Por Patrícia Pasquini
(Folhapress) – O Brasil enfrenta um alarmante aumento no número de adultos com obesidade, conforme dados do Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional) do Ministério da Saúde. O total de brasileiros com obesidade saltou de 3,09 milhões em 2016 para 11,12 milhões em 2026, representando um crescimento de 259% em apenas dez anos. Este aumento é particularmente preocupante, pois mais de um terço (36%) do público adulto monitorado pelo sistema apresenta essa condição.
O Sisvan é responsável por coletar informações sobre o estado nutricional da população atendida na Atenção Primária à Saúde do SUS (Sistema Único de Saúde). Além do aumento da obesidade, o número de adultos com sobrepeso também cresceu significativamente, passando de aproximadamente 4,19 milhões para 10,76 milhões, uma elevação de 156,8%. Juntas, as duas condições afetam 21,88 milhões de indivíduos, o que equivale a 71,5% dos adultos assistidos pelo Sisvan, que estão acima do peso adequado.
De acordo com o endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade e vice-presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica), a assistência à obesidade no SUS enfrenta diversos desafios, incluindo a escassez de medicamentos e a falta de capacitação profissional. Halpern destaca que a rede pública carece de um protocolo de tratamento clínico unificado e abrangente para os casos de excesso de peso, e que a cirurgia bariátrica é indicada apenas para obesidade grave, deixando a maioria da população afetada sem suporte adequado.
O especialista também aponta que, mesmo para aqueles que conseguem realizar a cirurgia, o suporte pós-operatório é insuficiente, especialmente em relação ao fornecimento de suplementos polivitamínicos essenciais. “Não há linhas de cuidado bem trabalhadas”, afirma Halpern, ressaltando que existem algumas iniciativas de excelência na abordagem da mudança de estilo de vida, mas que não são estruturais. Ele também menciona que os profissionais de saúde têm pouca formação em obesidade, o que agrava a situação.
A obesidade está relacionada a mais de 240 doenças, incluindo diferentes tipos de câncer, problemas cardíacos e redução da expectativa de vida. Durante o XVI Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado entre 28 e 31 de outubro em Salvador, a capacidade dos sistemas de saúde de oferecer prevenção, acompanhamento e tratamento adequado foi um dos temas centrais discutidos.
Os dados do Sisvan revelam que, em 24 das 27 unidades federativas, o número de adultos com obesidade em atendimento na atenção básica já supera o de pessoas com peso considerado adequado. Em 18 estados, pelo menos 70% dos assistidos apresentam excesso de peso. O Rio Grande do Sul destaca-se com os índices mais altos, onde 42,6% dos acompanhados têm obesidade e 75,9% apresentam excesso de peso. Outros estados como São Paulo e Rio de Janeiro também apresentam números alarmantes, com 40,5% e 40,1% de obesidade, respectivamente.
A taxa nacional de obesidade subiu de 25,1% em 2016 para 36,4% em 2026, marcando a primeira vez que os registros de obesidade superam os de sobrepeso. “Sabemos que a obesidade cresce e continuará subindo no Brasil. O que tentaremos fazer é que essa curva seja menos pronunciada”, afirma Halpern, enfatizando a necessidade de ações simultâneas de prevenção e tratamento.
Ações necessárias para o combate à obesidade
Para enfrentar a obesidade, Halpern sugere que são necessárias políticas públicas que incentivem o consumo de alimentos naturais e desestimulem o de ultraprocessados. Além disso, é fundamental estabelecer redes de cuidado efetivas para garantir qualidade de vida aos que já convivem com a doença.
Obesidade no contexto global
No congresso em Salvador, Halpern apresentou dados globais do estudo MAPPS II, que avalia as políticas públicas e o tratamento contra a obesidade em diversos países. Os resultados indicam que os governos oferecem pouco apoio financeiro ao setor, com notas entre 1 e 3 em uma escala de 10. Essa falta de investimento força os pacientes a arcarem com os custos do tratamento, excluindo as populações de baixa renda, especialmente em países em desenvolvimento.
O estudo também revelou barreiras significativas para o controle da obesidade, como a falta de equipes multidisciplinares, a precariedade dos serviços públicos e o estigma associado ao excesso de peso, que também afeta a percepção dos profissionais de saúde. Os resultados globais do MAPPS II serão divulgados em 4 de março de 2027, Dia Mundial da Obesidade, e um relatório específico sobre o Brasil será lançado ao longo do próximo ano.











