorquir” países da América Latina e do Caribe para que cancelem seus acordos de cooperação médica com Havana, a fim de “asfixiar” a economia da ilha.
O envio das brigadas médicas ao exterior constitui a principal fonte de receita do governo comunista, com 7 bilhões de dólares em 2025 (aproximadamente 38,5 bilhões de reaus, em cotação da época), segundo números oficiais. No ano passado, cerca de 24.000 médicos e outros profissionais cubanos de saúde trabalhavam em 56 países.
Mas, nos últimos meses, Guatemala, Honduras, Jamaica e Guiana encerraram esses acordos, que, em alguns casos, permitiram o envio de pessoal de saúde cubano por mais de 25 anos.
“O governo dos EUA está perseguindo, pressionando e extorquindo outros governos para que encerrem a presença das Brigadas Médicas Cubanas em diversos países, sob pretextos falsos”, declarou no X o chanceler cubano Bruno Rodríguez.
O chefe da diplomacia cubana destacou que “os objetivos do governo americano e a campanha diplomático-midiática que desenvolve são continuar cercando a economia cubana e cortar fontes de receita legítimas para asfixiar o povo de Cuba”.
O governo do presidente Donald Trump aplica uma política de “pressão máxima” contra Cuba, que impede as exportações de petróleo para a ilha depois que forças americanas derrubaram, no início de janeiro, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, até então o maior aliado de Havana, e ameaça com sanções os países que enviarem petróleo bruto para Cuba.
Essa medida aprofundou a crise econômica e energética em Cuba, que sofre frequentes e prolongados apagões. Na semana passada, Trump abriu uma exceção ao permitir que um petroleiro russo entregasse 730 mil barris de petróleo bruto à ilha, o primeiro carregamento que chegou ao país em três meses.
O republicano não esconde seu desejo de uma mudança de regime em Cuba, situada a apenas 150 quilômetros dos Estados Unidos. Segundo Washington, a ilha representa uma “ameaça excepcional” por suas estreitas relações com a Rússia, a China e o Irã.
“Trabalho forçado”
Rodríguez se pronunciou depois que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) publicou na terça-feira um relatório que denuncia graves violações de direitos humanos nas missões médicas internacionais de Cuba, como retenções salariais dos participantes, ameaças de penas de prisão de até oito anos para quem as abandonar e confisco de passaportes.
Em entrevista à AFP, o presidente da CIDH, Edgar Stuardo Ralón, afirmou que existem elementos para qualificar como “trabalho forçado” e “tráfico humano” várias práticas realizadas nesse programa.
“É uma situação de desamparo dramática que ignora o conceito de trabalho e tratamento dignos, como se [os participantes] fossem tratados de maneira totalmente abusiva, obrigados a seguir regras, transformados em entes que não possuem o mínimo inerente a qualquer pessoa”, acrescentou Ralón.
Segundo estatísticas oficiais cubanas citadas no relatório da CIDH, os profissionais da ilha recebem apenas entre 2,5% e 25% do que os países receptores pagam a Cuba pelos serviços médicos.
Como consequência, o pessoal envolvido “não disporia de uma remuneração que lhes permita subsistir dignamente” nem “cobrir os custos básicos de vida”, aponta a Comissão.
O chanceler cubano insistiu que as brigadas médicas de seu país “desempenham tarefas solidárias em locais de difícil acesso; ajudam no desenvolvimento de sistemas de saúde com recursos humanos experientes; e seu pessoal é contratado de forma voluntária, legal e soberana”, de acordo com normas internacionais.
Em meio ao aumento das tensões entre Cuba e Estados Unidos, os dois países mantêm um diálogo que está em um estágio “muito preliminar”, disse na segunda-feira à AFP a vice-chanceler cubana Josefina Vidal, figura-chave na restauração das relações bilaterais em 2015.














