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Crítica | A Noiva! (2026): um grito exuberante e caótico que não quer ouvir

“A Noiva!” usa diversos signos para mostrar diferentes camadas de opressões

A Noiva!” usa diversos signos para mostrar diferentes camadas de opressões impostas por uma sociedade machista e o despertar de uma mulher que, depois de morta e ressuscitada, ainda luta para se desprender dessas amarras. O próprio título sem complemento (“noiva de…”) propõe uma libertação da personagem, que entende que não pertence a ninguém além dela mesma. A ressurreição aqui simboliza a possibilidade de uma mulher existir fora das expectativas impostas a ela.

A forma frenética e violenta como a diretora Maggie Gyllenhaal constrói a narrativa reflete um misto entre o cansaço de quem tanto já sofreu com a catarse de quem finalmente se sente livre. O longa é, de fato, bem violento, mas nada é mostrado de forma fetichista. Pelo contrário, as ações causam impacto que visivelmente reverberam na protagonista. A encenação assume um ritmo mais agressivo, com a câmera se movendo com urgência, tendo dificuldade de enquadrar a personagem.

Algumas sequências de cunho feminista são mais sutis, enquanto outras se mostram bem literais, como a subtrama da investigadora Myrna Malloy (Penélope Cruz). Trata-se de mais um retrato do clichê da profissional que, em um meio predominantemente masculino, é deixada de lado apesar de muito mais qualificada. Essa parte do filme visivelmente não tem a mesma força que o restante, sentimento que cresce à medida que ganha mais importância e tempo de tela.

Jessie Buckley brilha dando vida não só às diferentes personas (Ida, Penny, a Noiva…), como também à própria Mary Shelley. A escritora, “aprisionada” em uma espécie de limbo, funciona como um Id em constante diálogo com a protagonista, chegando por vezes a possuí-la de fato e provocando-a a confrontar desejos e ressentimentos que antes permaneciam reprimidos. Já Christian Bale é um ótimo complemento. A solidão profunda do monstro ainda é o motor da trama, mas o personagem provê uma leveza bem-vinda ao tom da história. Por viver tão deslocado dessa sociedade cruel, ele é capaz de seguir sua amada na busca pela sua própria identidade — ainda que em alguns momentos também tente lhe impor limites.

Depois de uma grandiosa sequência envolvendo um número de dança seguido por um discurso inflamado da Noiva, o filme perde um pouco de força. As sequências de conotação feminista se repetem de formas ainda mais didáticas, como se o público não fosse capaz de compreender o que não é desenhado para ele. Esse espaço poderia ser aproveitado com um aprofundamento maior, seja nos próprios conceitos (a revolução que se instaura a partir daí parece apressada e sem tanta substância), seja em valorizar mais a dinâmica entre os protagonistas, ponto realmente alto da obra. Gyllenhaal escolhe representar a voz feminina como um grito incessante que não aceita abrir espaço para conversa.

Apesar disso, o filme é visualmente intenso e estimulante, com a fotografia e o figurino construindo um mundo punk gótico noir repleto de referências clássicas e contemporâneas. Tudo resulta em um caos estético que dialoga com o processo interno da protagonista, que tenta reorganizar sua existência depois de uma vida moldada por expectativas alheias.

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