O ativista brasileiro Thiago Ávila, preso pelo Exército de Israel enquanto integrava a delegação da Global Sumud Flotilla, grupo que tenta levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza, está detido em uma cela solitária sem janelas e iniciou uma greve de fome após a captura, apurou CartaCapital com fontes da diplomacia brasileira e da família dele.
Ávila relatou ao Itamaraty ter sofrido agressões durante a abordagem, que o teriam levado a desmaiar. A agressão o deixou “muito machucado” e “cego temporariamente”, disse à reportagem um familiar, sob reserva. O ativista também teria sido amarrado, vendado e forçado a ficar deitado de bruços no chão desde sua apreensão.
Mensagens recentes enviadas à família indicam que ele foi atendido por um médico nesta segunda-feira 4 e permanece em isolamento. Ainda segundo esses relatos, investigadores israelenses teriam exibido imagens da rotina de sua esposa e de sua filha, de 2 anos, durante um interrogatório — episódio interpretado como tentativa de intimidação psicológica.
A veiculação dessas imagens motivou a reação de parlamentares da Frente em Defesa do Povo Palestino, que devem pedir à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal a abertura de uma investigação. O documento aponta indícios de coleta e uso indevido de dados pessoais em território brasileiro, com eventual dimensão transnacional, e solicita medidas urgentes de proteção à família do ativista, além da preservação de provas para esclarecer a origem das imagens e as circunstâncias em que foram utilizadas.
Além de Ávila, outros brasileiros — Amanda Coelho Marzall e Leandro Lanfredi de Andrade — também estavam na flotilha interceptada. A organização responsável pela missão afirma que mais de 200 pessoas foram capturadas durante a operação, realizada em águas internacionais — motivo pelo qual a entidade a classifica como “ilegal”.
Parte dos relatos indica que alguns ativistas seriam levados ao porto de Ashdod, em Israel, para posterior deportação. No caso de Ávila, porém, interlocutores afirmam que ele pode ser submetido a uma investigação sob acusação de terrorismo.
Neste domingo, Ávila compareceu a um tribunal em Ashkelon, onde foi submetido a um interrogatório. A Justiça prorrogou por dois dias a prisão dele e a do espanhol-palestino Saif Abu Keshek. Ambos são acusados por Israel de terem vínculos com uma organização sancionada pelos Estados Unidos, a Conferência Popular para os Palestinos no Exterior.
Em nota, os governos do Brasil e da Espanha condenaram o “sequestro” de seus cidadãos. “Esta ação flagrantemente ilegal das autoridades de Israel, fora de sua jurisdição, é uma afronta ao Direito Internacional, acionável em cortes internacionais, e configura delito em nossas respectivas jurisdições”, diz o comunicado, que exige o “retorno imediato” de Ávila e Abu Keshek aos seus respectivos países.




