Revisitar um universo vinte anos depois costuma despertar dúvidas, sobretudo em um mercado cada vez mais empenhado em lucrar com nostalgia. Felizmente, “O Diabo Veste Prada 2” não é só mais uma criação dessa lógica. A produção reúne novamente os elementos centrais do sucesso de 2006 (elenco principal, direção e roteiro), evitando repetir a fórmula do primeiro filme e encontrando uma justificativa real para existir.
Para isso, a obra busca evoluir a narrativa, deixando de acompanhar alguém sendo absorvido por um mundo inalcançável para, agora, observar o que restou desse mesmo mundo depois de tantas mudanças. O jornalismo e a moda já não operam da mesma forma, e a sequência constrói um diagnóstico melancólico dessa realidade ao observar como seus personagens lidam com essas transformações.
A autoridade incontestável da revista Runway sofreu uma grande erosão por conta da convergência digital e da perda de relevância da mídia impressa. Nesse contexto, Miranda Priestly (Meryl Streep) passa por uma reconfiguração, e sua posição de poder imbatível dá lugar a alguém que foi obrigada a ceder para se manter relevante. Há momentos em que ela hesita, escuta, evita se impor e até mesmo recua, gestos até então impensáveis. Streep é extremamente precisa no controle de cena, deixando escapar sinais de irritação contida diante de um mundo que já não responde ao seu domínio. Ao mesmo tempo, esse novo momento nos coloca mais próximos da personagem, revelando anseios e momentos de empolgação que a proposta do primeiro filme não nos permitia presenciar.
Andy Sachs (Anne Hathaway) também evoluiu. A observadora deslocada que aos poucos abraça aquele mundo agora é uma jornalista com carreira premiada, trazida novamente ao universo da moda para exercer uma nova função. Após Miranda passar por um cancelamento que abalou a confiança na Runway, Andy é contratada para recuperar a credibilidade da revista. No primeiro filme, seu desejo sempre esteve no jornalismo, e a sequência retoma esse ponto. Mas ela descobre que a realidade atual é bem mais difícil, agora que precisa não apenas fazer um bom trabalho, mas entender o público fragmentado do digital para atingir resultados que justifiquem sua permanência. Hathaway se destaca ao equilibrar a desilusão com o momento que o jornalismo vive com uma constante esperança de que fazer a coisa certa dará frutos.
Emily Blunt e Stanley Tucci completam o elenco principal com presenças que reforçam a sensação de continuidade. Não há esforço necessário para recriar os papéis, é como se eles simplesmente seguissem existindo. Essa familiaridade ajuda a sustentar o filme nos momentos em que o roteiro se dispersa, especialmente quando o conflito é levado para outro lado. Para isso, também é de grande importância o retorno do diretor David Frankel e da roteirista Aline Brosh McKenna, que demonstram domínio sobre os personagens e entendimento preciso do contexto em que estão inseridos.
Na metade final, o longa deixa um pouco de lado esse foco na transformação da indústria para destacar desfiles, figurinos e os elementos mais reconhecíveis do primeiro filme. Nesse momento, alguns conflitos aparentemente complexos são resolvidos com a facilidade de alguns telefonemas. Além disso, algumas ideias acabam subdesenvolvidas, como um arco importante envolvendo Emily que poderia redefinir as relações entre as personagens, mas que o roteiro parece hesitar diante da própria ideia, tudo em prol do final feliz. Soma-se a isso um relacionamento romântico que pouco acrescenta ao desenvolvimento de Andy.
O grande mérito de “O Diabo Veste Prada 2″ está na recusa em reviver o passado icônico para observar como esse passado reage ao presente. A nostalgia está ali, mas não é o único elemento em jogo. Os personagens são reposicionados em novas situações, e ainda é prazeroso vê-los em cena, mostrando que, mesmo diante de um mundo em constante mudança, certas presenças continuam sendo impossíveis de ignorar.




