Previa: O mercado de café no Brasil enfrenta uma alta nos preços, impulsionada por fatores climáticos e a diminuição dos estoques. A colheita da safra 2026/27 avança, mas a qualidade dos grãos e a possibilidade de El Niño geram preocupações.
O cenário atual do mercado brasileiro de café é marcado por uma combinação de fatores climáticos adversos e restrições na oferta, mesmo com a colheita da safra 2026/27 em andamento. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) indicam que os preços do café arábica e robusta encerraram julho em alta, refletindo a valorização nas bolsas internacionais e a queda nos estoques certificados da Bolsa de Nova York (ICE Futures US).
Colheita do café entra na reta final, mas clima preocupa
A colheita do café arábica no Brasil se aproxima da conclusão, com cerca de 80% das áreas já colhidas. As atividades agora se concentram no recolhimento do café do chão e na colheita dos últimos talhões. Para o café robusta, a colheita está praticamente finalizada, mas os preços continuam em ascensão devido à menor produção nesta temporada e à valorização do arábica no mercado internacional.
Entretanto, o excesso de umidade causado pelas chuvas atrasou o ritmo das operações e levantou preocupações sobre a qualidade dos grãos. Muitos frutos permaneceram no solo por mais tempo, resultando em níveis elevados de umidade durante o beneficiamento.
Bolsa de Nova York reage à queda dos estoques certificados
No mercado internacional, o café arábica teve uma valorização significativa na ICE Futures US. O contrato com vencimento em setembro de 2026 subiu cerca de 0,7%, sendo negociado a aproximadamente 326,5 centavos de dólar por libra-peso. A principal razão para essa alta é a drástica redução dos estoques certificados na Bolsa de Nova York, que, em 4 de agosto, somavam apenas 253.343 sacas, o menor volume registrado em cerca de dois anos e meio.
Esse cenário de oferta limitada no curto prazo tem incentivado movimentos de cobertura de posições vendidas por fundos de investimento e especuladores, ampliando a valorização dos contratos futuros.
Chuvas atrasam oferta física e elevam preocupação com qualidade
Além da redução dos estoques internacionais, o mercado observa um atraso na entrada do café brasileiro no mercado. As chuvas registradas dificultaram não apenas a colheita, mas também as etapas de secagem e beneficiamento dos grãos, resultando em uma menor disponibilidade física no mercado.
Outro ponto de atenção é a possível perda de qualidade do café arábica, especialmente em áreas onde houve um elevado índice de frutos caídos no solo durante o período chuvoso.
El Niño já influencia expectativas para a safra 2027
O fenômeno El Niño começa a impactar as expectativas para a próxima safra. As chuvas fora de época favoreceram o surgimento de floradas precoces em algumas regiões produtoras, o que pode resultar em perdas de produtividade se não forem acompanhadas por condições climáticas adequadas nos próximos meses.
As incertezas climáticas geradas pelo El Niño aumentam a cautela dos agentes do mercado, uma vez que mudanças no regime de chuvas podem afetar tanto o Brasil quanto outros países produtores de café.
Mercado físico registra novas altas no Brasil
No mercado físico brasileiro, os preços acompanharam a valorização das bolsas internacionais. No Sul de Minas Gerais, o café arábica bebida boa passou a ser negociado entre R$ 1.790 e R$ 1.795 por saca. No Cerrado Mineiro, o arábica bebida dura atingiu R$ 1.810 a R$ 1.815 por saca.
Na Zona da Mata mineira, o café tipo Rio também apresentou valorização, com preços entre R$ 1.360 e R$ 1.365 por saca. O conilon capixaba seguiu a mesma tendência, sendo negociado em Vitória (ES) entre R$ 1.095 e R$ 1.100 por saca.
Apesar das altas, os negócios permanecem pontuais, com os produtores comercializando apenas volumes necessários e aguardando novos movimentos nas bolsas e no câmbio.
Dólar recua, mas preços continuam sustentados
Na quarta-feira, o dólar comercial operava em queda de cerca de 0,3%, cotado em torno de R$ 5,12. Mesmo com a valorização do real, o mercado de café continua sustentado pela combinação de oferta restrita, atraso na colheita, estoques internacionais reduzidos e incertezas climáticas para os próximos ciclos produtivos.
Os operadores também estão atentos à rolagem dos contratos futuros de setembro para dezembro e à proximidade do vencimento das opções da posição setembro, fatores que costumam aumentar a volatilidade nas negociações internacionais.
Perspectiva para o mercado de café
Os fundamentos permanecem positivos para o café no curto prazo. Embora a colheita brasileira esteja em fase final, a lentidão na chegada do produto ao mercado, a redução dos estoques certificados da ICE, os riscos associados ao El Niño e as dúvidas quanto à qualidade da safra mantêm um ambiente favorável para preços firmes.
Enquanto esses fatores persistirem, analistas acreditam que tanto o mercado físico brasileiro quanto as bolsas internacionais devem continuar a operar com elevada volatilidade, monitorando de perto a evolução do clima, do câmbio e da disponibilidade global da commodity.











