
No último dia 17 de abril de 2026 aconteceu um stellium, importante fenômeno astrológico de alinhamento de 7 astros em Áries inaugurando a lua nova no signo do princípio, da ação e da força criadora. Foi nesse dia de stellium que a artista TRANSÄLLIEN lançou AN✹MV☾RS☥ (podemos ler como anamverse), sua primeira grande exposição na galeria Abapirá, no centro do Rio de Janeiro. Não foi um acaso, foi uma escolha de uma artista multidisciplinar que tem a conexão com o cosmos como fundamento de sua expressão no mundo. Não à toa, tomou para si o conceito de alienígena como sufixo de sua alcunha artística. Quase como um recado implícito: “eu estou aqui, mas sou de além daqui”.
Essa suposta mensagem implícita de “ser de além daqui” é literalmente visível na maneira como Transällien se apresenta publicamente para o espaço público todo santo dia. Até numa ida fortuita à padaria. Ela não passa desapercebida, não há como não ser “provocada” pela linguagem proposta por sua aparição. Impacto, foi esse o substantivo que pensei para associar a sensação de ter visto Transällien pela primeira vez. Quase que uma sensação de epifania. E era. Certamente, alguém com uma indumentária e postura elegantes e ostentando uma máscara de babados plissados e cor vibrante destoa dos meros mortais que coabitavam aquele espaço que já não me lembro qual era. No entanto a aparição daquela persona foi memorável. Ainda mais depois de saber o nome que lhe vestia. Uma aglutinação improvável de duas palavras.
Falamos do sufixo, mas precisamos discorrer sobre a combinação com o radical que prefixona seu nome: “trans”. Quem é trans? A mascarada ou a pessoa por trás da máscara? É uma trans alienígena ou uma alienígena trans? Uma humanóide que reivindica uma transição para um ser extra-terrena? Transälien é uma provocação filosófica por si só. Há nela uma linguagem refinada pelas questões levantadas pela aparição de sua persona.
A palavra persona vem do latim e quer dizer literalmente máscara. Refere-se às máscaras do teatro greco-romano. Mais tarde Carl Jung usaria esse o conceito histórico da materialidade do artefato dramático para designar as identidades humanas possíveis a partir das produções de máscaras sociais. Quais máscaras eu utilizo para me apresentar ao mundo?
“AN✹MV☾RS☥” (podemos ler como anamverse)
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É certo que a construção de máscaras sociais faz parte de um processo necessário para nossa imposição em um mundo hostil, ou para uma adequação de nossa existência nos círculos que compomos compulsoriamente ou por escolha. Essas máscaras costumam ser subjetivas, mas há quem as materializa. Caso raro.
Quantas personas podem compor uma existência? Produzimos em nós mesmas círculos sociais subjetivos, os quais vão se apresentando a luz da ribalta quando convocados? Eis uma longa discussão. Pois bem, nessa discussão filosófica, a máscara não seria um artefato para esconder uma “identidade verdadeira” necessariamente, mas um artifício que traduz uma persona interna, a qual não é uma mentira, mas uma expressão que emerge inteira, das múltiplas que compõem um ser.
Transällien não veste uma máscara no espaço público por esconderijo, necessariamente, vai além da dicotomia do esconder/revelar-se. Ela propõe linguagem e mais do que isso, ela propõe uma nova cosmovisão. A persona ali é uma verdade que eclode de tantas outras por trás daquela “máscara-indumentária”. Falamos muita da forma, mas o conteúdo é tão inspirador e profundo quanto tudo aquilo que emerge para a superfície dos sentidos.
TRANSÄLLIEN
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Por isso lhes apresento Ana Giselle, batizada assim por Emanuel Sant, um irmão, por quem ela tem muita estima e fez questão de honrá-lo aqui, por tal feito. Ana Giselle é uma mulher trans/travesti preta vinda de Camaragibe, Pernambuco. Em 2015 no Recife ela teve a ideia poderosa de criar a lista TRANSFREE, que consiste em entrada gratuita à população trans/travesti que sem essa iniciativa não estaria em muitos eventos que transformam consciências e elevam nossa autoestima, além do direito à diversão, o direito inalienável a felicidade. Essa iniciativa espalhou-se pelo Brasil como política real em casas de show, festivais e baladas.
Ana Giselle vive hoje em São Paulo e aqui construiu uma rede poderosa de luta, pensamento e beleza, muita beleza. É interessante que, para ela, a política não está apartada de sua arte e espiritualidade, pois como nos ensina sabiamente o Cosmos, tudo está integrado, até mesmo o caos. A produção de consciência de ser uma mulher trans/travesti preta no Brasil e também uma nordestina em São Paulo atuando principalmente no elitizado mercado das artes visuais lhe conferiu outros prismas, lhe permitiu adentrar outros horizontes quase imperceptíveis para o senso comum. Digo isso atenta em não romantizar o percurso injusto das opressões que lhes atravessam.
Ana Giselle propõe abrir portais sensoriais. Ela é quase que uma sacerdotiza do intersensorial, da conexão do ser com seu lugar no Cosmos, relembrando sua humanidade. Não à toa ela aglutina em seu nome o que vem de dentro e o que vem de fora: A TRANSÄLLIEN. Quando tudo persona, sentidos, política, caos, espiritualidade é uma integração do mesmo lugar, o universo.
Exposição na galeria Abapirá, no centro do Rio de Janeiro.
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Tudo isso para convocar vocês para a primeira grande exposição de Ana Giselle: “AN✹MV☾RS☥ resulta da fusão entre anamnese e universe, configurando-se como um gesto de rearticulação da linguagem que propõe novas estruturas etimológicas, tipográficas e conceituais, voltadas à criação de sentidos e modos de existência.”
Serviço:
Título: Exposição AN✹MV☪︎RS☥
Artista: A TRANSÄLIEN
Curadora: Clarissa Diniz
Abertura: 17/04/2026 – 16h – 20h
Encerramento: 12/06/2026
Visitação – quarta à sábado 12-17h
Abapirá – Espaço independente de arte
www.abapira.art
@abapira_
Rua do Mercado, 45
Centro – Rio de Janeiro
Revistas Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.
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