Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

CINQUENTA ANOS DE VANGUARDA: FAFY SIQUEIRA DISSOLVE O ETARISMO COM RISO CÁUSTICO E CONSAGRAÇÃO NOS PALCOS PAULISTANOS E O CLAMOR URGENTE POR SEU RETORNO ÀS NOVELAS

Entre o deboche sagaz nos palcos paulistanos e a consagração de seu legado artístico, Fafy Siqueira prova que o tempo só refinou seu gênio cênico, tornando sua volta às grandes...

COLUNA DENILSON ANDRADE

Televisão, Arte, Cultura e Celebridades

Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2026

O MEIO SÉCULO DE FAFY SIQUEIRA: A MAESTRIA DO RISO INCORRUPTÍVEL NO CHOQUE ENTRE ÉPOCAS

É preciso certa audácia para envelhecer sob os refletores de um país cronicamente desmemoriado; é preciso gênio, contudo, para transformar esse processo em um manifesto estético vibrante. Fafy Siqueira, patrimônio vivo da nossa melhor tradição de gênio helênico pela magnitude diletante e pluralidade de suas faculdades cênicas (cantora por vocação pretérita, humorista por imperativo do destino e intérprete superdotada), celebra cinco décadas de uma trajetória absolutamente irretocável. O epicentro dessa efeméride não se dá em uma homenagem empoeirada ou em um tributo fúnebre em vida, mas sim no asfalto quente de São Paulo, onde ela incendeia a boca de cena com o espetáculo “Já Dizia Minha Vó!”, cuja estrondosa estreia ocorreu em 2 de agosto de 2026. A temporada paulistana segue em cartaz até o dia 25 de outubro de 2026, ocupando o proscênio pontualmente aos sábados, às 21h, e aos domingos, às 19h.
No Teatro UOL, localizado no efervescente Shopping Pátio Higienópolis, Fafy dá vida a Dona Irene, uma septuagenária de língua afiada, cuja altivez e recusa em aceitar o ostracismo do etarismo corporativo chocam-se, frontal e deliciosamente, com a inércia existencial de sua neta Gabriela, vivida pela arguta Rachel Gollassi, também idealizadora do projeto. Gabriela carrega o combo contemporâneo inescapável, composto por um diagnóstico tardio de TDAH, crises de ansiedade e o cativeiro afetivo de um relacionamento tóxico. Irene, por sua vez, carrega a urgência de quem não tem tempo a perder com o tédio existencial da juventude hiperconectada, decidida que está a reingressar no mercado de trabalho e subverter a invisibilidade sênior.
O texto de Tiago Luchi opera nessa fricção delicada. O que poderia facilmente degringolar para o melodrama assistencialista ou para a autoajuda gerontológica ganha contornos de uma ironia contundente e de uma vivacidade desconcertante. O discernimento analítico com que a direção de Isser Korik conduz o espetáculo permite que os temas mais áridos da nossa atualidade, tais como a volatilidade dos afetos digitais, a automedicação e o preconceito sistêmico contra o corpo que envelhece, sejam digeridos pela plateia através de um riso provocativo, quase catártico.
Essa vitalidade transbordante não passou despercebida pelas instituições paulistas. Em recente e concorrida cerimônia realizada no Espaço Cultural de Osasco, a classe artística reverenciou Fafy Siqueira na 13ª edição do Troféu Cultural do Estado de São Paulo, outorgado em meio à tradicional Feijoada Sebah Vieira. Laureada sob a insígnia máxima de Conjunto da Obra e Anos de Carreira, a atriz provou que o reconhecimento à sua inteligência cênica transcende as fronteiras do proscênio. O laurel endossa o momento áureo da intérprete, que emana no palco paulistano uma energia tão aristocrática quanto popular, sintonizada com os novos tempos e refratária a qualquer tentativa de silenciamento cronológico.
Aos produtores de elenco e diretores de teledramaturgia da TV Globo, fica aqui uma provocação estética urgente e imperativa. A recente adição ao catálogo do Globoplay das esquecidas, porém primorosas novelas “Quem É Você?” e “Hipertensão”, serve como um testemunho irrefutável do talento nato desta atriz. Mesmo em papéis coadjuvantes, como a inesquecível e folclórica fofoqueira Fifi de “Hipertensão”, Fafy obliterava o lugar-comum, imprimindo sua personalidade múltipla e uma assinatura artística indestrutível em suas criaturas de ficção. Diante de uma indústria que tantas vezes padece de falta de viço e repetição fastidiosa de tipos, clama-se pelo retorno imediato de Fafy Siqueira às novelas do horário nobre. Celebrar seus 50 anos de carreira com um papel de relevo na emissora carioca não é uma concessão nostálgica, mas sim um acerto de contas estratégico com a excelência interpretativa.
O espetáculo desmascara, sutilmente, a nossa própria hipocrisia social. Enquanto o mercado corporativo tenta rotular a experiência como excesso de qualificação, um eufemismo covarde para descartar os veteranos, Fafy prova que a vitalidade artística ignora certidões de nascimento. Diante de uma plateia visivelmente magnetizada, a atriz não levanta bandeiras panfletárias vazias; ela simplesmente entrega uma atuação brilhante, provando que o verdadeiro teatro é aquele que incomoda enquanto entretém, que é lúcido enquanto delira.
Ao atingir as bodas de ouro com o fazer artístico, Fafy Siqueira permanece o que sempre foi: maleável às transformações do tempo, porém eticamente incorruptível em sua essência disruptiva. “Já Dizia Minha Vó!” não é apenas um acerto de contas afetuoso entre o passado e o presente; é um monumento à permanência do talento. Uma peça contundente, oportuna e, acima de tudo, essencial para quem ainda acredita na inteligência como a forma mais refinada de entretenimento.

FICHA TÉCNICA

 
  • Texto: Tiago Luchi
  • Colaboração de Texto: Ruan Reis
  • Direção: Isser Korik
  • Diretor Assistente: Gil Teles
  • Elenco: Fafy Siqueira e Rachel Gollassi
  • Idealização: Gilberto Tadeu
  • Participação Especial: Genezio de Barros, Fernanda Lorenzoni e Anastácia Custódio
  • Cenografia e Figurinos: Marisa Rebollo
  • Desenho de Luz: Cesar Pivetti
  • Trilha Sonora: Wagner Bernardes
  • Direção de Produção: Maristela Bueno
  • Coordenação Administrativa: Art’ssi Produções e L Ponto Produções.

0 votos: 0 positivos, 0 negativos (0 pontos)

Deixe uma resposta