Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Crítica | Nuremberg (2026): quando falta coragem

“Nuremberg” tem certo mérito pela sua premissa de observar os julgamentos

“Nuremberg” tem certo mérito pela sua premissa de observar os julgamentos do pós-Segunda Guerra Mundial como um embate psicológico entre os vencedores e os derrotados. A escolha de acompanhar a relação entre o psicólogo Douglas Kelley (Rami Malek) e Hermann Göring (Russell Crowe) sugere um filme interessado em investigar como figuras centrais do regime nazista se viam e, acima de tudo, justificavam suas ações. Porém, ao dividir sua atenção com a reconstrução jurídica do evento, a obra se fragmenta entre duas narrativas que coexistem sem se fortalecerem mutuamente.

Russell Crowe constrói um personagem igualmente cordial e ameaçador, consciente do poder que ainda exerce mesmo derrotado. Já o Kelley de Malek se mostra um homem constantemente à beira do desconforto, alguém que observa mais do que compreende. Essa escolha funciona em certos momentos, especialmente quando o personagem se mostra incapaz de lidar com o que escuta, mas também o torna por vezes irritante, dificultando a conexão emocional com sua trajetória.

Do outro lado, o filme acompanha os esforços políticos e jurídicos para viabilizar os julgamentos, com Robert Jackson (Michael Shannon) assumindo a função de organizar o processo. Contudo, essas sequências não dispõem da energia e da urgência que o contexto exige, e os debates no tribunal sofrem para alcançar algum peso dramático. Essa divisão estrutural acaba impedindo que o filme aprofunde qualquer uma de suas propostas.

A obra inicia com ritmo acelerado, prometendo entregar um estudo de personagem centrado na figura de Göring e na tentativa de compreendê-lo. Aos poucos, as escolhas de James Vanderbilt reduzem o filme a uma narrativa bastante convencional. O diretor e roteirista abdica dos assuntos mais desconfortáveis em favor de uma abordagem segura, que simplifica questões complexas e recorre a uma perspectiva excessivamente alinhada à visão heroica dos Aliados. Há uma intenção clara de conduzir a história de Kelley a um momento de redenção. Só que essa virada surge muito mais por exigência de roteiro do que uma consequência real do arco do personagem.

Quando imagens reais dos campos de concentração surgem na tela, “Nuremberg” encontra, ainda que brevemente, uma dimensão de impacto que até então parecia ausente. Ainda que soe apelativo, é funcional para mostrar que não existe possibilidade de mediação diante daquele registro. O silêncio que se impõe — tanto nos personagens quanto no espectador — carrega uma força que contrasta diretamente com o restante da obra. É um instante em que o filme deixa de explicar e passa a confrontar.

Infelizmente, essa intensidade não se sustenta. Os conflitos são resolvidos com previsibilidade e os personagens permanecem presos a funções narrativas. Essa incapacidade de aprofundar suas próprias ideias impede que o filme alcance o peso histórico e emocional que busca. A sensação que fica é a de um filme que reúne elementos suficientes para ser mais complexo, mas que opta por uma construção bem menos incômoda do que deveria.

0 votos: 0 positivos, 0 negativos (0 pontos)

Deixe uma resposta