COLUNA DENILSON ANDRADE | Portal Exposed Brasil
Rio de Janeiro, 07 de novembro de 2026
Por Denilson Andrade, Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades e Produtor Audiovisual
Rio de Janeiro, 07 de novembro de 2026
Por Denilson Andrade, Colunista de TV, Arte, Cultura e Celebridades e Produtor Audiovisual
A engenharia do gênio: a reverência de um produtor audiovisual ao eterno Nilton Travesso
Para quem vive o dia a dia de um set de gravação, sabe o peso de um switcher e entende que a mágica da televisão nasce muito antes de a luz vermelha da câmera acender, a partida de Nilton Travesso, aos 92 anos, representa a perda de nossa maior bússola estética. Como colunista de TV e produtor audiovisual, curvo-me diante da memória do homem que não apenas ajudou a fundar a televisão brasileira, mas ensinou gerações de profissionais a pensar em imagem, ritmo e dramaturgia.
Nilton foi a inspiração máxima para quem, como eu, escolheu respirar esse veículo apaixonante. Sua grandiosidade é incalculável porque ele dominava todas as engrenagens do ofício. Do roteiro ao corte seco, da iluminação dramática à condução delicada de um elenco, Travesso era o arquiteto invisível capaz de transformar qualquer estúdio em um templo de criatividade e respeito ao espectador.
O mapa definitivo de uma obra monumental
- TV Record, a escola do ao vivo (1953 a 1974): Presente na inauguração da emissora, liderou por 21 anos a lendária Equipe A. Quando não existia videotape e cada segundo no ar exigia precisão cirúrgica, comandou o Teatro Cacilda Becker, os históricos Festivais de Música Popular Brasileira, O Fino da Bossa, Bossaudade, Jovem Guarda, Família Trapo, Hebe, A Noite se Improvisa, Show do Dia 7, Show em Simonal e O Pequeno Mundo de Ronnie Von.
- TV Tupi, o palco da ruptura: Ao lado de Fernando Faro, dirigiu atrações musicais históricas com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Jorge Ben e Os Mutantes, enfrentando a censura e consolidando a estética tropicalista na tela.
- TV Globo, a revolução da linguagem (a partir de 1974): Chamado por Boni, ajudou a conceber e dirigir o Fantástico, onde revolucionou a linguagem musical ao produzir América do Sul, com Ney Matogrosso, inaugurando o videoclipe no Brasil. Estruturou o núcleo de criação de São Paulo, assinando sucessos como TV Mulher, Som Brasil e Balão Mágico. Também dirigiu o Chico Anysio Show, atuou em novelas como Sinhá Moça e Direito de Amar, e retornou em fases posteriores para comandar o Vídeo Show e o Mais Você, de Ana Maria Braga.
- Rede Manchete, o padrão cinematográfico: No fim dos anos 1980, reestruturou a teledramaturgia da casa, elevando a régua técnica que deu origem a clássicos como Kananga do Japão e Pantanal.
- SBT, o renascimento dramático e infantil: Nos anos 1990, reinventou as manhãs criando Bom Dia e Cia, lançando Eliana, e Sessão Desenho no Sítio da Vovó, além de dirigir Casa da Angélica e Show Maravilha. Na dramaturgia, ergueu a primeira cidade cenográfica da emissora para o fenômeno Éramos Seis (1994) e comandou As Pupilas do Senhor Reitor, Sangue do Meu Sangue, Razão de Viver, Os Ossos do Barão, além de supervisionar Chiquititas e Pérola Negra. Voltou em 2004 para dirigir Protagonistas de Novelas e o programa Charme, com Adriane Galisteu, atuando ainda como consultor do Teleton.
- Rede Bandeirantes, TV Gazeta e Jovem Pan: Foi superintendente artístico da Band, dirigindo a novela Serras Azuis (1998). Na TV Gazeta, assinou o refinado Todo Seu, de Ronnie Von. Na Jovem Pan, ao lado de seu parceiro de vida Seo Tuta, ajudou a implantar as transmissões em vídeo e apresentou o programa Dois Diretores em Cena.
- GNT, a vanguarda contemporânea: Provando que o talento verdadeiro não tem prazo de validade, assumiu a direção do icônico Saia Justa. Nos bastidores do canal pago, orquestrou o debate feminino e comportamental da TV brasileira com elegância, transformando conversas de sofá em referência cultural obrigatória.
O legado imortal do mestre dos bastidores
Mais do que prêmios ou índices de audiência, a verdadeira grandiosidade de Nilton Travesso está nas pessoas que ele formou, seja nos estúdios ou na sua conceituada Oficina de Atores, fundada em São Paulo em 2001. Ele sabia cuidar do artista em cena, administrar egos com doçura e firmeza, e transformar ideias abstratas em memória afetiva nacional
A eterna lição do mestre
Em nome de todo o Portal Exposed Brasil, dos colegas técnicos, diretores, produtores e do público que se emocionou diante da tela ao longo de sete décadas, fica a nossa eterna gratidão. Nilton Travesso provou que fazer televisão com excelência exige rigor técnico, mas sobretudo alma. O estúdio hoje silencia em luto, mas a frequência onde sintonizamos o gênio de Nilton Travesso permanecerá para sempre no ar.











