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Crítica | Cangaço Novo (Prime Video, 2ª temporada): crescer sem perder a alma

A primeira temporada de “Cangaço Novo” foi uma grata surpresa ao atualizar o imaginário do cangaço para o Brasil contemporâneo com raízes nordestinas autênticas. Três anos depois, o segundo ano expande esse universo, demonstrando que a proposta ainda tinha muito fôlego. O sertão continua sendo palco de disputas e emboscadas, mas agora os conflitos deixam de se limitar às estradas e aos esconderijos e passam a invadir também os palanques e as frágeis alianças das eleições locais.

A série retoma o desfecho da temporada anterior, mostrando as consequências do ataque promovido por Gastão Maleiro ao arraial dos Vaqueiros. O funeral do pai de Ubaldo é uma cena poderosa e marcante para essa nova fase que reúne a família, além de reabrir feridas e acelerar confrontos antigos. Ubaldo e Dinorah partem para cima dos Maleiros, enquanto Dilvânia assume uma posição central na comunidade ao lado de Zeza.

Allan Souza Lima interpreta um Ubaldo cada vez mais distante do homem deslocado do início da série. Antes havia certa hesitação; agora existe uma consciência de liderança acompanhada por culpa e desgaste. Muitas de suas decisões cobram caro, e a temporada acerta ao não transformar essa contradição em simples heroísmo.

Alice Carvalho continua sendo uma força em cena. Dinorah permanece feroz e imprevisível, mas o roteiro encontra novas camadas para além da explosão constante. Já o arco de Dilvânia é mais delicado. Thainá Duarte retorna marcada por uma dimensão espiritual que poderia soar deslocada, mas é tratada de forma simbólica e humana. Sua postura conciliadora tem como base um quê de misticismo, mas ela advém mesmo da capacidade de reconhecer a dor alheia. Em uma narrativa movida por revidar e causar mais dor, ela encarna a possibilidade de curar.

Outro grande acerto de “Cangaço Novo” é o olhar mais direto e físico para a ação, sem glamourização ou coreografias excessivamente elaboradas. A câmera na mão nos coloca constantemente próximos do perigo, entre os tiroteios secos e as perseguições para lá de realistas. A ação impacta justamente porque não busca parecer limpa, mas ser tão árida quanto a terra e os personagens.

Também continuamos com os episódios sempre iniciados por flashbacks monocromáticos em alto contraste. O recurso segue eficiente ao revelar, de forma bastante estilizada, novas informações sobre personagens e reforçar a dureza daquele ambiente. O passado aparece como uma força que molda o presente, e cada um precisa decidir o que fazer com o legado recebido.

Os novos capítulos acentuam a oposição entre a família Vaqueiro e seus rivais, e isso aproxima o espectador naturalmente de um dos lados. Como o outro campo é retratado como mais cruel, as ações violentas dos protagonistas encontram justificativas constantes. Isso acaba simplificando parte da ambiguidade retratada brilhantemente na temporada anterior.

Ainda assim, a série compensa ao dar espaço aos coadjuvantes e às intrigas políticas do interior. Zeza (Marcélia Cartaxo), Gastão Maleiro (Bruno Bellarmino) e Paulino Leite (Daniel Porpino) são exemplos desse crescimento dos personagens, além de mostrarem que a violência permanece, mas passa a disputar espaço com a política como instrumento de dominação. Nesse retrato excepcionalmente atualizado, o coronelismo moderno trocou a farda por um terno, um santinho e o mesmo discurso de “mudança”.

“Cangaço Novo” mostra como se expandir sem se perder na escala. A ação de alto nível segue intacta, enquanto a essência nordestina permanece ao retratar modos de vida que raramente recebem o espaço merecido. Quando a poeira baixa e o tiroteio cessa, fica claro que o poder continua sendo a arma mais letal.