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A Patente do Medo: Como um Tenente-Coronel transformou o comando em tribunal de abusos

Caso da soldado Gisele Santana revela rede de misoginia, assédio e

SÃO PAULO — O que separa o herói do carrasco? No dia 18 de fevereiro, no bairro do Brás, em São Paulo, essa linha foi rompida por um disparo. A morte da soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, inicialmente tratada como suicídio, revelou-se um feminicídio que expõe as vísceras de um sistema onde a hierarquia militar foi usada como ferramenta de tortura psicológica. O acusado é o seu marido, o Tenente-Coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, um oficial que, segundo investigações e relatos de subordinadas, geria o comando como um “tribunal de prazeres e punições”.

O ‘Provedor’ e a Violência Patrimonial

Documentos obtidos pela reportagem revelam que o crime foi o desfecho de um longo processo de anulação. Geraldo Neto operava sob uma lógica de posse: quantificava o valor do corpo da esposa em depósitos mensais de R$ 2 mil. Em mensagens de texto, ele cobrava “retribuição” em sexo pelo suporte financeiro.

— Casamento é uma via de mão dupla. Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo — escreveu o oficial em 2 de fevereiro.

Gisele resistia. “Não vou trocar sexo por moradia”, respondeu ela dias antes de morrer. A resistência da soldado gerou uma escalada de hipervigilância. Geraldo a proibia de usar maquiagem ou perfume em casa; chegava a borrifar a própria fragrância na farda da esposa, uma marcação territorial descrita por testemunhas como “doentia”.

Predador no Quartel

A investigação preliminar do 49º Batalhão aponta que Gisele não era a única vítima. O Tenente-Coronel é descrito por subordinadas como um “predador sistemático”. Uma policial, que teve a identidade preservada, relatou que o oficial a perseguia, oferecendo “liberdade” em sua sala particular com portas fechadas. Diante das negativas, ele utilizava o poder de comando para represálias, como transferências para unidades distantes da residência das vítimas.

— Ele se achava um Deus, um rei soberano — afirma uma testemunha protegida pelo Ministério Público.

A ‘Visita’ do Desembargador e a Fraude Processual

Um dos pontos mais sensíveis do caso envolve o Judiciário paulista. Câmeras corporais registraram a chegada do desembargador Marco Antônio Cogan ao apartamento minutos após o crime. Chamado pelo “amigo” coronel antes mesmo do acionamento pleno do socorro, o magistrado permaneceu no local isolado por 12 minutos.

As imagens são perturbadoras: enquanto Gisele agonizava, o Coronel Geraldo demonstrava uma calma atípica e insistia em tomar banho — uma tentativa, segundo a perícia, de eliminar resíduos de pólvora e vestígios da execução. A presença do desembargador é vista por investigadores como um “recado silencioso” de intimidação aos policiais de baixa patente. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já abriu procedimento para apurar a conduta do magistrado.

A Resistência de um Cabo

A farsa do suicídio só começou a ruir devido à firmeza do Cabo Cícero dos Santos. Mesmo sob pressão hierárquica e a presença da alta toga, o cabo barrou a entrada do coronel no banheiro e protegeu a cena do crime.

— A verdade não se constrói em versões, ela se revela por meio da Justiça — declarou o policial em suas redes sociais, onde negou sofrer represálias da instituição e reafirmou seu compromisso com os protocolos.

Marco Legal: A Criminalização da Misoginia

O caso ganha repercussão no momento em que o Senado Federal aprovou, nesta terça-feira (24 de março de 2026), o PL 896/2023, que criminaliza a misoginia. A proposta equipara o ódio e a aversão às mulheres ao crime de racismo, tornando-o inafiançável e imprescritível, com penas de até 5 anos de reclusão.

Para a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que acionou o CNJ, o caso Gisele é o emblema de que a misoginia não respeita farda ou patente. Enquanto Geraldo Leite Rosa Neto aguarda julgamento no Presídio Romão Gomes, a morte de Gisele deixa uma lição amarga sobre o silêncio e o poder: a verdade, no final, não tem superior hierárquico

.https://www.youtube.com/live/aJV9vecDml0?si=Bug5ZZpL2WwR07FA

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